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A pandemia que tem assolado o mundo, desnudou inúmeras fragilidades que ainda persistem em várias latitudes. Não me quero deter particularmente em nenhuma delas, mas quero falar de um grupo que me é especialmente caro, os velhos.
Sempre tive um grande carinho e admiração pelas pessoas mais velhas que eu. Sinto que posso e devo aprender com eles. Assim foi com os meus avós, e continua a ser com aqueles velhos a quem tenho o privilégio de chamar amigos. Esses, são os meus velhos.
Recordo muitas vezes os dias em que ia com o meu avô materno aos encontros de velhos. Eram encontros onde três ou quatro amigos, pela manhã, numa paragem de autocarro da minha freguesia, ficavam sentados durante horas a conversar. Já não me recordo de praticamente nada, no que aos conteúdos das suas conversas diz respeito, porém, guardei comigo a amizade e a camaradagem que nutriam uns pelos outros, aliada à capacidade de acolherem aquela criança que lá chegava pela mão do seu avô.
Sinto que foi esta convivência que me fez gostar dos velhos. Daqueles, e de todos os outros. A escuta das suas histórias sofridas, dos relatos do trabalho árduo com que colocavam comida na mesa, e do qual as suas mãos grandes, calejadas e enrugadas eram testemunhas, prendiam-me a atenção. Mesmo que não soltassem qualquer palavra, as suas mãos bastariam para compreender a vida que tiveram. Nelas pude contemplar a dureza de vidas entregues à labuta campesina, e nos seus olhos, vi a tristeza de se reconhecerem sem as forças necessárias para laborarem como dantes.
A história de um velho vê-se nas suas mãos. Há pressa em afagá-las, observá-las sem tempo, e segurá-las com firmeza, para que eles sintam que não estão sós, nem caminham num deserto de humanidade.
Estas recordações fazem-me pensar nos velhos de hoje, que nestes tempos de distanciamento físico, se têm sentido presos dentro dos lares onde sempre residiram com relativa alegria.
Faço memória, de forma particular, do meu velho António, que tem sentido isto de forma atroz. Prestes a fazer 80 anos, inoculado já há algum tempo, com as duas doses de uma das vacinas contra a covid-19, sente-se triste e aborrecido, porque vê que tudo continua na mesma. Sente-se preso, e isso afecta-o bastante, porque antes da pandemia, o lar era praticamente um local aonde ia dormir. A sua vida sempre foi preenchida.
Numa das nossas muitas conversas, referiu o facto de ter quase 80 anos, e uma enorme vontade de viver bem.
– A minha vida está no fim, e estou aqui fechado. Não quero isto. Deixem-me viver – disse-me ele.
Fiquei alguns dias a pensar nisto, tentando compreender a sua dor, e a de tantos outros que estão privados de usufruírem livremente dos dias que lhes sobejam.
É algo extremamente violento para estas gerações. É certo que queremos e devemos protegê-los, mas, com a ânsia de não querermos que morram de covid, muitos, vão morrendo lentamente de tristeza e dor, por se sentirem entregues a um isolamento que parece não findar. Por estes dias, tem-se falado numa progressiva abertura dos lares. Com todos os cuidados que tal acção deve merecer, trata-se de algo que tem mesmo de ser feito.
Não quero pertencer à geração que, com indiferença, ajudou a matar velhos. Tratá-los como merecem é vê-los como a base do que temos e somos, e aprender da sua sabedoria para ousarmos mais do que um dia eles alcançaram.
Com os cuidados que as circunstâncias impõem, é tempo de amar (ainda mais) os velhos, e de os libertar.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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