As paróquias de Loulé realizaram no passado sábado uma “celebração de ação de graças pelo dom da presença das irmãs doroteias” que vão deixar aquelas comunidades e a Diocese do Algarve após 36 anos de serviço.

“Não é uma celebração de despedida, mas é uma celebração de ação de graças”, fez questão de distinguir o pároco de Loulé. “São mulheres felizes, consagraram a vida ao Evangelho e ordenaram-se testemunhas da presença de Cristo nos espaços onde foram convidadas a servir”, complementou o cónego Carlos de Aquino.

O sacerdote realçou, por isso, que a Eucaristia assumiria assim o caráter de “reconhecimento público à presença das irmãs” do Instituto das Irmãs de Santa Doroteia. “Reconhecimento e gratidão que queremos prestar em homenagem a estas mulheres que durante estes anos, pela sua presença, também nos ajudaram a ser mais Igreja”, sustentou, acrescentando: “Hoje é dia para trazermos ao coração com gratidão, tanto bem, tanto amor transmitido também pelo serviço generoso e sempre pronto das nossas queridas irmãs”.
O cónego Carlos de Aquino destacou que o carisma das irmãs doroteias é a educação. “Elas têm uma frase extraordinária: «Educar é formar o coração para o bem»”, revelou, explicando tratar-se de “educar e formar integralmente a pessoa na sua dignidade, transmitindo os valores do Evangelho, a proximidade, a simplicidade, a esperança, o serviço”.

“Tudo isso o viveram estas irmãs entre nós e tudo pode ser resumido num lema particularmente significativo da sua fundadora, chamada Paula Frassinetti, que acho extraordinário, uma frase muito poética e maravilhosa que convido cada um a guardar no seu coração se quer mesmo homenagear as irmãs: «A vontade de Deus é o meu paraíso». Elas sabem bem o quanto isto implica para as suas vidas”, prosseguiu, acrescentando que “também a vida das irmãs doroteias é expressão dessa vida nova que significa uma vida para Deus”. “Elas não vivem para si mesmas e se valem alguma coisa é serem presença de Deus para nós. Isto resume a identidade e o carisma de uma irmã doroteia”, desenvolveu.
Aproveitando a referência feita no Evangelho à hospitalidade, o pároco de Loulé considerou que “de hospitalidade falou nestes 36 anos o coração de cada irmã doroteia”. “Elas vivem sempre com alegria e entusiasmo, outro lema tão significativo da sua obra: «Fazei o bem e deixai cantar os passarinhos». Acho que esta frase resume a espiritualidade da sua identidade, da sua missão e da sua obra. O Evangelho desafia-nos sempre a recuperar esta cultura da hospitalidade, da atenção e da proximidade. Homenagear as irmãs doroteias é não esquecer esta lição que viveram connosco e entre nós: hospitaleiras, atentas, próximas”.

O cónego Carlos de Aquino explicou ainda que o bispo do Algarve não pôde estar presente por estar na paróquia de São Pedro de Faro a administrar o sacramento do Crisma, mas revelou que D. Manuel Quintas escreveu um email ao clero, manifestando o seu “reconhecimento” àquelas religiosas, expressado primeiramente à sua provincial. “Compreendemos, mas custa-nos muito assistir a esta real dificuldade. Como sabemos também lhes custa a elas, sobretudo às irmãs da atual comunidade e a todo o seu instituto. Temos confiança em Deus, aguardamos tempos melhores ainda que não o descortinemos. Estamos certos de que o seu testemunho nos servirá de estímulo para que o seu serviço possa continuar a ser prestado de outra forma e por outros servidores. Elas partem, mas estou certo de que continuarão a fazer parte da nossa oração e da nossa comunhão eclesial”, revelou, citando o bispo do Algarve, o sacerdote que ainda aproveitou da presença da representação autárquica para propor uma homenagem toponímica àquele instituto religioso. “Acho que seria justo esse reconhecimento público”, referiu.

No final da Eucaristia, uma jovem das comunidades louletanas, contrariou a ideia de que as irmãs efetivamente partirão. “Como podem partir se temos tanto delas no coração? Como podem partir se nos deixam tanto? Não, não partem, pois elas amam-nos e nós também as amamos e, como tal, não partem porque ficam para sempre nos nossos corações. Os afetos, os sorrisos, os gestos e todo o amor que espalharam pela comunidade ficarão sempre. Foram exemplo de serviço, de dedicação, de compaixão. E que dizer da marca na juventude da paróquia? O nosso muito obrigado por nos serem tocado o coração, dado exemplo e nos terem ajudado a encontrar o nosso caminho. Vão, mas ficam sempre connosco. Ficamos, mas vamos com vocês. Damos graças a Deus pelo dom da vossa presença entre nós. Que Deus vos continue a dar forças para mudar mais vidas”, referiu.

A celebração prosseguiu com a declamação, por David Santos, de um poema escrito pelo próprio e com a oferta de uma lembrança em nome das comunidades. A representante da Junta de Freguesia de São Sebastião, realçou precisamente a herança que as consagradas deixam na educação. “Cada uma de vocês fica connosco na nossa educação”, afirmou Leonor Faísca, que lhes fez ainda a entrega de medalha “de agradecimento e reconhecimento pelo trabalho feito e pela dedicação”.

Quem também quis agradecer e oferecer uma lembrança às homenageadas foi o presidente da Junta de Freguesia da Tôr, André Pedro. Já o presidente da Assembleia Municipal de Loulé disse ser “um dia muito triste porque a comunidade vai ficar muito pobre daqui para a frente”. “Acho que era muito importante fazer chegar a quem decide que a vossa presença aqui é necessária e que o Algarve é uma região bastante deprimida do ponto de vista das relações humanas e que as irmãs fazem a diferença”, afirmou Silvério Guerreiro, considerando serem as irmãs que “uniam as peças da comunidade”. “Acompanhei desde 1999 as irmãs fazendo muitas ações de bondade e de apoio a pessoas. E essa caridade verdadeira e discreta tem sido aquilo que marca as irmãs”, testemunhou, garantindo que as religiosas ajudaram a “levar a Igreja para fora das paredes, para junto das pessoas que mais precisam”.

A vereadora Maria Lourenço leu ainda o testemunho do presidente da Câmara Municipal, no qual manifestou a sua “profunda gratidão pelos 36 anos de dedicação, serviço e testemunho junto da comunidade de Loulé”. “A vossa presença marcada pela fé, fraternidade e compromisso com os outros permanecerá na memória do nosso concelho”, escreveu Telmo Pinto.

As últimas intervenções foram as das três irmãs doroteias. A irmã Orlanda Costa, uma das fundadoras da comunidade doroteia algarvia, deixou um “obrigado muito grande pela maneira acolhedora” como foram recebidas em 1990. “Recordo com muita saudade o desbravar de caminhos por estas terras de Loulé, não só na cidade como no campo. A muitos lugares nós chegámos. Cheguei aqui com trinta e poucos anos”, recordou, lembrando ter estado por dois períodos em Loulé, de 1990 a 1994 e de 2020 a 2026. Natural de Odivelas, concelho de Loures, depois de sair do Algarve, a irmã Orlanda Costa esteve 14 anos em São Miguel, nos Açores, também na Diocese de Setúbal e na Figueira da Foz. Em 2020 veio de Lisboa, onde esteve um ano a recuperar de uma intervenção cirúrgica. “É uma parte da minha vida que fica convosco. A todos deixo o meu bem haja. Vivi muito e aprendi muito e tenho a agradecer aquilo que levo no meu coração”, concluiu.

A irmã Isabel Miguel veio para Loulé em 2022. Natural do concelho de Vimioso, Bragança, a consagrada veio de Lisboa, onde trabalhou numa casa de irmãs idosas nos anos antes de rumar ao Algarve. “Obrigada porque me senti sempre muito bem acolhida e levo muitas saudades de todos vós. Agradeço de todo o coração tudo aquilo que recebi de vós. Levo o coração cheio”, disse.

Por fim, falou a irmã Arminda Oliveira que também esteve em Loulé por dois períodos, de 2017 a 2018 e de 2022 até agora. Quando veio pela primeira vez estava na Diocese de Setúbal, há 27 anos na paróquia de Arrentela. Natural de Fátima, a religiosa já tinha passado pelo Algarve no âmbito da iniciativa de evangelização na praia de Quarteira promovida pelo seu instituto. De 2018 a 2022 esteve em Bragança. “Deixo o meu coração e o coração das irmãs doroteias nesta comunidade de Loulé, na diocese que tão bem nos acolheu e onde tanto gostei de viver e trabalhar”, afirmou.


No final da emotiva celebração, muitos foram aqueles que se quiseram despedir das religiosas doroteias.


Irmãs doroteias vão deixar a Diocese do Algarve depois de 36 anos de serviço





