Beatriz Bernardo chegou a São Tomé e Príncipe em setembro de 2023 e só regressou ao Algarve em outubro do ano passado.

Aquela que seria inicialmente uma missão de um ano apenas, pela mão da ‘Leigos para o Desenvolvimento’, ONGD católica ligada aos jesuítas, acabou por ser prolongada. “Achei que um ano era pouco desde chegar, estar, integrar, até perceber, efetivamente, o que é que me era pedido”, explicou a jovem missionária ao Folha do Domingo.

Beatriz Bernardo refere que trouxe “acima de tudo, uma grande confiança em Deus”. “Acho que é impossível viver uma experiência destas sem crescer na fé de alguma forma”, testemunha, acrescentando ter trazido também “uma certeza muito grande de que o Senhor sabe o caminho”. “E eu só tenho de confiar. E acho que também foi muito isso que trouxe quando regressei. Durante a missão, claro, mas também quando regressei. Entre outras coisas que são vividas porque estamos fora da nossa zona de conforto e fora de tudo aquilo a que estamos habituados”, prosseguiu.

Beatriz Bernardo, de 24 anos, nasceu em Lisboa, mas com apenas dois anos veio viver para Armação de Pêra com a família que é toda algarvia.

Aquela missionária, licenciada em Matemática Aplicada que participou na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de Lisboa como voluntária na área da segurança, refere que antes daquela experiência “a decisão já estava tomada, mas foi uma ótima forma de a confirmar”. “A ideia da alegria missionária, de nos desinstalarmos sem medo, de ir ao encontro do outro e ir sem medo. Ou ir mesmo com medo. Houve ali muitos pontos importantes para confirmar que era este o caminho”, explicou em 2023 ao Folha do Domingo.

Beatriz cresceu ligada à paróquia de Armação de Pêra, tanto na catequese como no coro, mas, quando a passagem para o ensino secundário a obrigou a ir estudar para Portimão, integrou-se no grupo de jovens da paróquia de Nossa Senhora do Amparo daquela cidade.

Conheceu então os sacerdotes jesuítas, ao cuidado dos quais se encontra aquela paróquia, e mais tarde, quando foi estudar para Lisboa, integrou o CUPAV – Centro Universitário Padre António Vieira, organização também ligada aos padres da Companhia de Jesus a que já os seus pais haviam pertencido.

Na capital começou a participar nas Eucaristias naquele espaço e foi numa delas que descobriu a ‘Leigos para o Desenvolvimento’. Beatriz Bernardo seguiu para São Tomé e Príncipe com mais dois jovens: Lourenço Sarávia e Pedro Bacalhau. Ficaram alojados no bairro da Madre de Deus da cidade de São Tomé, numa casa da diocese local, e trabalharam no projeto “Roteiro da Boa Morte”, um roteiro interpretativo naquele outro bairro da periferia da capital são-tomense que lhe empresta o nome e que acolhe cerca de 6.000 habitantes.

A iniciativa de turismo comunitário — nascida no âmbito do Projeto ReCriar o Bairro, dinamizado pela ‘Leigos para o Desenvolvimento’ e financiado pelo Instituto Camões e pela Fundação Calouste Gulbenkian — apresenta-se como um “produto único, diferenciado e focado na promoção e divulgação da enorme riqueza cultural” ali existente, agregando história, arte e artesanato.

Trabalharam ainda em Praia Melão, uma zona mais perto do mar, onde o projeto “Bairro Limpo” surge da perceção da comunidade de que a gestão do lixo é uma questão importante.

Em jeito de balanço, a missionária do Algarve conta que a experiência “correu muito bem” e que o trabalho foi “intenso” e “desafiante”.