Pub

O acalorado silêncio do campo contrasta com o balbuciar contínuo das várias línguas que se entrecruzam nas famosas zonas balneares mais conhecidas do Algarve.

Lá em baixo é o Algarve, aqui é a serra. Lá em baixo acorda-se tarde, porque as noites são grandes e divertidas; aqui acorda-se cedo, porque é pela fresca que se trabalha no campo, na tiragem da cortiça, na apanha da amêndoa, do figo ou da mítica alfarroba. Entre o varejar e o enchimento de sacos, o tempo corre devagar e fala-se das gentes que abandonaram a terra em busca de uma vida melhor, mas que agora trabalham servindo os “estrangeiros ricos” e os “grandes de Lisboa” que vêm passar férias para o Algarve.

A serra não é o Algarve. A serra é um espaço onde se vive com uma identidade muito própria, nesta região de Portugal. Nela o tempo é calmo, as gentes todas se conhecem e são afáveis. Nela não se vive ao ritmo “facebookiano”, mas ao ritmo das colheitas, da frescura de uma manhã trabalhosa, de um sol-posto afastado de um qualquer “sunset” num “chill out” dentro de uma qualquer unidade hoteleira à beira mar. Nela está-se somente perto de um sistema de rega artesanal, ou limitadamente sofisticado.

Porém, na serra vive-se profundamente a centralidade da Fé Cristã a partir da comunidade local. As festas atingem o âmago da vivência comunitária do Cristianismo, participando todos os que passam os dias nessa solarenga e campestre azáfama, mas, também, aqueles que sobem do litoral à terra mãe, para recordar e experienciar as festas religiosas, populares e comunitárias que caracterizam a identidade do lugar onde nasceram. Quem é da serra e vive a serra fá-lo por gosto, porque é ali que estão as suas raízes e, em muitos casos, é para ali que pensa regressar quando tiver acabado o período de exilio lá em baixo, no Algarve dos turistas. As festas religiosas no interior algarvio não só são o ponto máximo de uma vivência comunitária da Fé Cristã naquelas paragens, como são o lembrete anual, àqueles que partiram em busca de um futuro melhor, de que ali, na serra, está o seio materno, elas são a reserva natural de uma identidade, que muitas vezes dificilmente resiste à voracidade do tempo instantâneo, vivido no Algarve da panóplia de línguas e origens.

E mesmo dentro desse Algarve turístico existe uma outra realidade de vida, também saudável e afável com todos. A realidade daqueles que passam noites inteiras “ao de cima d’água”, longe das suas famílias, mas sempre com elas no pensamento. É por elas que “fazem cada lance”, deitando ao mar as redes em busca do peixe e do marisco, que na maior parte das vezes, só chega à mesa daqueles que têm muito poder de compra.

O trabalho do pescador é o trabalho mais ingrato que existe! Poucos imaginam o que custa “andar embarcado”, passando noites sem dormir, sentindo que o fruto do seu trabalho é frequentemente desvalorizado, apesar de chegar ao mercado, aos restaurantes e às nossas casas a altos preços. Uma fé imensa os move durante o seu trabalho. Para muitos que a veem de fora e não sentem o ardor da preocupação de quem vai para o trabalho sem saber se regressa, essa fé é somente um sentimento superficial, que se conforma com a superstição. Para muitos – aqueles que a sentem e a vivem e viveram por dentro -, essa fé é a certeza da proteção divina, indiferente às múltiplas conceções teológicas, que muitas vezes nos separam de Deus e da simplicidade do Seu Amor. O pescador quer a simples e segura proteção de Maria e do seu Filho Jesus Cristo. Por isso a louva intensamente, sobretudo nesta época do ano, como acontece na serra, promovendo, nas suas comunidades, festas e romarias. Todavia, se na serra a festa continua a ser algo exclusivamente comunitário e involuntariamente intimista, as festas dos pescadores começam a ganhar um carater globalizante no que toca aos festejos mais profanos, com gente de todo o lado a apreciar aquilo que é próprio da gastronomia e dos divertimentos marítimos, como os tradicionais jogos de mar. Ainda assim, na maioria dos casos, a parte da festa mais dedicada à vivência cristã da vida marítima continua a ter um carater mais local e comunitário, embora com gente de todo o lado a olhar de fora, por exemplo, as tradicionais procissões junto do/no mar.

Esta terra de contrastes abre-nos contante e generosamente o coração, oferecendo-nos o que tem de melhor: a amabilidade das suas gentes, a riqueza da sua terra e do seu mar, o calor do seu sol, a tranquilidade e o descanso, que a serra e o mar proporcionam em medidas distintas. Contrastes marcantes, que definiram um território e a sua população, marcando as suas tradições e a forma como celebram a Fé; contrastes saudáveis, que na diversidade proporcionaram a aproximação das comunidades ao Criador e tornaram este Algarve uma terra de verdadeiro acolhimento.

Miguel Neto
Pub