Há um momento em que a hipocrisia deixa de ser apenas ridícula e passa a ser obscena. Estamos a chegar perigosamente a esse ponto. Há quem fale todos os dias da “defesa da civilização cristã”, da “ameaça da islamização da Europa”, do “perigo dos migrantes” que chegam a Portugal e a outros países europeus, fugindo da fome, da guerra e da miséria. Falam alto, indignam-se muito, agitam crucifixos, citam meia dúzia de slogans e apresentam-se como guardiões da fé. Mas depois, quando chega a hora de distinguir entre o respeito verdadeiro e a instrumentalização blasfema do cristianismo, calam-se. Ou pior: aplaudem.
Sabem tanto de Bíblia que o único “versículo” que alguns conhecem não é da Palavra de Deus, mas do guião de Pulp Fiction, filme de Tarantino, que, apesar de ter uma boa banda sonora, não tem nada de sagrado. E isto, mais do que cómico, é trágico. Porque revela uma fé de adereço, uma religião usada como farda cultural, como arma identitária, como decoração política. Não é amor a Cristo, nem aos irmãos. É utilização de Cristo e manipulação dos irmãos.
Convém, então, dizer o óbvio, ainda que incomode. Vivo perto de muçulmanos. Cruzo-me com eles, observo-os, vejo as suas famílias, a sua vida concreta. E nunca os vi a troçar de Jesus Cristo. Nunca os vi querer substituir-se a Deus Pai. Nunca os vi a usar a minha fé como escada para chegar ao poder e, depois de lá chegar, cuspir-lhe em cima com arrogância e encenação. Mas vi isso da parte do atual presidente dos Estados Unidos, eleito com o entusiasmo de muitos cristãos e católicos no seu país e celebrado também por demasiados católicos em Portugal, incluindo vozes clericais que deviam saber melhor.
E aqui está a ferida: há católicos que se escandalizam mais com o lenço de uma mulher muçulmana, do que com a profanação simbólica da figura de Cristo por quem se apresenta como defensor do “Ocidente cristão”. Há quem trema perante o estrangeiro pobre, mas ache tolerável que um poderoso brinque com aquilo que, para milhões de crentes, é sagrado. Há quem veja uma ameaça no migrante que bate à porta, mas não reconheça o cinismo de quem fala de Deus enquanto humilha os frágeis, explora o medo e transforma a religião em marketing.
Pior ainda: quando instituições cristãs acolhem menores migrantes, alimentam famílias, tratam feridas e tentam salvar o mínimo de humanidade no meio da barbárie, aparecem logo os que preferem suspeitar dos pobres a converter os ricos. Os mesmos que enchem a boca com “raízes cristãs” parecem incomodados com quase tudo o que o Evangelho realmente manda fazer: acolher, proteger, dar de comer, visitar, cuidar.
Eu, pessoalmente, prefiro alguém que seja contra mim de frente, do que alguém que use a minha fé para me manipular. Prefiro a frontalidade de quem discorda, à falsidade de quem beija o crucifixo para conquistar votos e depois ridiculariza Cristo com gestos, poses e encenações de poder. Isso não é defesa da civilização cristã. É parasitismo religioso.
E digo-o, também, por experiência de vida: já vi isto acontecer em escala pessoal, mediática, eclesial e política. Gente que usa a linguagem da fé sem a conversão do coração. Gente que fala de Deus sem temor de Deus. Gente que invoca valores cristãos apenas quando isso serve para atacar os outros.
Se os cristãos católicos não defenderem a sinceridade e a genuinidade da sua fé, outros hão-de continuar a usá-la como máscara. E uma fé transformada em máscara depressa deixa de iluminar o mundo. Passa apenas a servir o espetáculo. Sem palavras.








