Francisco Dores é de Castro Verde, na vizinha Diocese de Beja, mas está há quase um ano e meio a trabalhar na Alemanha, na cidade de Bremen, e para participar na quarta edição do ‘labOratório’, realizada a semana passada em Portimão, tirou seis dias de férias.

“Eu gosto muito de música e, por isso, uso muito a música para rezar e a música é a forma que mais me aproxima de Deus”, garantiu ao Folha do Domingo, explicando que foi, ao decidir, “procurar novas músicas no Spotify” que tomou contacto com o projeto. “Apareceram umas músicas de uma coisa que se chamava ‘LabOratório’ e fiquei curioso e fui ver o que era. Achei super-interessante e pensei: «isto é mesmo para mim»”, contou.

Ao comentar o assunto com um padre amigo, soube que este ano voltaria a haver edição e ficou atento às inscrições “porque fazia todo o sentido” para si. “Não só pelo facto de juntar a música e a fé, que são duas coisas muito importantes na minha vida, mas também esta questão de criar novas músicas e do sentido de comunidade também que existe entre todos”, justificou.

Francisco Dores conta que a sua relação com a música começou cedo. “Não me lembro de mim sem cantar. Entrei no conservatório com quatro anos e depois estive até ao fim do secundário. Durante a licenciatura e o mestrado estive um bocadinho mais afastado, pois deixei de ter formação musical, mas depois, como sentia falta dessa vertente na minha vida, comecei a compor também músicas com voz e guitarra”, referiu, explicando que, entretanto, aprendeu a tocar aquele instrumento.

“Foi isso que me levou a escolher o ‘LabCria’, essa modalidade de composição dentro do ‘labOratório’, também porque sinto que, nesta altura, a criação da música — para além do canto — é a forma através da qual também me sinto chamado a servir os outros”, complementou.

Aquele jovem músico testemunha ainda que até entrar na universidade manteve sempre uma ligação muito próxima com a Igreja da sua terra, tendo completado a iniciação cristã. “Aprendi a viver e a perceber que, de facto, a vida só faz sentido com Deus e Ele na minha vida tem sido uma constante. E, cada vez mais, sinto que só faz sentido viver desta forma, seja naquilo que for e em que área trabalhemos. Não temos de ser todos padres ou freiras, mas podemos ser todos santos no sentido de viver o amor no nosso dia a dia e, em tudo aquilo que fazemos, fazê-lo com amor”, referiu.

Na Alemanha, Francisco Dores diz que tem sido “um bocadinho mais difícil” manter essa relação com a Igreja. “Principalmente, o facto da Missa não ser em português e por ser uma língua diferente, é mais difícil integrar grupos de jovens ou ter este tipo de projetos”, justificou.

Aquele jovem diz que semanas como a que passou em Portimão o ajudam a “recentrar”. “Uma semana de férias na praia também é boa, mas as que me completam são estas. Para quem está fora do país e para quem trabalha, parece que poderia haver outras oportunidades ou outras formas melhores de aproveitar o tempo, mas a verdade é que sinto mesmo que é desta forma que consigo descansar e que centrar-me novamente”, testemunha.

Francisco Dores considera que a participação no ‘labOratório’ “valeu muito a pena” e “superou expetativas, sobretudo do ponto de vista espiritual, porque não estava à espera de progredir tanto”. “Cheguei aqui um bocadinho desfocado e saio desta semana de coração cheio e com uma sensação de missão para partir e pôr isto em prática. Apesar de estar lá fora e de não poder pôr estas músicas em prática porque onde estou não falam português, mas posso desenvolver ainda mais esta minha vertente da composição e agora já tenho novas pessoas com quem posso partilhar e discutir estas coisas. Isso vai ser muito importante também para mim”, realçou.

A quarta edição do ‘labOratório’ foi a primeira realizada no Algarve e reuniu em Portimão, de 18 a 26 de julho, 60 músicos, dos quais 46 formandos, oito formadores e seis outros participantes de outras dioceses para além do Algarve como Braga, Beja, Porto, Évora, Guarda, Lisboa ou Setúbal e que ficaram alojados na Escola EB 2,3 D. Martinho Castelo Branco.

Alguns inscreveram-se como cantores, outros como instrumentistas, outros ainda como maestros ou criadores, mas todos com o objetivo de compor música litúrgica que posteriormente fica disponibilizada gratuitamente para quem a quiser usar.

O grupo dos formadores era composto na sua maioria por músicos profissionais, cantores do Coro Gulbenkian, professores universitários e diretores corais de Lisboa, do Porto e de Braga, e ainda por sacerdotes jesuítas que também são músicos.

Edição do ‘labOratório’ em Portimão reuniu 60 participantes a compor música rezada para liturgia