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Saber que estamos a viver a maior crise económica do pós-25 de Abril já não é novidade para ninguém. Mas, uma análise mas cuidada desta crise e da forma como ela é abordada, leva-nos a perceber alguns aspetos interessantes.

Se há uma coisa boa na crise é o “à vontade” com que falamos dela, das suas causas e consequências. Discute-se hoje a crise económica ao mesmo nível que se discutem as telenovelas da TVI ou da SIC, os jogos de futebol, ou as eleições no Sporting. No outro dia, encontrei duas senhoras septuagenárias que conversavam assim entre elas:

– Oh Teresinha, já viste o rating de Portugal? Já baixou outra vez… Parece que já estamos no junk! No lixo!
– Ai, Mariazinha! Não me diga uma coisa dessas! Não descansam enquanto não nos colocam ao mesmo nível da Grécia! São uns vigaristas!
– Pois são Teresinha! Olhe, são iguais ao malvado do Rodrigo da telenovela da noite da TVI! Coitado do Joaquim, emocionou-se tanto ao ver a Teresa… Mas ele vai ficar bom! Aquele Rodrigo, a prisão é pouco para ele!…
– Ai Mariazinha, não me diga nada! Tenho o coração em Lágrimas! Mas olhe, gostei tanto de ver a Susana pedir o Tristão em casamento!… Vem-me à lembrança o “descansado” do meu António! Pediu-me em casamento com umas botas de borracha cheias de lama!

Pois é! Graças a esta crise, todos nós agora sabemos que, para além das agências de viagens, existem também as agências de rating. Umas vendem-nos viagens a sítios paradisíacos, as outras mandaram-nos diretamente para o lixo, perdão, junk! Graças a esta crise, todos sabemos que, para além dos mercados de Faro, Olhão, Quarteira, ou Tavira, temos os mercados financeiros. Os primeiros, dizem-nos que há peixe fresco, bom e barato! Os segundos, dizem-nos que quase não temos dinheiro para comprar peixe congelado e que, por isso, precisamos de pedir mais um empréstimo! Graças a esta crise, todos ficámos a saber que o sonho do Hitler em dominar toda a Europa concretizou-se 66 anos depois de a Alemanha ter perdido a 2ª Guerra Mundial. A Angela Merkel conseguiu concretizar o sonho do antigo ditador alemão, com a vantagem de não ser preciso matar mais de setenta milhões de pessoas, nem de construir campos de concentração! Além disso, convenhamos, tem uma figura muito mais simpática e bonita que o antigo ditador alemão. Uma senhora de meia-idade, alta e loira, é sempre uma figura mais simpática do que um homem pequeno, que para além de ter um bigode pequeno e feio, tem um ar completamente sinistro! A nossa amiga Angela, ao contrário, tem um ar de boa dona de casa, simpática e poupadinha nas contas!

Mas os partidos políticos também seguem a mesma onda de nos facilitar a vida, ou pelo menos esforçam-se para tornar acessível, a todos nós, as várias siglas desta crise económica. Eles ensinam-nos o que é o FMI, o FEEF, ou a OCDE. A mim estas siglas causam-me alguma empatia, sobretudo quando os ouço falar dos vários PECs. Quando falam do PEC1, do PEC2, PEC3, ou PEC4, veem-me logo à memória alguns dos meus jogos de computador preferidos! Apetece-me logo dizer: – “o meu favorito é sem duvida o PES 5, mas decididamente o CM 4 é o jogo da minha vida! Tantas tardes que passei a jogar nele! Ganhei tudo o que havia para ganhar!”

Meus amigos, este não é um texto cómico! Antes o fosse!… Era sinal de que isto era uma mentira! O problema é que tudo isto é verdade! E perante esta verdade, gostaria de perguntar a todos os governantes (se tivesse oportunidade para isso) aquilo que todos andamos a questionar há muito tempo: – “Como é que se sai da crise?! O que é preciso fazer? Estou farto de ouvir falar das suas causas e consequências! Não quero saber se a culpa é de quem nos governou há 15, ou há 10 anos, ou se é de quem nos governa há 6 anos. Já que em Portugal, notoriamente, os Tribunais têm dificuldade em executar a justiça, sobretudo quando se trata de altos crimes financeiros, de que nos serve saber quem são os culpados da crise? Nós queremos é soluções! Queremos é saber como se sai da crise! O que compete ao próximo governo fazer? O que compete a nós fazermos no futuro próximo? Antes de responderem a esta pergunta, convêm recordar, que apesar de haver muitas pessoas a receberem muito pouco dinheiro, elas precisam desse pouco para viver! Não vale tirar esse pouco, por ser apenas um subsídio! Porque esse subsídio, em muitos casos, é a única fonte de rendimentos.

Obrigado pelas lições de economia. Obrigado por discutirem os assuntos económicos ao nível de senhoras de 70 anos, ou de viciados em jogos de computador. Mas, parece-me que chegou a altura de apresentarem as soluções para sairmos desta crise, não acham?

Miguel Neto
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