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O país está ao rubro com as várias crises. É a crise pandémica que ameaça agravar-se, e que a todos aborrece e satura profundamente, é a crise política causada pelo chumbo do Orçamento do Estado, e todas as crises que daí virão. Resumindo, cá estamos nós para pagar essas facturas.

Estando o parlamento à beira de uma reformulação, há deputados que andam pela Assembleia da República a querer avançar com a lei da eutanásia. Honestamente, qual é a lógica deste desejo? Que interesse existe neste avanço, num momento como este?

É preciso não nos esquecermos que na última campanha eleitoral para as legislativas, nenhum partido colocou o assunto na sua agenda, mas, findas as eleições, vários foram os que se chegaram à frente para aprovar a lei. Hipócritas! Porque é que não defenderam abertamente o assunto em campanha eleitoral? Porque é que não se assumiram favoráveis a este suicídio? Preferiram falar em surdina, mostrando depois ao que vinham verdadeiramente. Com tudo isto, muitas foram as vozes que se levantaram pedindo um referendo, mas, rapidamente surgiram outras ideias vindas de São Bento, dizendo que tinham sido eleitos pelos portugueses, estando desde logo mandatados para decidir acerca da vida do país. É muito certo esse raciocínio, mas não se aplica neste caso, porque ninguém votou num partido que defende a eutanásia. Nenhum deles expressou isso de forma clara no seu manifesto eleitoral. O voto não é um cheque em branco, mas uma aprovação de ideias e ideais que cada eleitor quer ver executados no país. Além disto, existiram chumbos no Tribunal Constitucional devido à imprecisão dos termos usados nos projectos de lei, não existiram debates suficientemente alargados e maduros, e, agora, um parlamento que está de saída e, consequentemente, enfraquecido, quer aprovar ou impor esta lei. Qual é a urgência? Quais as reais motivações? Qual é o medo de discutir o assunto abertamente?

Senhores deputados, já que vamos ter eleições antecipadas devido à incúria de tantos de vós, se os senhores e os seus partidos são favoráveis à eutanásia, expressem-no claramente nos vossos manifestos eleitorais porque não quero ser enganado, e, certamente que nenhum português o deseja.

Quando o mundo luta pela vida, tentando combater a pandemia da Covid- 19, Portugal, que tem um dos piores cenários na saúde não covid entre os seus pares na Europa, com uma mortalidade elevadíssima, porque todas as forças se centraram no combate à pandemia, quer aprovar uma lei de morte, sem antes percorrer um caminho mínimo de honestidade para uma decisão desta importância.

Não estou a afirmar que foi um erro centrar esforços no combate à pandemia. Os nossos profissionais de saúde foram e são autênticos heróis. O grande problema está naquilo que o nosso SNS não é. Ele não é robusto como devia e, isso ficou claro quando o sucesso no combate à pandemia se ficou a dever a tantas mortes provocadas por outras doenças não diagnosticadas e/ou não tratadas.

No pretérito fim-de-semana, em Portimão, tive a oportunidade de participar no lançamento do mais recente livro do Dr. Luís Paulino Pereira, Vida Plena, médico e colunista do jornal Nascer do Sol. Ouvi-lo, foi confirmar o que anteriormente escrevi acerca do SNS, com muita pena minha.

O Dr. Luís P. Pereira assume-se «médico por vocação», e este sacerdócio por ele exercido com grande humanidade, transparece na sua escrita e nas suas ideias. Provocado pelas suas palavras, lanço a pergunta, que formulo todas as vezes que me deparo com a vontade de se aprovar em Portugal a lei da eutanásia. Como é possível que um médico, que tem a missão primordial de salvar vidas, possa ser favorável à prática da eutanásia?

Nas palavras do autor, existiu uma distinção que me merece todo o apreço e, infelizmente, a minha concordância. Defende que, há os «médicos por vocação» e os «médicos licenciados», sendo certamente este último grupo, aquele que se mostra mais favorável ou indiferente, para com o tema da eutanásia. Outro aspecto referido com grande propriedade, foi a necessidade de uma profunda reestruturação do SNS, pois só assim teremos igualdade no acesso aos cuidados de saúde. E, a meu ver, isto ajudará a defesa da vida, e a construção de uma sociedade que prefere defender a vida em vez de pedir a morte.

Esta correria louca e absurda, para mais um avanço na lei da eutanásia, é sintoma de uma sociedade que prefere matar em vez de criar respostas eficazes para o sofrimento.

A eutanásia nunca acabará com o sofrimento, por mais que nos queiram vender essa ideia. A eutanásia acaba com a vida!

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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