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Em determinadas épocas e nas mais diversas civilizações é notória a exaltação do corpo humano e de tudo o que é material, o que é físico, em detrimento, está claro, dos valores espirituais.

Realmente, se nos debruçarmos ainda que superficialmente, na consideração das duas grandes civilizações clássicas, a grega e a romana, que é o que descobrimos?

Na civilização grega vemos que a virtude (araté) principal do homem consiste em cultivar e aperfeiçoar ao máximo o próprio corpo. Por isso, verificamos, por um lado, a preocupação dos artistas plásticos na modelação refinada do corpo humano e, pelo outro, a rejeição e eliminação das crianças disformes.

Atitude semelhante poderemos observar entre os romanos que admiram e celebravam exageradamente os corpos dos atletas, bem formados e robustos e cuidavam, com excessiva delicadeza o próprio corpos nos banhos termais, nas massagens, nas unções e demais tratamentos físicos…

Tudo isto nos chegou não só através da literatura como também pelas ruínas que subsistem de algumas cidades romanas nas quais superabundavam as piscinas, os banhos e outras estruturas onde se ministravam os mais diferentes cuidados corporais.

Ao mesmo tempo, desprezavam o corpo dos pobres e escravos, chegando mesmo à aberração de utilizarem os corpos dos escravos como alimento dos peixes e ostras que, depois, consumiam em lautos banquetes e orgias degradantes!…

E nos nossos dias que é o que vemos?

De certo, uma autêntica idolatria do corpo humano!

Basta atentarmos nos concursos de beleza, nas clínicas de estética, do desporto excessivo, do modo como se fala deste ou daquele artista de cinema, deste ou daquele atleta que é negociado por somas astronómicas, em síntese: pratica-se, hoje, um verdadeiro culto corporal.

Sem dúvida que não podemos nem devemos desprezar e rebaixar o nosso corpo, como o fizeram os maniqueus e outras correntes que sobremaneira desprezaram o corpo humano, crendo que este provinha de um princípio diferentes do da alma: princípio das trevas, princípio do mal…

Presentemente, a boa doutrina defende sim um corpo sadio num espírito são (mens sana corpore sano).

Quer isto dizer que o homem, um composto de matéria e espírito, corpo e alma, tem de estabelecer uma hierarquia de valores e utilizar um critério seguro no que diz respeito ao plano da sua formação integral. E, neste plano, nunca poderá perder de vista o aspecto espiritual que é, sem dúvida, o que mais o individualiza.

De facto, se considerarmos toda a criação e sobretudo o reino animal, ficamos maravilhados com as qualidades físicas de muitos animais que superam grandemente as do próprio homem, como por exemplo a força a velocidade, e apuramento dos sentidos, etc…

Apesar disso, o homem supera-os e domina-os, é o único capaz de progredir em todos os aspectos.

E qual a razão desta sua superioridade?

É, sem dúvida, pela centelha divina, por esse sopro divino que Deus inspirou sobre ele: o espírito.

Aqui, no espírito, nas qualidades espirituais, como a inteligência, a vontade e os sentimentos, é que se encontra o segredo e a explicação da sua superioridade em relação a todos os animais e a toda a restante criação.

Que dignidade e grandeza, a do homem!… É livre, pode querer, tem consciência dos seus próprios actos e daí o sentir-se responsável por eles.

O espírito é, pois, o principal no homem; sem ele não seria possível a ciência, a técnica, a arte e nem sequer poderia viver…

E o homem será tanto mais homem quanto mais viver segundo os valores espirituais que, no fim de contas, são os maiores dons que Deus lhe outorgou.

De onde facilmente se conclui que o aperfeiçoamento humano radica essencialmente na adesão e na correspondência àqueles mesmos valores espirituais.

E sendo assim, estamos mesmo a ver quão errados andamos, quando, nas nossas apreciações e nos nossos juízos, damos a primazia aos valores meramente corporais e desclassificamos, de alguma maneira, a realidade mais importante e sublime que é o espírito e todas as suas realizações.

Por outro lado, também é certo que, em última analise, não podemos nem devemos sistematicamente dividir o homem, numa espécie de dicotomia: corpo-alma, matéria-espírito, pois o homem é um todo e só subsiste como pessoa, assim como é constituído.

De qualquer modo, não podemos deixar de insistir e afirmar que o importante será sempre hierarquizar os valores e fazer prevalecer o espírito.

Joaquim Mendes Marques


O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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