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É comum considerar o Algarve uma região pobre em património cultural, mas tal afirmação não corresponde à verdade.

É certo que existem no nosso pais algumas regiões mais ricas em património cultural do que a nossa, mas isso significa apenas que a “pobreza” referida é de facto uma pobreza relativa e não absoluta. De facto, se tivermos em conta os diversos sismos que atingiram a região, entre os quais o de 1755, que provocou enorme destruição no Algarve, os ataques dos corsários ingleses no final do século XVI e as pilhagens levadas a cabo pelos invasores franceses, no início do século XIX, teremos identificado as causas principais desta relativa pobreza do património cultural algarvio, mas isso não significa que a região não possui um conjunto significativo de monumentos.

Entre as muitas igrejas, palácios ou palacetes, castelos e sítios arqueológicos que podemos encontrar por todo o Algarve, e que constituem a parte mais visível do nosso património cultural, existem verdadeiros tesouros artísticos que são muitas vezes desconhecidos dos próprios algarvios.

Os motivos deste desconhecimento são vários, mas uma das causas principais reside no facto de muitos destes monumentos, em particular os palacetes, as igrejas, capelas e ermidas, se encontrarem fechadas ao público.

Para que esta situação possa ser ultrapassada é fundamental uma união de esforços entre as diversas entidades públicas e privadas responsáveis pelo património cultural da região, de modo a que sejam criadas condições efectivas para oferecer às populações locais, aos estudantes, e aos muitos turistas que nos visitam a oportunidade de descobrirem uma outra face do Algarve; a história e a cultura de uma região com muito mais para oferecer do que sol e praia.

Na verdade, o Algarve possui um considerável património cultural que para além da gastronomia, paisagens naturais e artesanato, possui também um número considerável de monumentos e sítios históricos. Entre estes, destacam-se naturalmente os castelos de Silves, Loulé, Castro Marim, Alcoutim, Paderne e Aljezur, as muralhas e centros históricos de Lagos, Faro e Tavira, a estação arqueológica de Alcalar, as ruínas romanas do Milreu e do Cerro da Vila, o Teatro Lethes, o Palácio de Estói, o Palácio Episcopal de Faro, o Palácio da Galeria em Tavira, o Museu da Cortiça em Silves, os Museus Municipais de Faro e de Portimão, o Museu Arqueológico de Silves, e claro, o grande ex-líbris cultural da região; a fortaleza de Sagres e o promontório sacro.

Mas para além dos sítios e monumentos que referi, é possível encontrar um pouco por todo o Algarve largas dezenas de igrejas e capelas que em virtude do seu interesse arquitectónico ou decorativo, constituem a maior fatia do património cultural algarvio.

É indiscutível o interesse histórico, cultural e turístico das Catedrais de Faro e Silves, das igrejas da Ordem Terceira do Carmo de Faro e Tavira, da Igreja de São Francisco em Faro, de Santo António de Lagos, de São Lourenço em Almancil, de São Tiago em Estombar, a Misericórdia de Tavira ou as igrejas paroquiais de Alvor, Alte, Olhão e Vila do Bispo, para referir apenas algumas das mais relevantes.

Nas igrejas algarvias podemos encontrar um conjunto apreciável de manifestações artísticas entre as quais se destacam a qualidade dos azulejos assinados por Policarpo de Oliveira Bernardes, as pinturas italianas encomendadas pelo Bispo D. Francisco Gomes de Avelar, os altares em talha de Manuel Martins e Manuel Francisco Xavier, a imaginária sacra da autoria de um considerável número de artistas regionais, os órgãos barrocos e os vãos manuelinos, enfim, todo um conjunto de manifestações artísticas que são o testemunho das diferentes sensibilidades estéticas da nossa história e que em alguns casos apresentam características regionalistas bastante interessantes.

Infelizmente, uma boa parte deste património religioso pertence a paróquias com escassos recursos financeiros, o que naturalmente inviabiliza a contratação de colaboradores que procedam à abertura das igrejas em horário regular e simultaneamente zelem pela segurança das mesmas. Outras pertencem a autarquias que se revelam incapazes de as valorizar e dinamizar culturalmente, mantendo-as fechadas ou como espaços destinados à realização de velórios.

A defesa e valorização do património religioso algarvio passa portanto por um esforço concertado entre as entidades que tutelam o património, as autarquias, as paróquias e a Diocese do Algarve, e sem o qual corremos o risco de continuar a assistir a uma lamentável degradação deste importante legado histórico, desperdiçando simultaneamente um recurso cultural que pode e deve desempenhar um papel fundamental na valorização da oferta turística da região.

O património cultural religioso algarvio deve merecer uma maior atenção por parte das entidades responsáveis, para que situações como a da Sé de Silves não continuem a repetir-se nuns pais que pretende atingir os níveis de desenvolvimento social da Europa comunitária, mas onde os responsáveis políticos parecem esquecer que a cultura é um factor essencial para o desenvolvimento dos povos.

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