Pub

O PRIMEIRO estudioso estrangeiro que conheci da obra de Fernando Pessoa, foi o poeta, ensaísta e tradutor Armand Guibert, com o título Fernando Pessoa – Poètes d’Aujourd’hui, publicado em Paris, 1960. Guibert lançou o nosso Pessoa, a partir do seu estudo ao conhecimento do mundo, com traduções, desde o francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, sueco. O ritmo foi crescendo nos anos 70 do século XX, sobretudo, depois da publicação e revelação do Livro do Desassossego. No heterónimo Bernardo Soares, foi como mosca no mel, os estudos que surgiram. Não posso deixar de registar os estudos de João Gaspar Simões, in Retratos de Poetas que Conheci – 1974, e três anos depois, uma pessoana de Faro, Teresa Rita Lopes, na apresentação do seu doutoramento, em Paris, “Fernando Pessoa et le drame symboliste: heritage et Création – 1977".

Octavio Paz, em “Fernando Pessoa – O ser Conhecido de Si Mesmo”, disse: Os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia. Pessoa que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem vacilar que se fosse directamente aos seus poemas, esquecendo os incidentes e acidentes da sua existência terrestre. Nada da sua vida é surpreendente nada, excepto os seus poemas. A sua história poderia reduzir-se à viagem entre a realidade da sua vida quotidiana e a realidade das suas ficções. O verdadeiro Pessoa é outro.”

Então, e porque é tempo vamos ao outro poeta-pessoa, que aqui no Algarve, terra dos seus avós, repartidos por Faro e Tavira, Fernando criou um seu irmão, o Álvaro de Campos. Deu-lhe nascimento em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890, nascido às 13.30 horas. E deu-lhe formação partidária, deu-lhe educação, engenheiro naval, formado na Escócia. E traça-lhe em fase futurista a exaltação da civilização industrial; a apologia do novo homem, na procura de sensações fortes e modernas.

Eduardo Lourenço acrescenta, que Álvaro de Campos: “Ao contacto do pulsar tumultuoso e vivificante de sentimentos, paisagens, como que cinematograficamente em perfil e movimento “. Não sou nada /nunca serei nada. /Não posso querer ser nada. /À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Perante este Campos, irmão do Pessoa ortónimo, no cepticismo, na dor de pensar e nas saudades da infância ou de qualquer coisa irreal, compreende-se que seja o único heterónimo que comparticipe da vida extra literária de Fernando Pessoa, na apreciação de Jacinto do Prado Coelho.

Mas foi com o francês Armand Guibert, que Pessoa ganha o universo do conhecimento da sua poesia pelo mundo. E foi com Guibert que eu aprendi a conhecer o meu Pessoa, logo em 1960, nessa descoberta que me levou com mais profundidade ao Futurismo e o Sensacionismo, mostrando-o aos jovens que me deram toda a oportunidade de confraternização, e o meu empolgamento. Nessa vontade pessoana, descentralizando os seus heterónimos, por Lisboa Alberto Caeiro, o panteísta sensual; pelo Porto, Ricardo Reis, estudante num colégio de jesuítas, médico e monárquico, assim como emigrante para o Brasil; sendo o seu último semi-heterónimo, Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros, na cidade de Lisboa, cujo primeiro aparecimento público data de 1929.

Numa carta do poeta ao seu amigo Adolfo Casais Monteiro, Pessoa esclarece-se sobre os seus heterónimos: Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurastécnico (…) Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram.

Mas, também, Faro deu início a amizades reais e criativas, como era seu índole.

Entre 1916/17 do último século, foi por Faro que se desenvolveu o Futurismo; hoje ninguém o pode desmentir. Pessoa, e todos os seus companheiros desse moderno movimento, teve em Faro todas as portas abertas, com o semanário “O Heraldo”, o seu director Carlos Augusto Lyster Franco, com Carlos Porfírio, o jovem pintor, que já flanara pelos bairros artísticos de Paris e confraternizara com os futuristas da cidade das luzes, que viria a ser responsável, aqui em Faro, na composição e direcção do único número do “Portugal Futurista”, sem dúvida impresso na tipografia da rua 1.º de Dezembro, onde “O Heraldo” era composto. Revista essa que logo publicada, foi interdita pela ditadura sidonista/1917, sendo a cidade de Faro e o Algarve, onde a interdição foi mais morosa, dando a oportunidade de maior circulação.

Faro não deve, a par de Tavira, de deixar de entrar na efeméride que agora se comemora, nos 120 anos que marcou o nascimento de Álvaro de Campos.

Faro foi um marco dos mais importantes do Futurismo português, na nossa afirmação do ilustre Académico Mário Lyster Franco de outras personalidades de sentido de descentralizar. E como o afirmou recentemente o professor Artur Veríssimo: É DE FARO A PROVENIÊNCIA DO GESTO FUNDADOR DO NOSSO FUTURISMO. (1)

1) “O FUTURISMO OFICIALIZOU-SE EM FARO COM O “HERALDO”- Edição Anais do Município de Faro-2009 e Separata,
em Edição da “Folha do Domingo”-2010- T. N .

Pub