Pela primeira vez em séculos, o acesso ao Santo Sepulcro, o coração espiritual do cristianismo, foi barrado à mais alta autoridade católica na Terra Santa, num Domingo de Ramos. O bloqueio ao Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, por parte da polícia israelita, gerou perplexidade e indignação global. Contudo, uma análise atenta aos factos revela que este triste episódio não é, na sua essência, uma questão religiosa ou um mero zelo pela segurança pública. Trata-se, de forma flagrante, da utilização vil da fé como manobra de diversão e defesa por parte de políticos sem carácter.
A justificação inicial das autoridades israelitas para impedir o acesso do Patriarca baseou-se em motivos de segurança, invocando o tenso contexto de guerra com o Irão e a limitação de ajuntamentos a 50 pessoas. No entanto, a realidade desmonta rapidamente esta narrativa oficial. Como explicou o próprio Cardeal Pizzaballa, a Igreja agiu com total responsabilidade: não estava em causa a tradicional e massiva procissão pública, mas sim uma breve e pequena cerimónia privada, em rigoroso cumprimento de todas as restrições impostas. A interdição foi, como o Patriarcado bem classificou, uma medida “manifestamente irrazoável e gravemente desproporcionada”.
O que este bloqueio arbitrário revela é uma tática perigosa: a instrumentalização do sagrado como ferramenta de poder. Em momentos de crise profunda, políticos sem escrúpulos recorrem frequentemente a demonstrações de força sobre alvos pacíficos para projetar uma falsa imagem de controlo, autoridade e intransigência. Ao fechar as portas do Santo Sepulcro, o governo não estava a proteger os fiéis dos mísseis iranianos; estava a usar um símbolo religioso milenar como peão num tabuleiro de xadrez político, testando limites e alimentando uma narrativa de estado de sítio permanente, que convém à sobrevivência de quem governa pelo medo.
A prova cabal desta encenação política surgiu em menos de 24 horas. Perante a forte e imediata condenação internacional — que uniu vozes de países como Itália, França, Estados Unidos e Portugal (com firmes tomadas de posição do Governo e do Presidente da República, António José Seguro) —, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu recuou. Subitamente, o “risco de segurança” evaporou-se e o acesso total foi concedido. Para tentar salvar a face, Netanyahu instrumentalizou novamente a religião, acusando o Irão de atacar locais sagrados das três religiões monoteístas, transformando o episódio que o próprio governo criou, numa arma de arremesso retórico contra o inimigo externo. A fé foi reduzida a um mero adereço de propaganda.
Este acontecimento deve servir de alerta global. Quando a liberdade religiosa é tratada como um interruptor que se liga e desliga ao sabor das conveniências táticas e mediáticas de um governo, estamos perante a degradação acelerada dos valores democráticos. A fé de milhares de milhões de pessoas não pode ser feita refém de agendas políticas, nem os locais sagrados podem servir de escudo para a sobrevivência de líderes que carecem de elevação moral e ética.
O Domingo de Ramos celebra a entrada humilde de Jesus em Jerusalém, um contraste absoluto com a arrogância cega do poder temporal. Que este lamentável incidente nos recorde que a verdadeira liderança respeita a dignidade humana e a liberdade, enquanto os políticos sem carácter apenas se servem da mentira, do conflito e, quando lhes convém, da própria fé alheia para se manterem no poder.









