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Certamente, em 1967, quando instituiu o “Dia da Paz”, São Paulo VI não imaginaria que 54 anos depois, no dia 1 de janeiro de 2021 (e antes mesmo desse dia), se estaria a falar da “Cultura do Cuidado” como algo central na vida das pessoas, que em período de gestão de uma pandemia absolutamente inusitada, deveriam regressar aos princípios básicos do cristianismo, ou seja, aos mandamentos fundamentais, como dizia Cristo (Mateus 22: 34-40 e Marcos 12: 28-34): «Ama o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento» e «Ama o teu próximo como a ti mesmo».

A reflexão sobre estes dois princípios basilares da nossa Fé deveria acompanhar-nos quotidianamente, mas acabamos muitas vezes por nos esquecer de quem é o nosso próximo. E falo por mim. Quando do púlpito desafio as crianças da minha paróquia a olharem para o colega que está ao seu lado, faço mentalmente o mesmo exercício e sinto uma profunda tristeza, porque efetivamente, aquilo que agora nos volta a lembrar o Santo Padre, é o que deveríamos fazer todos os dias, sem preconceitos, sem radicalismos, sem suspeitas e olhares enviesados, porque estes geram «nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos», que «semeiam morte e destruição». Geram, inclusivamente, a divisão dentro da Igreja, onde também existem estes radicalismos e estes medos de regressar ao que é mais importante: o que nos pediu Nosso Senhor.

O próximo é aquele que caminha ao nosso lado e que, independentemente de ser pobre ou rico, bonito ou feio, simpático ou não, merece o nosso amor, aquele amor fundamental que garante que não lhe faltam as condições básicas para viver com dignidade. Não é preciso gostarmos de alguém para o vermos como nosso próximo, mas para ele ser o nosso próximo temos de o respeitar como filho de Deus, igual a nós nessa condição. E, por isso, devemos, como nos desafia Francisco nesta sua mensagem já divulgada e referente ao dia 1 de janeiro de 2021, viver uma “cultura do cuidado como percurso para a paz”. Temos de trabalhar para construir «uma sociedade alicerçada em relações de fraternidade», em que todos trabalhamos para cuidar «uns dos outros e da criação». E que é oposto da cultura da maledicência; da soberba de quem se sente mais justo e correto que todos os demais; da indiferença, do descarte e do conflito, salienta o Papa.

E não é este o espírito do Natal, o verdadeiro espírito do Natal? Santa Madre Teresa de Calcutá dizia: «É Natal sempre que deixares Deus amar os outros através de ti…». Francisco diz o mesmo por outras palavras: «Neste tempo, em que a barca da humanidade, sacudida pela tempestade da crise, avança com dificuldade à procura dum horizonte mais calmo e sereno, o leme da dignidade da pessoa humana e a ‘bússola’ dos princípios sociais fundamentais podem consentir-nos de navegar com um rumo seguro e comum».

O Natal não é o tempo das prendas e das festas, dos jantares e das iluminações: é o tempo de sermos o próximo uns dos outros, de olhar para quem está ao nosso lado, mesmo que não gostemos dele. «‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’» (Mateus 25:34-36). Natal é igual a cultura de cuidado e cultura de cuidado é igual aos mandamentos do Amor.

A todos desejo um Santo Natal e um Ano Novo mais feliz e próspero do que este, que agora termina.

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