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EM 1987, num estudo, apresentei oito títulos sobre catedrais; quatro portuguesas e outras tantas francesas. As que nos interessam para este escrito, é a de Faro, sendo o total das portuguesas: Braga, Lisboa, Évora e Faro.

Assim sendo, e com um sentimento de culpa a que sou alheio, o de não ter assistido ao Congresso, realizado no início de Abril, no Museu Municipal de Faro, sobre o tema: “A Rota das Catedrais”, e pelo que li na “Folha do Domingo”, de 15 de Abril – 2011, que o “Congresso em Faro apontou estratégia para as Catedrais”. Reparei que, de entre várias Universidades portuguesas e espanholas, a Universidade do Algarve esteve ausente do debate. Pelo menos não consta nenhuma referência de apresentação. Assim como a informação se apresenta, a Sé gótica de Silves e a Sé Catedral de Faro, se bem que a antiga cidade romana de Ossónoba fosse a anfitriã dos debates, ficou, somente, nessa posição, não deixando de haver duas referências, breves, sobre a Sé de Silves” como a primeira sé gótica construída de raiz em Portugal”. Sobre a Sé Catedral de Faro, o conferencista, Paulo Almeida Fernandes, destacou “o túmulo gótico em gesso, único em Portugal, “recentemente descoberto “, mas já conhecido pelos estudiosos algarvios, com Alberto Iria, em conferência em Faro, anos cinquenta, de se encontrar na capela de S. Domingos, escondido, o túmulo de Rui Valente. Ver “Sé Revisitada – Rui Valente”, em Cumplicidades, Folha do Domingo, 28/03/2003, publicação referente.

Foi pelo excelente exposto de Paulo Almeida Fernandes, do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto, que abordou o tema: Românico: o tempo das Catedrais”, em que considera: que “Românico é o tempo das Catedrais portuguesas”. E é nesse contexto que José Custódio Vieira da Silva, do Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa, veio, e muito certo, valorizando os espaços que envolvem as catedrais, como locais que foram muito participativos nas culturas dos povos, declarando “Os claustros catedralícios como um dos espaços fundamentais de vivência da cidade”.

Neste texto apresenta-se a ilustração, numa vontade de recuperação do Claustro da Sé Catedral de Faro ser aberto e exposto à cidade, que levei, com o reconhecimento e apoio do Cónego Gilberto Melquíades, a 24 de Outubro de 2009, a apresentação do meu livro “Faro – Romana, Árabe e Cristã”. Sendo recuperado esse desiderato, devendo ter continuidade em futuro próximo.

Ainda foi proposta a abertura aos arquivos da Sé-Catedral de Faro, à pesquisa para o conhecimento científico neste futuro exigente ao conhecimento.

Gostaria de referenciar os avanços e afirmações que o saudoso Cónego José Cabrita nos deixou sobre a história da Sé-Catedral de Faro, “A Catedral Romana de Ossónoba”, 1985, pela investigação que o cónego Cabrita fez, no acesso que teve, mais que ninguém, a esse rico espólio, que só poderá enobrecer o historial tão rico da sede episcopal que vem, que nos chega, a este século XXI, desde o período romano, século IV do cristianismo. Pela circunstância histórica, os investigadores não devem deixar à margem, que pelo esquecimento, ou oportunidades mais debatidas e persistentes, em deixar no olvido, tão importante e oportuno que deve ser o estudo da primitiva catedral episcopal de Faro, na urgência em contrariar alguns historiadores, como João Correia Aires de Campos (1818- 1891) que nunca aceitaram a continuidade da actual Sé de Faro, ter passado em metamorfoses de religiões. Só nos últimos 50 anos tem caído essa situação obscura da nossa história regional.

Quando, em Outubro de 1987 “A Rota das 4 Catedrais Portuguesas”, terminando com a nossa, intitulando-a de “Faro a da Alegria”, fiz o périplo pela cidade das religiões, escrevendo que Faro não tem os testemunhos desses artífices da pedra artística que vêm dos princípios da nacionalidade, século XII, só a meio do século XIII o reino do Algarve entra numa semi-geografia política do reino total, ainda sem língua portuguesa definida ou construída nas formas modernas do latim, entre os séculos VI e IX, num casamento linguístico entre o galaico-português, ficando a versão galega estacionária, fortalecendo-se o português, no século XIV, no reinado de D. Dinis, onde os falares do Sul: Lisboa-Algarve, na versão dos moçárabes, deram um impedimento à penetração da língua castelhana, como se verificava a norte do país.

O isolamento do reino do Algarve durou séculos ao restante território português. A história e os valores do Algarve “mouro”, em sentido negativo, ficou exposto e em continuidade. Só, com a chegada da linha férrea, em 1889, ao Algarve, o último reduto do país, desde que se iniciou em 1856, e a visita em fim de século XIX do penúltimo rei de Portugal (D. Carlos), ao Algarve, foi aberta uma ligeira cortina ao encontro do país. Quando, em 1965, o aeroporto de Faro rasgou todas as fronteiras, veio a exigência aos conhecimentos com a Universidade do Algarve.

Em 1987 escrevia: “Faro é a cidade mais vista das capitais regionais do país. Para justificar o gráfico turístico basta reparar no número de mais de 2.5 milhões de indivíduos que o aeroporto internacional de Faro recebe de 15 países, sendo, por isso, o aeroporto nacional que maior registo se inscreve de passageiros (…) A velha urbe, ou, mais recentemente em cronologia histórica, a medina farense, dá nos, mesmo assim, uma viagem ligeira no imaginário, um viver a história caiada, pura, sem ocres, em que os utentes têm a duplicidade no apreciar e no enriquecer a cultura local. (…) Faro não tem o testemunho desses artífices das épocas mais remotas que Braga transmite em misticismo ou na violência social dos homens. Em cada monumento se reconhece a glória do empreendimento e a colaboração das camadas sociais na edificação desses grandes e importantes programas iconógrafos: arquitectura e imaginária, que representam, em síntese, os poderes espiritual e temporal dos oito últimos séculos. Nem de Lisboa ou Évora, nessa monumentalidade greco-romana, gótica, ou renascentista, ou barroca (..) Faro tem a sua Catedral da alegria contemplativa: alegria em orar, em gostar de estar. Esta é a catedral da música, no ver e no escutar em silêncios… e claridade. Todas as catástrofes passaram por esta Catedral… As suas pedras têm 16 séculos de história, e em continuidade.”

Teodomiro Neto
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