O Centro Pastoral de Pêra encheu-se dos acordes acústicos da guitarra do padre Duarte Rosado que deram suporte à interpretação natural e despretensiosa, ao serviço da narrativa das suas canções que faz refletir.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O sacerdote jesuíta, que é uma das atuais referências nacionais da música católica, atuou no passada sexta-feira, 09 de outubro, num concerto promovido pelo Setor da Pastoral dos Jovens da Diocese do Algarve, em ambiente intimista, em que a música aliada à palavra bíblica foi terreno para a reflexão sobre o amor, a liberdade, a fragilidade e a relação com Deus, com recurso à simplicidade melódica e ao engenho literário.

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O concerto decorreu com o sacerdote a interpretar os temas acompanhado apenas pela guitarra, explorando diferentes afinações do instrumento. Ao longo da atuação, o padre Duarte Rosado foi apresentando os temas e partilhando o significado das letras, num diálogo com o público que permitiu conhecer melhor o processo criativo e a dimensão espiritual da sua obra.

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João Costa, um dos coordenadores do Setor Diocesano da Pastoral dos Jovens, descreveu o trabalho do sacerdote como uma “porta genuína de beleza que nos acolhe e nos deixa entrar por caminhos muito bonitos onde a nossa fé se liga com a estética e com a música”. O responsável acrescentou que a Pastoral dos Jovens há muito tempo que aspirava pela vinda do sacerdote-músico.

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Natural do Porto, onde nasceu em 1985, Duarte Rosado é sacerdote jesuíta, cantor, compositor e letrista. Estudou Psicologia, curso que não concluiu por ter entrado, aos 21 anos, na Companhia de Jesus. Fez o noviciado em Coimbra, estudou Filosofia em Braga e Teologia e Teologia Bíblica em Roma, onde viveu cinco anos.

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Numa primeira abordagem musical, a sua criação do padre Duarte Rosado partiu dos textos bíblicos do profeta Isaías, conjugando a poesia com uma linguagem musical contemporânea. Sobre este encontro entre a antiguidade dos textos e a sua criação musical, considerou tratar-se de um “texto muito antigo com uma linguagem musical bastante nova”.

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O álbum ‘Um Grito Chamado Isaías’, que reúne sete canções inspiradas no profeta bíblico, demorou cerca de dez anos a ser gravado. O sacerdote explicou que a decisão de escrever música está também ligada à vontade de fazer dela um “lugar de missão”. “Escreve-se também para quem vai ouvir na esperança de que isto possa ajudar, por um lado, a rezar, depois, por outro lado, a olhar para dentro e para uma certa profundidade”, afirmou.

O amor como liberdade e risco

Entre as canções interpretadas esteve “Oração da Insensatez”, um tema inédito que integrará o próximo álbum do sacerdote. Ao apresentá-lo, o padre Duarte Rosado questionou a valorização excessiva da prudência e da sensatez, defendendo que, em determinadas circunstâncias, estas podem limitar a capacidade de arriscar e de viver. A canção surge como um pedido de insensatez, inspirado na forma como entende o amor de Deus e a vocação humana para amar.

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A ideia de um Deus que ama sem controlar esteve também presente numa das canções do álbum Um Grito Chamado Isaías. Segundo explicou, trata-se de “um Deus que liberta” e que, ao amar, corre o “risco” de deixar o ser humano verdadeiramente livre.

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O tema do amor incondicional regressou na interpretação de outra canção inspirada em Isaías, através da ideia de um Deus que “não se cansa de amar e acompanhar”. “Ao mesmo tempo que é doce, segredada quase, é gritada pela nossa teimosia em convencermo-nos de que somos amados independentemente de tudo”, referiu.

A dificuldade em aceitar esse amor esteve igualmente no centro de “Fechado”, outra das novas canções apresentadas. O sacerdote relacionou o tema com o medo de se mostrar tal como se é perante os outros. Explicou que, por vezes, as pessoas procuram apresentar uma espécie de currículo, mostrando apenas os aspetos positivos da sua vida, e acabam por construir uma muralha que as impede de se deixarem conhecer e amar.

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A reflexão estendeu-se à sociedade contemporânea, que considerou marcada por possibilidades de entretenimento permanente. “Hoje em dia, se quisermos, podemos passar a vida inteira toda, entretidos”, observou, alertando para a possibilidade de o entretenimento funcionar como forma de anestesiar determinadas dimensões da experiência humana.

A fragilidade como caminho de crescimento

A fragilidade, tema central de uma das canções mais conhecidas do sacerdote, ocupou um lugar de destaque no concerto. Ao apresentar “Fragilidade”, o padre Duarte Rosado relacionou a identificação do público com a música com o facto de esta abordar experiências concretas da vida.

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O sacerdote questionou a procura de uma perfeição assente em ter tudo organizado e sob controlo, contrapondo-lhe uma conceção de perfeição ligada ao amor, à misericórdia e à bondade. O músico defendeu que a vida é necessariamente incompleta porque cada pessoa se encontra a meio de um caminho de crescimento.

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Para o padre Duarte Rosado, reconhecer essa condição permite deixar de lutar contra uma fragilidade inevitável e transformá-la numa oportunidade de amadurecimento. A canção, disse, exorta a um tipo de perfeição “que faz crescer e ajuda a viver”.

Também em “Sede”, o sacerdote abordou a experiência humana como uma travessia no deserto, evocando o percurso do povo de Israel. Descreveu o deserto como um lugar de confiança, onde a pessoa se encontra desarmada e deixa de poder apoiar-se naquilo que apresenta como mérito próprio. “O deserto é sempre o lugar da confiança”, afirmou, explicando que a canção procura apresentar a sede interior como um espaço de encontro com Deus. “Acho que temos em nós, dentro de nós, uma sede que tem exatamente a forma de Deus” acrescentou.

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O repertório incluiu ainda “O Fora e o Dentro” e terminou com “Sabor da Maçã”, esta última interpretada a pedido e acompanhada pelo público com palmas.

Depois do concerto realizou-se um momento de convívio, acompanhado de um lanche oferecido pelo Centro Pastoral.

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A atuação permitiu conhecer uma obra em que a música de autor, a poesia bíblica e a experiência espiritual se cruzam, procurando suscitar perguntas, promover a reflexão e abrir espaço à oração.

Novo álbum a caminho

Durante o concerto, o músico anunciou que está a preparar um novo álbum, que terá edição também em vinil. Entre os temas que farão parte do disco, para além das já referidas “Oração da Insensatez” e “Fechado”, deu também a conhecer “Alegria dorida”, tema que aborda uma alegria que não deixa de ser atravessada pela dor, e mais duas novas canções.