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A LINGUAGEM DOS SINAIS

O óleo no uso da Liturgia da Igreja

1 – Desde as suas origens, a Igreja serve-se do óleo como «sinal» de realidades transcendentes, em muitos dos actos litúrgicos que realiza. E não admira que o faça. Ela é herdeira da tradição bíblica do Antigo Testamento, em cujo tempo, o óleo já fazia parte da Liturgia do tempo, quer quando se ungiam determinadas pessoas destinadas a serviços especiais no interior do Povo judeu, quer quando se derramava óleo sobre as pedras que eram destinadas ao serviço do culto. Além disso, a Igreja é o conjunto dos que seguem a Cristo, «o Ungido» por excelência. Poder-se-ia dizer que os membros da Igreja são «pequenos ungidos» ou «pequenos cristos» que, por isso, designamos de cristãos. E reside aqui, em grande parte, a razão de ser do uso frequente do óleo no decurso da vida de cada cristão.

2 – Na quinta-feira santa de cada ano, os óleos, que deverão ser usados na Liturgia cristã, são preparados pelos Bispos diocesanos. São liturgicamente enriquecidos com bênçãos próprias, consoante o destino de cada um, de acordo com a fase da vida humana em que virão a ser usados. Assim, prepara-se um óleo chamado dos «catecúnenos», que tem, por objectivo, simbolizar a pertença a Cristo daqueles que forem ungidos com ele, antes ainda de receber os sacramentos da Igreja. De facto, Ela unge o peito de cada baptizando, como quem quer dizer-nos, com esse gesto, que tais ungidos já são pertença de Cristo e da Igreja, uma vez que o «Ungido» (Cristo) já os tocou com o seu «óleo».

Mas prepara-se também um outro «óleo» cujo uso será em favor dos doentes. É o chamado «óleo dos enfermos». Este está carregado de simbologia. Lembremos o que nos diz o Novo Testamento a seu respeito: Jesus propõe-nos como exemplo a seguir, a parábola do «bom samaritano» que colocou sobre as feridas do homem ferido e maltratado, o «azeite» da consolação e da suavidade que cura e fortalece a fraqueza do homem abandonado na berma da estrada. E São Tiago fala-nos, na sua carta, da «unção» que os Presbíteros deverão fazer aos doentes, quando escreve: «algum de vós está doente? Chame os Presbíteros da Igreja e que estes orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor» (Tiag.5,14).

Mas, prepara-se, sobretudo, o «óleo do Crisma», que pela sua importância litúrgica, é o mais solenemente «consagrado». Com efeito, este óleo, além do seu uso nos sacramentos do Baptismo e do Crisma, é usado também na sagração dos altares sobre os quais se celebra a Eucaristia e na sagração das paredes dos templos onde se reúnem os «ungidos de Deus», os cristãos. E é ainda símbolo da comunicação da acção santificadora e consacratória das pessoas dos Padres e dos Bispos, no dia das suas respectivas ordenações, para indicar que o ministério de cada um é obra do Espírito e não mero fruto das suas capacidades humanas.

Se, a unção do Crisma, logo a seguir à recepção do Baptismo, indica que o neófito, que já era pertença de Cristo, ficou agora pertença total do Senhor, como seu membro, por acção do Espírito Santo. Se o Crismado é ungido com este mesmo óleo para relevar o compromisso de testemunhar a fé em Cristo, com aquela fortaleza que só pelo Espírito nos é dada. De modo semelhante, os «sacerdotes» são ungidos com esse óleo para que, simbolicamente, o Espírito os inunde da sua graça no exercício do ministério que lhes é confiado pelo verdadeiro «Ungido» que é o Cristo.

3 – A unção dos objectos materiais, como os cálices, os altares, as paredes de um templo tem também o seu significado. São «corpos» sem vida, mas são objectos que pelo destino que lhes é dado pelos baptizados e «ungidos do Senhor», ficam dedicados, pela unção, ao serviço exclusivo de Deus e do seu culto: uns, relacionados de modo muito íntimo com o mistério central da vida da Igreja, a Eucaristia, «memorial da morte e ressurreição» do divino «Ungido»; outros (é o caso dos templos dedicados ou consagrados), como lugares centrais da vida litúrgica dos cristãos que constituem, esses sim, o verdadeiro templo de Deus.

* BISPO EMÉRITO DO ALGARVE

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