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III – O sinal da água (a)

1 – Na linguagem dos sinais, deparamos com muitas realidades da natureza, dotadas de grande expressividade simbólica. De entre elas, salientemos, hoje, alguns dos significados da nossa «irmã» água.

A água é, desde os tempos mais remotos, considerada como um elemento da natureza, essencial e imprescindível à vida terrena. As plantas, os seres animados e, especialmente, o homem, precisam de água para poderem viver sobre a terra. De facto, usamos a água para o asseio e a higiene das coisas de que nos servimos no viver de cada dia, para a limpeza do nosso corpo, para satisfazer a sede do nosso organismo, para cozinhar os alimentos de que nos servimos, etc.

Nós próprios somos constituídos, corporalmente por uma significativa percentagem de água, de tal forma que, se ela nos faltasse, morreríamos por desidratação.

Não é, por acaso, que os primeiros pensadores gregos a consideraram como um dos elementos constitutivos deste mundo. Tales de Mileto (624-545 a.C.) entendia que a água é o «princípio» de toda a natureza.

2 – A Bíblia, como livro da comunidade humana, assinala, de modo quase exaustivo, a importância deste elemento da natureza, em grande parte das diversas etapas da história da salvação realizada por Deus em favor dos homens. Os Autores sagrados têm o cuidado de chamar a nossa atenção, com muita frequência, para a actuação de Deus sobre este elemento da natureza por Ele criada. Logo no início, diz o primeiro livro da Bíblia que «o Espírito de Deus pairava sobre as águas» (Gén.1,2); e, ao narrar a história de um dilúvio, demonstra como a água se tornou um elemento profundamente significativo na purificação de um povo afastado de Deus pela mácula do pecado, necessitado de purificação (Gén.6-9). É célebre aquela intervenção de Deus em favor de Israel, na passagem do Mar Vermelho (Êx.14,15-31); mais uma vez, a água foi o elemento de que Deus se serviu para salvar o seu Povo.

Não foi por uma mero acaso que João Baptista realizava um rito de purificação espiritual, nas águas do Jordão, como não foi mera coincidência, a sujeição de Jesus a esse rito de purificação, logo no início da sua vida ministerial messiânica (Jo1,19-34).

Não admira, portanto, que, na Igreja, usemos tantas vezes a água, uma vez que ela entra nos planos de Deus, pelo que vale em si mesma, mas também pela simbologia que nela se encerra. Por isso, bem pode a Igreja rezar, na bênção da água da Vigília pascal: «nós Vos pedimos que Vos digneis abençoar esta água. Vós a criastes para fecundar a terra e fortalecer os nossos corpos com a limpeza e a frescura; Vós a fizestes instrumento de misericórdia e a proclamastes sinal da nova aliança». A água significa vida, pureza, salvação, aliança com Deus.

*Bispo Emérito do Algarve

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