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A NOITE DE SAINT-ETIENNE

PLACE du Peuple. O coração da cidade que dá o nome a um dos mártires do cristianismo. Desta Praça do Povo, berço que vem dos romanos, a Furiana, hoje, uma cidade que floresceu em ciência, em trabalho de mineiros, de metalúrgicos, de inventores célebres: é Saint-Etienne, onde estávamos na noite de 24 de Dezembro de 1967. Esperávamos, uma convidada, muito especial, para a consoada: Mademoiselle Marie Dumas. Eu e minha mulher, éramos um jovem casal à espera do primeiro filho. Morávamos num 6.º andar, um edifício burguês, do princípio do século, na citada Praça, em ângulo rua General Foy, que me agradava pela panorâmica que me dava do burgo antigo. Alcançavam-se os telhados centenários, a torre da catedral, la grande Eglise de Saint-Etienne, em que contemplei os admiráveis vitrais coevos de Emile Thibaud. Donde desfrutava os dois imensos “mamilos”, as excreções saídas das minas, cinzas negras e eternamente fumegantes. Nesse tempo preparava-me para a minha pesquisa académica, frequentando o fundo das minas de carvão, no convívio com os mineiros, que vinham desde o século XVIII. A Ville Noire, nesse princípio de noite, estava coberta de neve e de fumos. Era Natal!

A campainha tocou. “É mademoiselle”, diz-me minha mulher da cozinha, onde ultimava a ceia. E assim foi. Mademoiselle Marie Dumas vinha, numa septuagenária clássica, num tailleur- Chanel, um ligeiro renard cobrindo-lhe o colo. Entrou muito serena e satisfeita por ter sido convidada para a nossa consoada à portuguesa. Ela habitava no 5.º andar do nosso edifício. Retirou a raposa, logo o chapéu, que uma breve renda lhe ocultava o rosto. E nessas coisas simples, ficámos à vontade. O perfume das fatias douradas envoltas em canela, a cheiro forte das ostras abertas, ao contrário dos franceses que as apreciam ao cru, o forte odor do bacalhau cozido nas verduras, davam um prazer desconhecido à senhora nossa convidada, eterna solteira e sem família, que esperava reviver o seu tempo de tê-la. Marie Dumas, pousou as suas mãos nas nossas e, em palavras: Je suis heureuse ce soir de Nöel (Estou feliz nesta Noite de Natal). Sentámo-nos em redor da mesa em toalha alva, plena de acepipes da culinária lusa, em que o champagne francês não faltou. Muito suavemente, os cânticos de Natal, postos em disco, ganharam o nosso silêncio. Mademoiselle, num olhar muito azul, oferecia-nos alegria. Ceia iniciada, Marie Dumas, numa delicadeza sublime, tudo foi aceitando. Mas quando pretendi vazar champagne no seu copo, na mesma delicadeza, rejeitou. Fomos continuando, no entanto reparei que a senhora se sentia incomodada por ter recusado o vinho, justificando o acto de rejeição, dizendo: “Desde que meu pai faleceu, num bombardeamento, durante a última guerra, não mais bebi champagne”. Silenciou por instantes, logo recomeçou: Em França, ou pelo menos entre nós, sempre tivemos o costume em satisfazer a última vontade de quem vai morrer, oferecendo, ao moribundo, um golo dessa bebida. Assim foi com o meu pai antes de falecer. Logo jurei que daí em diante não mais beberia champagne… E, num sorriso, sem ser de circunstância, disse: “Mas para quê estas tristes recordações em tempo tão alegre e virtuoso do nascimento de Jesus? Este é o tempo da vossa juventude”. Então reparei que o recordar é um acto terapêutico, entrando na idade da minha convidada, insisti: “Diga-nos, mademoiselle, desse seu sentir. Conte, far-lhe-á bem, alivia”. Feita uma breve espera, a senhora reiniciou a conversa do seu tempo perdido.

“Nasci quando o século começou… o século das guerras. Por isso passei pelas guerras dele. Tinha 17 anos,estava noiva,quando o meu prometido foi atravessado pelas balas alemãs. Não foi só ele… foram mais 12 milhões de jovens que perderam a vida, nos lados dela. Fiquei uma jovem viúva… de branco. Até que chegue a 2.ª guerra mundial, e foi o que foi… Este foi o meu viver. Fiquei solteira, chegando a solteirona. Os homens do meu tempo morreram aos milhões. Ficámos sem homens! Ganhei um ofício, o mais possível no meu tempo: a costura. Fiz-me empresária. Fui vivendo com meus pais e o meu irmão que escapou pela idade menor. Éramos uma família, possivelmente, feliz. Até que chegou 1939 e tudo voltou. Foi o recomeço de 20 anos passados: A 11 de Novembro de 1942 a cidade estava ocupada por 3.000 soldados nazis. Os Alemães invadiram-nos. Eles controlaram todas as nossas vidas, administrações e todas as nossas actividades ficaram sem eficacia. Os alemães interviram de maneira sistemática em todos os sectores da nossa vida quotidiana. O marechal Pétain, nesse governo fantoche de Vichy, veio-nos provocar em obediência. Os senhores das nações e da guerra utilizam-nos como propriedade deles.” Pousou de novo as suas mãos sobre as nossas. Os olhos marejaram. Reparei que o seu corpo, alto e elgante, crescera na cadeira. E, decidamente, disse, erguendo-se: “Vou quebrar o juramento… senão, como ganharei coragem para desabafar o que guardo desde os meus 40 anos”. E, erguendo-se, pegando num copo, fez um pedido: “Monsieur, Madame, sirvam-me do vosso champagne, je Vous en pris (peço-vous). O tempo dos meus segredos já se gastou.” Marie Dumas estendeu-nos o copo que eu enchi do líquido muito dourado e vivo que saia da garrafa cantando gás. E continou: “Naquela tarde de Natal, de 1943, eu e minha mãe fomos a um lugar perto, ao campo de Rochetaillée, à casa de paisanos conhecidos, em busca de ovos e manteiga. A cidade estava cheia de fome. Nevava, cruelmente. Ouvímos a aviação. Não tivemos tempo. Minha mãe foi atingida mortalmente e foi escorregando pelo gelo,sem que lhe pudesse acudir. Meu Deus… como O insultei nesse momento de fraqueza e de dúvida. Ficara órfão… só meu irmão me restava. E esse andava na resistência, com os demais.

A cidade organizara-se em força. Saint-Etienne participava activamente na publicação da imprensa clandestina, desde a Impressora Bornier a imprimir Les Cahiers du Témoignage Chrétien. As escolas, tendo à frente a jovem Violette Maurice, os sindicatos, CFTC e CGT, em força operária. E as perseguições, as torturas, os fusilamentos, as deportações em massa para os campos de concentração. A colónia judaica, em cerca de duas centenas, fora brutalmente suprimida. Até que, logo após a morte de minha mâe, meu irmão, num encontro clandestino, exige a minha colaboração” Vingança pela França”. Disse numa força ignorada por mim. Disse-lhe que iria pensar. Respodeu-me: “A França não pode esperar”. A cidade era um arsenal de guerra, Saint-Etienne um sítio de crueldade. Já a resistente Elise Gervais havia sido torturada, violada e assassinada pelos torpes nazis. Era a era da inquietação. Decidi-me colaborar. Contactei meu irmão, que me dissesse da minha participação. Assim foi. Ele mostrou-me o retrato de um oficial nazi: “E isto que queremos que encontres,o seduzas. O resto é com a organização”.

“Nunca soube o nome do oficial alemão que exigiram que eu seduzisse. Num primeiro encontro, numa pastelaria na rua de S. Jean, o “Meu” oficial boche, homem trintão, bem parecido, bem vestido, bem em tudo. Atraído, sentou-se à minha mesa, pela minha sedução estudada, oferecendo-me um gratiné de chocolate. Logo um encontro no Governo Civil, o palácio dos desejos dos oficiais nazis. Contactada a resistência, tudo ficou dependente dessa trágica noite: noite de 26 de Dezembro, dia dedicado à celebração liturgica do mártir S. Etienne, padroeiro da nossa cidade.” Ficou de mãos sobre a aba da mesa em silêncio, no rosto escorreu-lhe uma lágrima. E, quebrando o silêncio por si construído, disse: “O resto fica para outra oportunidade. Esta noite de Natal, não é para mais sangue; basta-nos o que ficou no dia 26 de Maio de 1944, em que a aviação americana, querendo paralizar as vias férreas, o bombardeamento, dito colateral, deixou 1.064 mortos, 2.000 feridos e 15.000 sinistrados.” Um sorriso, acrescentou: Voilá.

“Como se sente madoiselle?” Je suis trés bien. Je me suis retrouvée. C’est tout parti!” (Eu estou bem! Reencontrei-me! O passado acabou”.)

P.S: Excerto adaptado da peça teatral LA NUIT DE MARIE DUMAS, representada em 1970, nas comemorações dos 25 anos do fim da 2.ª Grande Guerra Mundial.

Marie Dumas faleceu em 1975.

Teodomiro Neto

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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