O padre Miguel Neto explicou no Encontro das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) canónicas, Centros Sociais Paroquiais e Santas Casas da Misericórdia de que forma a inteligência artificial (IA) pode contribuir para o trabalho desenvolvido por estas instituições.
O sacerdote da Diocese do Algarve, que dedicou a sua tese de doutoramento à literacia e às competências digitais, destacou o potencial da IA na “otimização de recursos” e na libertação de “tempo para cuidar”, bem como na gestão da comunicação, na personalização de serviços, na análise de dados e na promoção da autonomia e da inclusão.

O especialista, que refletiu sobre o tema “A Inteligência Artificial e a Solicitude Social da Igreja”, salientou que a IA pode constituir uma importante ferramenta de apoio à gestão destas entidades, sobretudo ao nível da melhoria da organização administrativa, permitindo libertar mais tempo para o cuidado humano. Referiu ainda o seu contributo para a sustentabilidade financeira, através da redução de custos e do aumento da produtividade.
Entre as aplicações concretas, apontou o “processamento rápido de dados”, o apoio à tomada de decisões e à gestão de “procedimentos burocráticos, administrativos e jurídico-legais”. Destacou também a capacidade da IA para identificar necessidades, reduzir desperdícios, otimizar a distribuição de bens e serviços, detetar padrões e tendências de comportamento, capacitar equipas, promover ações preventivas — especialmente no combate às carências sociais — e contribuir para um “melhor direcionamento das respostas” sociais.

Como exemplos práticos, o padre Miguel Neto referiu a elaboração de ementas e a gestão alimentar, o apoio aos bancos de roupa, a criação de campanhas de angariação de donativos e o reforço da captação de fundos. Sublinhou ainda a importância da IA na formação, na produção de “comunicação personalizada e eficaz”, no apoio a doentes e pessoas com deficiência e na tradução simultânea, facilitando a comunicação e o atendimento de cidadãos estrangeiros.
O sacerdote destacou ainda que “o digital veio combater a exclusão”, sublinhando que as novas tecnologias permitem reforçar a proximidade entre as instituições e as famílias. “Hoje, através do WhatsApp, podemos falar com as famílias. Há maior transparência porque conseguimos mostrar o que fazem os utentes”, afirmou.

O padre Miguel Neto desafiou também as instituições a “comunicar com dignidade” nas redes sociais, assegurando simultaneamente uma gestão rigorosa da proteção de dados. Nesse sentido, incentivou a produção de conteúdos como stories, reels e posts que deem visibilidade ao trabalho desenvolvido e também a “alertar para dilemas sociais” e a “combater preconceitos”, procurando “adaptar a linguagem a cada plataforma” que têm diferentes tipos de destinatários.
O especialista considerou que as redes sociais contribuem para reduzir distâncias, assegurar respostas mais rápidas, manter uma atenção constante e promover uma proximidade contínua com os utentes e as suas famílias. Além disso, permitem “ampliar a mensagem” das instituições, “fortalecer a relação com a comunidade”, recrutar voluntários, divulgar campanhas solidárias, angariar fundos e mobilizar apoio em situações de emergência.
O padre Miguel Neto explicou que a inteligência artificial se divide em diferentes categorias. Entre elas destacou a IA “fraca”, concebida para desempenhar tarefas específicas, e a IA “forte” ou “geral”, que procuraria replicar as capacidades cognitivas humanas, embora ainda não exista. Referiu também a IA generativa, capaz de produzir novos conteúdos a partir de informação fornecida pelos utilizadores, e a IA analítica, utilizada para processar grandes volumes de dados, identificar padrões e fazer previsões, como sucede na previsão meteorológica, nos mercados financeiros ou no apoio ao diagnóstico médico.

Na sua intervenção, o sacerdote começou por explicar que não existe “um ambiente real e outro virtual”, mas antes “um ambiente físico e um ambiente digital”. Embora este último tenha características próprias, faz igualmente parte da realidade vivida pelas pessoas. “O ambiente virtual e o mundo real não são coisas diferentes. O ambiente virtual tem influência no mundo real, neste mundo físico, e vice-versa”, sustentou.
O padre Miguel Neto introduziu ainda o conceito de “onlife”, defendendo que a vida contemporânea não se divide entre momentos online e offline. “A nossa vida não é on ou off, é onlife. Ou seja, estamos permanentemente ligados a um ambiente físico e a um ambiente digital”, explicou. Neste contexto, referiu também a “ubiquidade digital”, observando que, através das tecnologias, uma pessoa pode estar simultaneamente presente em vários espaços e contextos.

Destacando o conceito de “virtualidade real”, o orador defendeu que o ambiente digital é efetivamente real porque produz consequências concretas na vida das pessoas. “Provoca emoções”, afirmou, apontando exemplos como a alegria, a rejeição, a tristeza, a saúde ou a doença. “Aquilo que acontece no ambiente digital é real porque interfere na nossa vida, até na nossa vida física”, reforçou.
O sacerdote explicou ainda que atualmente todas as pessoas que vivem no ambiente digital são prosumers. “Produzimos conteúdo e recebemos conteúdo”, explicou, advertindo que o “conhecimento” implica análise do “fluxo de informação” existente no ambiente digital para discernir “o que é necessário, importante e verdadeiro” do que não é.
Neste sentido alertou para a “questão da desinformação e da desinfomedia”, referente à propagação de “não informação” e ao “famoso conceito de fake news”, que explicou serem “notícias falsificadas” e “não notícias falsas”. “São coisas diferentes. As notícias falsificadas têm sempre um fundo de verdade. As notícias falsas são invenções”, distinguiu, aludindo aos conceitos de “alfabetização digital” e de “literacia mediática” para “saber distinguir uma notícia verdadeira, analisar as suas fontes” e também conhecer os proprietários de cada órgão de comunicação. “Temos que compreender isto tudo para saber usá-lo numa perspetiva cristã”, concretizou.

O padre Miguel Neto advertiu que “nada é de graça no ambiente digital”. “Nós vendemos a nossa atenção, a nossa presença”, acrescentou, evidenciando ainda o conceito de “mercantilização da intimidade”. “Não nos apercebemos, mas estamos a vender a nossa intimidade em troca de seguidores, de atenção e da nossa zona de conforto”, constatou, referindo-se, a título de exemplo, ao “conceito de engagement” (engajamento) e à realidade dos influencers que procuram “dar aquilo que as pessoas querem para prender a atenção e ter mais seguidores”. “Temos que favorecer um engajamento ético, somos cristãos”, exortou.
A terminar, o sacerdote citou o Papa Francisco pedir aos participantes que “nunca se esqueçam” que “por detrás de um ecrã e dos cabos estão sempre pessoas”.










