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ANTÓNIO RAMOS ROSA – 1924-2013 | NA CIDADE DAS PALAVRAS

Teodomiro_neto
Por Teodomiro Neto

Na segunda-feira – 23 de Setembro – 2013, faleceu o poeta das palavras., a razão da minha homenagem ao Poeta d`Rosa Esquerda, do Sol e da Claridade, da poesia de um tempo adiado em : Não Posso adiar o Coração, em imensa poesia, em que o traço característico lhe vem dos anos sessenta, na colecção “A Palavra”: As palavras mais nuas / as mais tristes/ As palavras mais pobres/as que vejo/sangrando na sombra e nos meus olhos.

António Ramos Rosa nasceu em Faro a 24 de Outubro de 1924. Conheci-o por Faro no final dos anos 50. Um jovem silencioso, austero e grave, pela seriedade do seu estar, sem se mostrar importante, Vivia das lições de francês e inglês e de admirável português. Lembro-o como cliente do Café Aliança, os encontros com o poeta de muitas admirações que foi Emiliano da Costa, sobretudo, que o foi demonstrando pelas tertúlias pelo célebre café mundano, artístico, político e bolsista. Mantenho, entre a sua imensa bibliografia, o primeiro de todos os seus livros, um exemplar do “Grito Claro”, editado em Faro, na tipografia Cácima-1958. Depois perdi o poeta das descobertas, da coisa dita e a forma pela qual é dita, para se transformar num dos mais importante poetas, algarvio, português e europeu, do meio século XX.

LEMBRO-ME que iniciei a leitura do poeta de “A Sombra Viva”, na Casa de Espanha, na cidade francesa de Lyon – 1969. A aceitação do poeta do Boi Cansado, foi crescendo na medida que as palavras, muito claras, se cruzavam, peça a peça, e se conjugavam em gritos claros, desde “O Boi da Paciência”, tão alusivo aos tempos da ditadura: Noite dos limites e das esquinas nos ombros / noite por demais aguentada com filosofia a mais / que faz o boi da paciência aqui?

Para os estudiosos da obra de Paul Eluard, encontra-se na poesia roseana um apego à elurdiana. Quando escreve: Derniers Poèmes d’Ámour:À l´heure du réveil prés  de la terre / un rayon de soleil creuse un trou pour la mer.

Não é difícil entrar na textualidade poética de Ramos Rosa, na sua linguagem profunda, nas pulsações secretas; brandas ou torrenciais, num aluvião de palavras carregadas de matéria densa, de esperma sideral, de falésias, de ventos largos, de sol, de muita claridade, liberdade expressiva.

Sou o que veio por um momento de Sol / Vim até à beira da janela / até ao hálito da casa / venho ver o Sol / o ouro do campo / da casa / Uma boca lenta que percorre / o saber dos quartos / desta casa de terra quente / venho até quase à boca desta casa / silenciosa de Sol

É a visita do poeta aos seus lugares peregrinos, aos lugares sombrios da sua cidade clara.

Universidade do Algarve - 17/10/2013 - Doutoramento Honoris Causa de António Ramos Rosa
Universidade do Algarve – 17/10/2013 – Doutoramento Honoris Causa de António Ramos Rosa

1958, lembro a palavra controlada quando a queríamos à solta pelo, Aliança, por onde era lugar que a malta se encontrava e agrupava, na vaidade pelo novo movimento que se criara numa cidade capital de província. E tanto bastou para a consagração do jovem António, muito silencioso no seu percurso citadino e poético. Ainda o ano decorria e já o autor, e já o livro surgia em antologia por Jorge de Sena nas “Líricas Portuguesas”, 3.ª série. Faro, no dizer de Casimiro de Brito tomou o pólo da moderna poesia portuguesa. Faro é o centro da nova corrente poética: O café Aliança é um ex-libris da cidade. Por ele passa grande parte da intelectualidade portuguesa. Muita gente culta, ou não, vem curiosa pelo nome que o café alcançou nas suas memórias e que o tempo foi registando. E sempre pelo Aliança a poesia foi de um reconhecimento, pelo que por lá passavam em ares pretenciosos os grandes, assim considerados da poesia algarvia: Cândido Guerreiro, Emiliano da Costa, Marques da Silva, Joaquim Magalhães, Arnaldo Vilhena, Vicente Campinas, Elviro Rocha Gomes. Outros, candidatos, vinham à sombra protectora e de admiração, como o jovem Manuel Madeira, entre tantos que despertavam para a poesia: Gastão Cruz, Casimiro de Brito, que por lá deram todo o brilho. Também nessa memória do poeta António Aleixo, que viu o seu primeiro, e único livro, (Quando Começo a Cantar- 1943) a passar de mão em mão pelas mesas do Aliança e a ser respeitado como poeta de filosofia concreta e acessível ao grande público. Por isso o café foi considerado o espaço maior da poesia e dos poetas do Algarve, como sempre acontecera, desde o “Futurismo”, a partir da segunda década do século XX, atingindo as mais distintas palavras: “que alegria elas sonham que outro dia /para que rostos brilhem” (1).

Nos anos sessenta, sobre a poesia de A.R.R., já a Europa reparava, já o diário parisiense, Le Monde escrevia sobre le mot et les choses (palavra e as coisas), numa não libertação da palavra que se agrilhoava em Portugal LE Le poète est l´homme de la stabilité unilatérale / Le poème est lámour réalisé du désir demeuré désir. Logo o poeta é estudado e admirado além fronteiras. Robert Bréchon escrevia para a revista cultural belga “ Le Courrier”: Despojada da sua musicalidade, da profusão das imagens, dos sinais mais exteriores da sua existência, e também dos seus atributos que lhe asseguram uma continuidade feliz

Em 1981 visito a mãe do poeta (2), na rua Brites de Almeida, em Faro. A Senhora Vicência Ramos fala do filho, em lágrimas e sorrisos. Em alegria por ser a mãe do António, o seu eterno menino, sempre doente, sempre poeta. Oferece-me um poema do filho dedicado aos oitenta anos da mãe: Conheço a tua força mãe, a tua fragilidade / Uma e outra são a tua coragem/ o teu alento vital / estou contigo mãe / no teu sonho permanente. E senhora Vicência, diz-me, naturalmente: O meu António não vem à sua cidade, que esta não o entende e por tal lhe deu desprezo.       

Em 1991, mês de Outubro. O poeta António Ramos Rosa tem 75 anos, visita Faro para a festa da poesia, organização da Câmara Municipal de Faro que lhe presta homenagem. Os amigos ausentes vêm ao Clube Farense em abraços. O Poeta vem muito frágil, apoiado, como se já fora um velhinho. Lembro as palavras comovidas de António Ramos Rosa: Hoje estou de bem com a minha Cidade!

Durante cinco dias Faro recebeu os amigos do Poeta, e poetas de todo o País, no salão do Clube Farense, espaço sempre reservado a uma certa classe do capital e das referências, que desde o 25 de Abril se libertara dos preconceitos….. Os actores da ACTA deram o brilho à “Festa dos Poetas e da Poesia”

Na minha relação com a poesia roseana que afirma: Não posso adiar o amor para outro século, tem sido de identificação com o tempo, que a sua poesia tem sido sempre o seu tempo. Acompanhei em leitura o tempo do poeta, repartindo-o em leituras, em lições, no orgulho em passar ao conhecimento, pelas palavras, pela escrita: O grande poeta farense a quem um crítico já considerou o maior do século, sendo Ramos Rosa o poeta inteiro, a voz do tempo presente, neste pensador em toda a transcendência do homem do Sul. No cromatismo do narrar, no respeito da claridade das suas palavras. Ele abre-nos os caminhos das palavras.

… :

Há uma palavra ou uma chama?

Que para morrer mais depressa se levanta

E flutua entre centelhas de uma dança.

Não adormeças agora

Que a dança é da chama dos teus olhos.

1) “Café Aliança- The Grand Liyerary Café  of Portugal – Edição 2008- T.N.

2) Entrevista Jornal do Algarve, 13/11/1981

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