As paróquias de Loulé realizaram no passado sábado uma “celebração de ação de graças pelo dom da presença das irmãs doroteias” que vão deixar aquelas comunidades e a Diocese do Algarve após 36 anos de serviço.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

“Não é uma celebração de despedida, mas é uma celebração de ação de graças”, fez questão de distinguir o pároco de Loulé. “São mulheres felizes, consagraram a vida ao Evangelho e ordenaram-se testemunhas da presença de Cristo nos espaços onde foram convidadas a servir”, complementou o cónego Carlos de Aquino.

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O sacerdote realçou, por isso, que a Eucaristia assumiria assim o caráter de “reconhecimento público à presença das irmãs” do Instituto das Irmãs de Santa Doroteia. “Reconhecimento e gratidão que queremos prestar em homenagem a estas mulheres que durante estes anos, pela sua presença, também nos ajudaram a ser mais Igreja”, sustentou, acrescentando: “Hoje é dia para trazermos ao coração com gratidão, tanto bem, tanto amor transmitido também pelo serviço generoso e sempre pronto das nossas queridas irmãs”.

O cónego Carlos de Aquino destacou que o carisma das irmãs doroteias é a educação. “Elas têm uma frase extraordinária: «Educar é formar o coração para o bem»”, revelou, explicando tratar-se de “educar e formar integralmente a pessoa na sua dignidade, transmitindo os valores do Evangelho, a proximidade, a simplicidade, a esperança, o serviço”.

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“Tudo isso o viveram estas irmãs entre nós e tudo pode ser resumido num lema particularmente significativo da sua fundadora, chamada Paula Frassinetti, que acho extraordinário, uma frase muito poética e maravilhosa que convido cada um a guardar no seu coração se quer mesmo homenagear as irmãs: «A vontade de Deus é o meu paraíso». Elas sabem bem o quanto isto implica para as suas vidas”, prosseguiu, acrescentando que “também a vida das irmãs doroteias é expressão dessa vida nova que significa uma vida para Deus”. “Elas não vivem para si mesmas e se valem alguma coisa é serem presença de Deus para nós. Isto resume a identidade e o carisma de uma irmã doroteia”, desenvolveu.

Aproveitando a referência feita no Evangelho à hospitalidade, o pároco de Loulé considerou que “de hospitalidade falou nestes 36 anos o coração de cada irmã doroteia”. “Elas vivem sempre com alegria e entusiasmo, outro lema tão significativo da sua obra: «Fazei o bem e deixai cantar os passarinhos». Acho que esta frase resume a espiritualidade da sua identidade, da sua missão e da sua obra. O Evangelho desafia-nos sempre a recuperar esta cultura da hospitalidade, da atenção e da proximidade. Homenagear as irmãs doroteias é não esquecer esta lição que viveram connosco e entre nós: hospitaleiras, atentas, próximas”.

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O cónego Carlos de Aquino explicou ainda que o bispo do Algarve não pôde estar presente por estar na paróquia de São Pedro de Faro a administrar o sacramento do Crisma, mas revelou que D. Manuel Quintas escreveu um email ao clero, manifestando o seu “reconhecimento” àquelas religiosas, expressado primeiramente à sua provincial. “Compreendemos, mas custa-nos muito assistir a esta real dificuldade. Como sabemos também lhes custa a elas, sobretudo às irmãs da atual comunidade e a todo o seu instituto. Temos confiança em Deus, aguardamos tempos melhores ainda que não o descortinemos. Estamos certos de que o seu testemunho nos servirá de estímulo para que o seu serviço possa continuar a ser prestado de outra forma e por outros servidores. Elas partem, mas estou certo de que continuarão a fazer parte da nossa oração e da nossa comunhão eclesial”, revelou, citando o bispo do Algarve, o sacerdote que ainda aproveitou da presença da representação autárquica para propor uma homenagem toponímica àquele instituto religioso. “Acho que seria justo esse reconhecimento público”, referiu.

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No final da Eucaristia, uma jovem das comunidades louletanas, contrariou a ideia de que as irmãs efetivamente partirão. “Como podem partir se temos tanto delas no coração? Como podem partir se nos deixam tanto? Não, não partem, pois elas amam-nos e nós também as amamos e, como tal, não partem porque ficam para sempre nos nossos corações. Os afetos, os sorrisos, os gestos e todo o amor que espalharam pela comunidade ficarão sempre. Foram exemplo de serviço, de dedicação, de compaixão. E que dizer da marca na juventude da paróquia? O nosso muito obrigado por nos serem tocado o coração, dado exemplo e nos terem ajudado a encontrar o nosso caminho. Vão, mas ficam sempre connosco. Ficamos, mas vamos com vocês. Damos graças a Deus pelo dom da vossa presença entre nós. Que Deus vos continue a dar forças para mudar mais vidas”, referiu.

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A celebração prosseguiu com a declamação, por David Santos, de um poema escrito pelo próprio e com a oferta de uma lembrança em nome das comunidades. A representante da Junta de Freguesia de São Sebastião, realçou precisamente a herança que as consagradas deixam na educação. “Cada uma de vocês fica connosco na nossa educação”, afirmou Leonor Faísca, que lhes fez ainda a entrega de medalha “de agradecimento e reconhecimento pelo trabalho feito e pela dedicação”.

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Quem também quis agradecer e oferecer uma lembrança às homenageadas foi o presidente da Junta de Freguesia da Tôr, André Pedro. Já o presidente da Assembleia Municipal de Loulé disse ser “um dia muito triste porque a comunidade vai ficar muito pobre daqui para a frente”. “Acho que era muito importante fazer chegar a quem decide que a vossa presença aqui é necessária e que o Algarve é uma região bastante deprimida do ponto de vista das relações humanas e que as irmãs fazem a diferença”, afirmou Silvério Guerreiro, considerando serem as irmãs que “uniam as peças da comunidade”. “Acompanhei desde 1999 as irmãs fazendo muitas ações de bondade e de apoio a pessoas. E essa caridade verdadeira e discreta tem sido aquilo que marca as irmãs”, testemunhou, garantindo que as religiosas ajudaram a “levar a Igreja para fora das paredes, para junto das pessoas que mais precisam”.

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A vereadora Maria Lourenço leu ainda o testemunho do presidente da Câmara Municipal, no qual manifestou a sua “profunda gratidão pelos 36 anos de dedicação, serviço e testemunho junto da comunidade de Loulé”. “A vossa presença marcada pela fé, fraternidade e compromisso com os outros permanecerá na memória do nosso concelho”, escreveu Telmo Pinto.

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As últimas intervenções foram as das três irmãs doroteias. A irmã Orlanda Costa, uma das fundadoras da comunidade doroteia algarvia, deixou um “obrigado muito grande pela maneira acolhedora” como foram recebidas em 1990. “Recordo com muita saudade o desbravar de caminhos por estas terras de Loulé, não só na cidade como no campo. A muitos lugares nós chegámos. Cheguei aqui com trinta e poucos anos”, recordou, lembrando ter estado por dois períodos em Loulé, de 1990 a 1994 e de 2020 a 2026. Natural de Odivelas, concelho de Loures, depois de sair do Algarve, a irmã Orlanda Costa esteve 14 anos em São Miguel, nos Açores, também na Diocese de Setúbal e na Figueira da Foz. Em 2020 veio de Lisboa, onde esteve um ano a recuperar de uma intervenção cirúrgica. “É uma parte da minha vida que fica convosco. A todos deixo o meu bem haja. Vivi muito e aprendi muito e tenho a agradecer aquilo que levo no meu coração”, concluiu.

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A irmã Isabel Miguel veio para Loulé em 2022. Natural do concelho de Vimioso, Bragança, a consagrada veio de Lisboa, onde trabalhou numa casa de irmãs idosas nos anos antes de rumar ao Algarve. “Obrigada porque me senti sempre muito bem acolhida e levo muitas saudades de todos vós. Agradeço de todo o coração tudo aquilo que recebi de vós. Levo o coração cheio”, disse.

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Por fim, falou a irmã Arminda Oliveira que também esteve em Loulé por dois períodos, de 2017 a 2018 e de 2022 até agora. Quando veio pela primeira vez estava na Diocese de Setúbal, há 27 anos na paróquia de Arrentela. Natural de Fátima, a religiosa já tinha passado pelo Algarve no âmbito da iniciativa de evangelização na praia de Quarteira promovida pelo seu instituto. De 2018 a 2022 esteve em Bragança. “Deixo o meu coração e o coração das irmãs doroteias nesta comunidade de Loulé, na diocese que tão bem nos acolheu e onde tanto gostei de viver e trabalhar”, afirmou.

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No final da emotiva celebração, muitos foram aqueles que se quiseram despedir das religiosas doroteias.

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Irmãs doroteias vão deixar a Diocese do Algarve depois de 36 anos de serviço