Pub

Afirmei há algum tempo, nesta minha coluna de opinião, que pensava que a música é o melhor meio para se transmitir ideais e valores, sendo um ótimo retrato social da nossa forma de viver e encarar a vida nos dias que correm.

Pois bem, eis senão quando se levanta a polémica sobre a música que ganhou (sem qualquer princípio de contestação já que foi a que recolheu mais votos do público) o 47º Festival RTP da Canção.

Antes de manifestar o que me vai na alma a respeito deste assunto, queria afirmar como é curioso o facto de, devido a esta polémica, se falar tanto do Festival RTP da Canção, como já não se falava há mais de 10 anos! Só quando há qualquer aspeto que incomoda ou que sai fora da rotina é que nos lembramos que há certo tipo de eventos e acontecimentos. Há muito tempo que "ninguém" ligava nenhuma ao Festival RTP da Canção! Aconteceu uma polémica, quase que voltou a ser o grande acontecimento patriótico dos tempos do Estado Novo!

Depois de chamar a atenção para este aspeto gostaria de mostrar a minha "indignação" e surpresa por tanto espanto e indignação (desta vez sem aspas, porque alguns ficaram mesmo indignados) que a vitória desta música tem causado a algumas pessoas que se acham com capacidade e conhecimentos para analisar tudo, colocando-se, num patamar acima da generalidade dos portugueses. Como por exemplo, o Dr. Miguel Sousa Tavares que, entre outras coisas, defendeu que "não acha que a irresponsabilidade vença o que quer que seja", ou que era "irónico pensar que esta canção, com esta letra, vai representar Portugal na Alemanha, em cuja plateia e em cujos televisores hão de estar os alemães a quem nós andamos a pedir dinheiro".

Dentro deste âmbito, gostaria apresentar duas ideias sobre este assunto:

Primeiro, o que faz uma boa canção, não é só uma boa letra ou uma boa música! De que serve uma canção com uma letra belíssima e uma música extraordinária, muito bem tocada, se não provoca qualquer tipo de empatia com o público? Se naquela noite, a maioria das pessoas gastou 0,60€ + IVA para votar nos Homens da Luta, foi porque a letra e a música da sua canção foram de encontro ao sentimento mais profundo que reina em cada português no momento atual! Para além disso, mostro-vos agora a primeira estrofe da letra da música escolhida pelo Júri e a primeira estrofe da letra da música dos Homens da Luta. E depois digam-me qual delas cria mais empatia com o público! A musica escolhida pelo júri chama-se "São os Barcos de Lisboa" e iniciava assim: Um dia perguntei a alguém / Onde fica o infinito / Para poder mergulhar / Nesse arrepio maldito; a música vencedora com os votos do Público, "A Luta é Alegria" tem este início: Por vezes dás contigo desanimado / Por vezes dás contigo a desconfiar / Por vezes dás contigo sobressaltado / Por vezes dás contigo a desesperar. Completo a minha análise a este aspeto com uma questão. Haja alguém que me explique que analogia é possível entre o infinito e o arrepio maldito?! É que ainda não consegui perceber. Serei o único?! Ou esta letra toca profundamente os corações de todos, (principalmente os elementos do Júri) menos o meu?!

Segundo, gostaria de saber como se critica uma música de intervenção política no Festival RTP da Canção, quando no tempo do Estado Novo abundavam canções deste tipo entre as participantes. Aliás algumas delas entraram para a História de Portugal, como a "Tourada" de Fernando Tordo ou o " E Depois do Adeus" de Paulo de Carvalho que como todos sabemos foi uma das senhas para o Revolução de 25 de Abril de 1974.

Por isso, penso que se a música do Homens da Luta, de Jel, Falancio e companhia ganharam o Festival RTP da Canção na edição de 2011, foi porque a sua música, votada em maioria pelo público português, era provavelmente a única que conseguiu criar empatia com esse mesmo público. Provavelmente, porque na sua letra está aquilo que a maioria de nós pensa e defende nos dias que correm. Parabéns, Homens da Luta!

Pub