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COM a reforma política, do absolutismo ao liberalismo, as migrações mediterrâneas, centro-europeias, leste europeu e judias, começaram as suas deslocações. À cidade chegou uma comunidade judaica, vinda, sobretudo de regiões do Norte de África.

Era o sonho das raízes, regressar à amada Pequena Jerusalém, como era considerada a antiga cidade de Faro, desde o êxodo dos judeus, no início do século XVI.

Entre a década de 1820/30, chega a Faro uma extensa família judaica, que aqui permaneceu um pouco para além de um século. Vieram encontrar a sua pequena Jerusalém irreconhecível, dado à transformação, pela reconstrução, que a cidade sofrera pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755.

Os judeus traziam, no seu enriquecimento, um abastado pé de meia. Não será de exagerar que, com a chegada destes emigrantes: estranhos em fortuna, cultura, religião e hábitos, a cidade se ressinta nos seus costumes ancestrais. E uma parte teria que ceder à outra. E a mais forte imperou. O porquê: a moeda forte dos judeus.

É certo que já pela cidade vivia uma média comunidade europeia, com ingleses, franceses e holandeses a dominar a economia local, em exportações dos nossos produtos naturais: frutos secos, a dominar e conservas a completar.

As novas ideias da Revolução Francesa ficaram desde a invasão de Napoleão, pelo ano de 1808. Eles abalaram derrotados, como afirmou, recentemente, o historiador inglês, Adrian Goldsworthy no seu trabalho, “ Soldados de Honra”: Foi em Portugal que o exército napoleónico começou a ser derrotado, o que representa para Napoleão o que Estalinegrado significou para Hitler, na II guerra mundial.

Terminados os termos de comparação, regressemos aos judeus de Faro e outras comunidades: italianos, franceses, holandeses. Estes sem diferenças sociais, como europeus tradicionais e sem contrafeito in loco.

Faro nessa reconstrução da cidade em dimensões diversas e aceleradas. Numa burguesia ambiciosa a querer superar a aristocracia de nobreza regional e decadente, abraçando as novidades recentes. Tem o Atlântica como estrada marítima e natural. O comboio ainda é um sonho progressista. Não deixa, no entanto, a cidade, em receber as novidades da Europa mais avançada. Por cá temos gente que negoceia com Londres, com Veneza, com Paris, com Amesterdão; até com Nova Iorque e Moscovo Os Consulados estão ao serviço das comunidades e dos negócios. A cidade enfeita-se de pedra, de cantaria, em arrojada construção de imóveis notáveis, para uma pequena cidade que aceita a cartilha e se governa no novo conceito político do liberalismo. Abre o primeiro banco, em Faro, o Banco Rural (1843), sob o patrocínio do novo governador civil, Marçal Aboim, militar que fora ao serviço do senhor D. Miguel, e que logo transita para a causa liberal, a de melhor proveito aos interesses futuros, deste louletano.

No “Levantamento Epigráfico – Sobre os Judeus de Faro”, de José Maria Abecassis, que: “Os primeiros judeus a virem para Portugal eram, na sua quase totalidade, provenientes de Gibraltar, e de Tanger, Tetuão e Mogador, em Marrocos. Eram pequenos comerciantes, vendendo por atacado e a retalho, com contactos internacionais. Todos sabiam ler e escrever. Falavam, além do hebraico, língua litúrgica e portadora de cultura. O ladino, a língua próxima do castelhano do século XV, que continuaram a falar em casa, e o muçulmano ou o inglês, línguas faladas na rua, nas suas terras de origem. Estes eram os Sefarditas, expulsos de Espanha em 1492 e de Portugal, em 1498, habitantes seculares da Península Ibérica, e que haviam recusado converter-se ao cristianismo”.

Desta gente, chegada a Portugal., que se espalha pelo país e ilhas adjacentes, chega uma Faro, nos anos vinte, do século XIX, uma comunidade de algumas dezenas de famílias judias, extremamente cobiçosas em chegarem à terra, donde os seus haviam partido, a mais de três séculos de distância. Vinham carregados de esperanças, de ambições, de verberações. Eles são os: Amram, Amzalak, Attias, Cohen, Ezaguy, Levy , Ruah, Sabath, Toledano,Hamu, Moisés, David, Samuel, Abraham, Tamuz, etc, etc. Por cá refazem os seus viveres, se reproduzem e vão morrendo, abandonando a sua pequena Jerusalém, pouco depois do fim da segunda guerra mundial. Era o tempo de recolher à que eles sempre esperaram chegar, à natural, a Jerusalém da Palestina.

Muitos dos costumes da cidade irão mudar, aceites pela burguesia vigente. Com nos comunica o saudoso estudioso da cidade, Mário Lyster Franco: A colónia judaica, residente em Faro, foi muito importante para a cidade. Pela sua participação na economia local, pela circulação de capitais, chegaram até nós, para além dos residentes, maior número de Cônsulos, dado o movimento de negócios. A tal ponto que a vida mundana e social da cidade estava de acordo com o calendário judaico, mudando as suas festas, para não interferir, nas dos judeus, que eram inalteráveis, assim se julgava e assim se retribuíam. Eram as tertúlias familiares: bailes, banquetes, conferências, espectáculos. O senhor Abraham Amram foi o mais destacado judeu farense do século XX.

Lembramos de quando da visita real, D. Carlos e D. Amélia, foi Abraham Amram quem cedeu o mobiliário, único, pelo luxo, para os aposentos da família real, instalada no Paço Episcopal, em final do século XIX.

(Continua)

Teodomiro Neto

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