Pub

«A terra dará os seus frutos, com os quais vos sustentareis abundantemente, e nela residireis em segurança» (Lv 25, 19). Este versículo do levítico é uma promessa de Deus para o ano Sabático. Desde sempre os seguidores de Javé tiveram a necessidade de reequilibrar a sua relação comunitária aos olhos do Criador e da criação. Esse reequilíbrio era concretizado em duas fases: num ano sabático, que acontecia de sete em sete anos e se concretizava num ano de descanso na produção de riquezas materiais e num ano jubilar, no qual haveria uma redistribuição das riquezas por todo povo. É notório que a economia humana mundial há muito que está desequilibrada. Embora já com fatores anteriores relevantes, atingiu o auge do desequilíbrio com a súbita pandemia provocada pela COVID-19.

Deveria estar presente esta consciência de que o facto de vivermos momentos difíceis só nos pode levar a apelar à união, ao espírito de comunidade e a ter esperança na redescoberta de novos caminhos, em que os interesses comuns prevaleçam sobre ideologias, interesses particulares, ou quaisquer outras razões que motivem separação. Mas o que sobressai é uma realidade totalmente diferente: países a digladiarem-se por encontrarem a vacina e a saída para a crise antes dos outros, com constantes ameaças a uma nova guerra fria, agora entre a China e os EUA; governos com estéreis discussões internas, à espera que a ajuda externa económica, comunicacional e de espionagem informática os ajude a manterem-se no poder a todo o custo. Mesmo no nosso país, assistimos a uma inconsequente luta entre governo, associações profissionais e ordens profissionais, para sabermos quem tem mais poder e como é que se pode limitar o poder dos outros. E mais estéril e mutuamente ignorante é a discussão, que ainda persiste, é que procura determinar o que constituiu um maior perigo para a saúde publica: o número de participantes que foi à Festa do Avante, ou as celebrações mensais de Fátima. Enfim, penso que não aprendemos nada. Em vez de sermos mais humanos, somos mais ciumentos. Em vez de sermos mais altruístas e desenvolvermos o nosso sentido comunitário, somos mais ciumentos, pensando que a salvação do planeta, do nosso país, da nossa comunidade e, até da nossa casa, depende unicamente de cada um de nós. “Eu é que sei tudo e sem mim é o caos”.

Penso que, provavelmente, uma das piores coisas que este confinamento fez foi tornar-nos mais egoístas e ciumentos. Em muitos casos até passamos do raciocínio “o importante sou eu e meus”, para “o importante sou só eu”. Exemplo disso é o crescimento galopante da demagogia política e do aumento das forças políticas de extrema-esquerda e de extrema-direita, sendo que em relação a esta última até existe o perigo – e grande! – de os ver utilizar errada e perversamente muitos aspetos do pensamento cristão, para justificar as suas ideias maioritariamente desumanas e antievangélicas.

Como cristãos, devemos seguir o Vigário de Cristo, o Papa Francisco, que tem sido uma inegável voz de Deus na gestão deste momento conturbado em que o mundo vive, apelando incansavelmente a uma autêntica comunhão com Cristo na oração e na prática diária. Este ano devia ser um ano sabático, sim, e devíamos esperar, mais ainda, trabalhar na construção de um ano jubilar. Era isso que se esperava dos cristãos neste tempo, pois se soubéssemos de verdade seguir Cristo, descobrindo-o nas propostas e nas palavras do Papa Francisco, sendo irmãos e fraternalmente agindo em prol da esperança e do bem comum, estaríamos a ser verdadeiramente sal da terra e a preparar um ano de celebração, de colheitas mais fraternas e de plantio da justiça. E assim, se tudo fizermos para sermos verdadeiramente uma comunidade, a terra voltará a dar muitos frutos.

Pub