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No ano em que o nosso País celebra o centenário da implantação da República, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades portuguesas é comemorado em Faro. Que me recorde, já anteriormente, o 10 de Junho havia sido celebrado no Algarve, em Lagos, a cidade das Descobertas, por iniciativa do Presidente Jorge Sampaio. Agora é o Presidente Cavaco Silva, algarvio de Boliqueime, no concelho de Loulé, que no último 10 de Junho do seu actual mandato presidencial, escolheu a capital da sua Região natal para as comemorações do Dia de Portugal e justamente em ano de centenário da República!

A este propósito devemos ter presente que uma das primeiras notas positivas da recente e memorável visita apostólica de Sua Santidade o Papa Bento XVI a Portugal, foi a sua declaração logo à chegada ao aeroporto: "Só agora me foi possível…visitar esta amada e antiga Nação, que comemora no corrente ano um século da proclamação da República". Esta afirmação não foi uma mera frase de cortesia diplomática, pois na conclusão daquela sua primeira saudação, o Santo Padre voltou ao tema, para esclarecer quem ainda tivesse dúvidas sobre o significado e o sentido do seu pronunciamento, que "a viragem republicana, operada há cem anos em Portugal, abriu, na distinção entre Igreja e Estado, um espaço novo de liberdade para a Igreja, que as duas Concordatas de 1940 e 2004 formalizariam, em contextos culturais e perspectivas eclesiais bem demarcados por rápida mudança". Com isto Bento XVI não ignorou que certas iniciativas legislativas e pior do que isso certas condutas dos republicanos de 1910 muito fizeram sofrer diversos membros da Igreja, Bispos, Padres, religiosos e leigos, e as páginas da Folha do Domingo, sob a pena do Padre Dr. Afonso Cunha, historiador e arquivista da Cúria Diocesana, têm nos últimos meses, mostrado como foram difíceis e terríveis os anos da 1ª República para a Igreja do Algarve, a exemplo do que sucedeu em todo o território nacional. Porém, o Papa também sabe e também disse que esses "sofrimentos causados pelas mutações foram enfrentados geralmente com coragem. Viver na pluralidade de sistemas de valores e de quadros éticos exige uma viagem ao centro de si mesmo e ao cerne do cristianismo para reforçar a qualidade do testemunho até à santidade, inventar caminhos de missão até à radicalidade do martírio".

Ou seja, as perseguições que a República de há cem anos moveu contra a Igreja, acabaram por ser um bem, que ajudou a Igreja a purificar-se de uma longa e anquilosada "aliança entre o trono e o altar" e além disso, devemos também não esquecer que as perseguições à Igreja ocorreram igualmente no Regime Monárquico, nomeadamente com o Primeiro Ministro do Rei D. José I, Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal, que perseguiu e expulsou do País os Padres Jesuítas, causou grande perturbação à actividade missionária da Igreja, especialmente no Brasil, intrometeu-se abusivamente na vida interna da Igreja, nomeando bispos e criando dioceses e continuaram na Monarquia Constitucional com o Ministro Joaquim António de Aguiar, alcunhado de "Mata-frades" por ter expulso todas as Ordens e Congregações religiosas, exilando os seus membros e espoliando os seus bens, que foram vendidos ao desbarato.

Também na 1ª República, muitos bens patrimoniais da Igreja, igrejas, seminários, residências paroquiais e episcopais, foram confiscados e ocupados pelo Governo. Entre outros, o emblemático Paço Episcopal de Faro, foi ocupado e nele foram instalados serviços do Ministério da Marinha e só foi devolvido à Igreja muitas décadas depois. Curiosamente, no ano do centenário da República e no âmbito das comemorações do Dia de Portugal, uma ala desse Paço Episcopal, foi cedida à Secretaria Geral da Presidência da República, para durante todo o Verão, o Museu da Presidência aí apresentar uma exposição institucional sobre a República.

Cem anos depois, a República volta à Casa Episcopal de Faro, agora pacificamente, pela mão de um ilustre filho do Algarve, como sinal bem patente da reconciliação plena dos católicos algarvios com a República. Isto só é possível, quando os responsáveis da Igreja e do Estado, compartilham "de uma visão sábia sobre a vida e sobre o mundo" e querem tornar letra viva o princípio concordatário da Cooperação entre a Igreja e o Estado, pois como referiu o Santo Padre na sua primeira saudação, "a Igreja está aberta a colaborar com quem não marginaliza nem privatiza a essencial consideração do sentido humano da vida".

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