A psicóloga Carla Tomás explicou ao clero algarvio que o seu objetivo “não é resolver o luto”, mas “caminhar quem está a sofrer” e “ajudar a identificar recursos internos próprios [do enlutado] e comunitários”.

No âmbito dos desafios pastorais no acompanhamento das pessoas enlutadas que apresentou aos formandos, aquela doutorada em Psicologia na área da religião e da espiritualidade alertou que a “forma como se está” é “mais determinante do que aquilo que se diz”.

Na formação apresentada na assembleia geral do clero algarvio, que teve lugar no Centro Pastoral de Pêra na passada quarta-feira, 06 de maio, aquela especialista em Psicologia Clínica e da Saúde disse aos cerca de 50 participantes que “o apoio pastoral é importante porque há muitos desafios a que as pessoas têm de dar resposta”.

Ao referir-se aos recursos sociais e recursos espirituais, a psicóloga assegurou que “a ciência é completamente clara”, garantindo que os recursos espirituais “vão ser facilitadores do processo de luto”. “Os estudos dizem-nos que os recursos espirituais são muito importantes no luto. Há um conjunto de rituais – o funeral, as missas – que, do ponto de vista psicológico, também são importantes porque oferecem, num momento que é muito caótico, alguma estrutura. Também ajudam a que a pessoa se sinta apoiada porque há um conjunto de pessoas que partilham aquele momento”, sustentou, considerando que “a fé não apaga a noite, mas impede que a escuridão tenha a última palavra”.

A formadora começou por lhes explicar que o luto “é um processo” que “inclui uma adaptação ao nível emocional, cognitivo, relacional e espiritual” e por assegurar que “não há uma forma correta de fazer o luto” e que “cada pessoa faz o seu caminho de forma única”. “A nossa postura tem que ser também a de normalizar o processo de luto de quem vem ter connosco. Não é um sinal de fraqueza, não é um sinal de falta de fé. É uma expressão de uma relação que existiu e que vai sempre continuar a existir, mas num formato diferente. É uma expressão de amor”, acrescentou, salientando que “a fé pode dar enquadramento, mas não elimina o sofrimento”. Neste sentido, aconselhou a “evitar julgamentos”, “nunca comparar lutos” e a “apoiar o questionamento espiritual sem pressa”.
Carla Tomás apresentou mesmo os “vários tipos de luto” que se podem viver e enumerou os sentimentos e as “várias dimensões do luto”, explicando que enquanto “para algumas pessoas, a fé naquele momento é um refúgio, um porto de abrigo e algo que as ajuda imediatamente a lidar com a perda”, sentindo-se “acompanhadas no luto por um Deus que é Pai”, para outras para outras “é um momento de luta espiritual”.

A especialista aconselhou, por isso, a “evitar respostas rápidas e permitir que a pessoa expresse a revolta sem se sentir culpada” e desafiou a “integrar a esperança sem negar a dor” e a “partilhar com a pessoa o caminho até chegar ao momento da esperança”. “É importante haver uma presença silenciosa, não intrusiva”, acrescentou, dando primazia à “presença” e à “escuta ativa antes da palavra”.
A especialista alertou que “nem todas as interpretações religiosas ajudam” e “algumas podem gerar um fardo maior na pessoa” e exortou o clero a ajudar a “identificar formas saudáveis de recordar” quem faleceu, como a gratidão por ter tido aquela pessoa, procurando levar a “identificar o legado que fica”.

Carla Tomás constatou que “para muitas pessoas a oração também é um momento de consolo e de refúgio”, deu sugestões de “alguns rituais familiares simples” e exemplos de comunicação.

A psicóloga exortou ainda ao encaminhamento para acompanhamento psicológico ou médico se surgirem “sinais que alerta” que também enumerou e advertiu para a necessidade de procurarem informação para um “atendimento mais eficaz” a pessoas de outras culturas que não a de matriz cristã que chegam às comunidades.
Adiantando que no ano o número de mortes em Portugal “foi de mais de 122 mil pessoas”, Carla Tomás evidenciou o “grande de pessoas” que ficam num “estado de vulnerabilidade”, a “precisar de ajuda”, admitindo que muitas delas recorreram a um sacerdote. “Se fizéssemos uma média de cinco pessoas afetadas por luto por cada óbito, tínhamos um número de enlutados de 610 mil pessoas”, contabilizou.






