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AviaoO Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves (GPIAA) este ano já recebeu o registo de 34 casos de lasers apontados a aviões em pleno voo, perto do aeroporto de Faro.

O GPIAA adianta que recebeu, entre 2012 e outubro deste ano, reportes de quase 550 casos destes, perto dos aeroportos nacionais, sendo que a situação é considerada “grave” para a aviação.

Segundo dados a que agência Lusa teve acesso, o GPIAA recebeu 108 reportes em 2012, número que praticamente duplicou em 2013, para 215.

De janeiro a outubro deste ano os incidentes com raios lasers aumentaram significativamente, para 218, perfazendo um total de 541 ocorrências reportadas por pilotos de várias companhias aéreas e pela NAV Portugal – prestador de serviço de tráfego aéreo -, desde 2012.

“Incidir um feixe luminoso de um laser para a cabine de uma aeronave não é apenas um ato criminal, é uma questão de segurança grave para os pilotos”, alertou o diretor do GPIAA, em declarações à agência Lusa.

Álvaro Neves explicou que a incidência de um laser “pode ocasionar um dano à visão do piloto, com queimaduras e hemorragias na retina, além de distração e uma cegueira momentânea, que impossibilita manter a proficiência de pilotagem da aeronave em segurança, culminando até mesmo com a perda de controlo em voo”.

O diretor do GPIAA, face ao aumento das situações a nível nacional, considerou ter chegado o momento das autoridades nacionais responsáveis pela segurança operacional na aviação civil, onde se insere este organismo, darem início ao estudo de ações a desenvolver “para combater esta situação descabida e perigosa”.

“Será importante implementar uma campanha que visa consciencializar a população quanto ao perigo que o uso do raio laser representa para os pilotos e aeronaves, incentivando a denúncia para os órgãos policiais”, salientou Álvaro Neves, alertando para a necessidade de se tipificar na lei (criminalização) estes comportamentos, uma vez que há um vazio legal.

Só este ano em Portugal, “em dezenas de incidentes de laser com aeronaves”, os pilotos relataram efeitos visuais adversos temporários, “tais como cegueira tipo flash, imagem posterior, visão embaciada, irritação nos olhos e dor de cabeça”, contou Álvaro Neves.

O diretor do GPIAA classificou como “impressionante” o número de reportes de ocorrências com raios laser em território nacional, tendo em conta a dimensão do país, acrescentando que tal “brincadeira” apenas demonstra o desconhecimento por parte dos autores do perigo que este tipo de comportamentos representa para a aviação civil.

A Associação Portuguesa dos Pilotos de Linha Aérea (APPLA) classifica como preocupantes os “ataques de lasers” a aviões e apelou à realização de uma campanha de sensibilização da população acerca dos riscos deste comportamento.

A criminalização destas ocorrências é também defendida pelos pilotos.

“Em termos operacionais, de facto, é preocupante. Os ataques de lasers são feitos de uma de três maneiras: ou pela iluminação de uma discoteca, de um acontecimento noturno em que há um laser bastante potente que incide na aeronave que está a aterrar ou a descolar, ou por alguém na brincadeira, geralmente com um laser pequeno, ou com o intuito de pirataria mesmo, com dolo e intenção”, explicou à agência Lusa Miguel Silveira, presidente da APPLA.

Seja qual for a circunstância em que o laser é apontado a um avião, caso ocorra no momento em que a aeronave está próxima do solo, há riscos para a tripulação.

“Pode causar cegueira momentânea ou reproduzir imagem dupla na retina. Estes efeitos podem durar algum tempo, o que leva a que o piloto que está a aterrar possa ficar sem ver temporariamente, que podem ser minutos. Ou seja, [o piloto] pode deixar de ver precisamente quando mais precisa de ver, que é para aterrar o avião”, alertou Miguel Silveira.

O presidente da APPLA referiu que apontar lasers a aviões “não é desejável”, e lamentou não haver estudos em Portugal sobre este fenómeno, para avaliar, em concreto, a questão da segurança.

Este piloto pede a ajuda da comunicação social, e deixa um apelo às entidades ligadas à aviação para que que levem a cabo uma campanha de informação e sensibilização da população acerca deste fenómeno, o qual ainda é do desconhecimento do grande público e que, para muitos, não passa de uma brincadeira.

“Os media interessarem-se pelo assunto, ou então haver mesmo um campanha iniciada oficialmente pelo Estado, via Instituto Nacional de Aviação Civil (INAC), com a conjunção do GPIAA, e à qual a APPLA se unirá imediatamente e com todo o gosto, para de facto elucidar”, desejou Miguel Silveira.

O presidente da APPLA defende que, depois de a mensagem chegar à população, devem desenvolver-se os esforços para que haja a criminalização destes comportamentos.

“Quase todos os países já têm isto incluído na lei (…). Obviamente, achamos que deve haver uma regulamentação (…) que vá penalizar isso. Mas, antes da penalização e da lei, o que eu gosto mesmo que se faça e o que esta associação gosta que se faça é que haja um esclarecimento das pessoas”, sustentou Miguel Silveira.

A agência Lusa solicitou há cerca de duas semanas esclarecimentos e informações à direção nacional da PSP, ao Ministério da Justiça e ao INAC acerca deste assunto, mas não obteve respostas.

A TAP, por seu turno, respondeu que, embora não dispondo de dados suficientes que permitam caracterizar com relevância este tipo de ocorrências, sublinha que “a perceção geral, é a de que a sua mitigação passa pela atenção/atuação do regulador (INAC), assim como pela sensibilização das pessoas para os potenciais efeitos da utilização de lasers apontados a aviões”.

com Lusa

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