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QUANDO a meio dos anos vinte do século passado a Câmara Municipal de Faro colocou à aprovação da maquete para ser aprovada a construção da Agência Banco do Banco de Portugal, logo a população reprovou, em maioria, o projecto de um dos mais reputados arquitectos portugueses, de nome Adães Bermudas.

Estávamos no início dos anos vinte. O arquitecto respeitou a vontade da população de Faro, apresentando novo projecto, tal como hoje se apresenta na Praça D. Francisco Gomes de Avelar. O Banco de Portugal que veio ocupar o inestético mercado da verdura, na época, é hoje um dos mais admirados exemplares da arquitectura romântica, a exemplo do palácio da Pena, de Sintra, meados do século XIX, e de outros exemplares que o romantismo, nessa liberdade artística que nos chega desde a Inglaterra, nessa evasão para o passado, no neogoticismo de Barry como pela França, permitindo todos os “escândalos” que na época se ofendia; na Alemanha, com Luis II da Baviera e o seu castelo de Neuschwanstein.

Faro teve, mais tardiamente, como é habitual, numa região periférica (mais que o país em si), o interessante e admirado edifício que Adães Bermudas trouxe, nessa arte que o notificou, um dos seis admiráveis edifícios que o século XX edificou na capital algarvia e, seguramente, em todo o Algarve.

O Banco de Portugal, como é reconhecido e repetido na importância do capital, é hoje admirado, porque mais centralizado a par dos restantes edifícios civis que se construíram, desde 1915, com o palácio do Fialho, em Santo António do Alto (vulgo Colégio do Alto), da responsabilidade do arquitecto algarvio, Manuel Joaquim Norte Júnior, seguindo-se o palacete Belmarço, para o início do ano vinte, vem de permeio a fachada do café Aliança, seguindo-se, a meio dos anos trinta, o palacete de encomenda de Francisco Guerreiro Pereira Júnior, o chamado palacete do Guerreirinho, vindo um pouco antes, logo na entrada de trinta, o exótico edifício, conhecido por Vivenda Marília. Reconhecendo que na maioria desses nobres edifícios, esteve o mestre canteiro e escultor Tomaz Ramos, nesse traço reconhecido da cantaria, cremos para o Banco de Portugal, muito da pedra artística teria mão artística de fora, o que não rejeitamos a intervenção do mestre Ramos. Mas, este mestre do diamante calcário, que encheu a cidade da pedra artística, ficará para outro escrito. Vamos conhecer um pouco o arquitecto que nos trouxe todo e o maior expoente do tardio romantismo onde todas as manifestações estão visíveis para a admiração da pedra tão sadia como artística.

Bermudas trouxe para o edifício de Faro toda a liberdade de estilos. Dir-se-ía um Luis da Baviera, também nesse envolvimento do verde que o jardim Manuel Bívar lhe emoldura a fachada para poente. Nele, o edifício, temos os neos, de todas as sugestões desde: o islamizante, o manuelino, o plateresco, é uma riqueza de adornos, em que sobressai a sugestiva inspiração à porta Almóada de Faro, O arquitecto traçou todo o historial ligado à raiz do nosso património, que o manuelino está por todo o Algarve, desde que D. Manuel I reformou a construção, mais religiosa, pelo reino do Algarve, do Barlavento ao Sotavento.

Mas quem foi Arnaldo Adães Bermudas? Vamos ao reconhecimento, que nem sequer a toponímia da cidade o tem honrado. Portuense, nasceu em 1863. Estudou belas-artes na sus cidade do Porto. Concluído o curso, seguiu para Paris, 1888, cidade que frequentou durante cinco anos a escola de Beaux Arts, tendo como mestre, o arquitecto Paul Blondel. A estadia de Paris, centro cultural nevrálgico da Europa, terá sido decisiva na estruturação do seu pensamento patrimonial e arquitectónico e das teorias de restauro monumental. Por essa altura, estava em marcha um amplo movimento europeu que associava os nacionalismos às pretensas características “nacionais” do património, o que motivou um intenso restauro monumental e o surgimento dos revivalismos. Adães Bermudas participou activamente nesta dialéctica, em que passado, presente e futuro foram confrontados, como criador. Após o regresso a Portugal, em 1895, integrou a Real Associação de Arquitectos Civis e Arqueológicos Portugueses. No mesmo ano ganhou o concurso do Ministério das Obras Públicas para o projecto do Mosteiro dos Jerónimos. Já na 1.ª República desempenhou importantes cargos públicos, vogal efectivo do Conselho de Arte e Arqueologia, Secretário da Comissão dos Monumentos Nacionais, em 1921 é Administrador-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, integrando a Comissão de obras de conservação dos Mosteiros de Alcobaça e da Batalha, assim como das abóbadas da igreja de Santa Maria de Belém. Tal o curriculum deste criador que deixou por Faro o mais admirável edifício de todas as cambiantes artísticas da arquitectura: cantaria, ferragem, azulejaria, madeiras preciosas, vitrais, tudo se conjuga para a admiração de um dos mais ilustres arquitectos dos tempos modernos. Nesse pensamento, raro, e híbrido e, de alguma forma, conciliatório, por atenuar a dicotomia entre a arte criadora e criativa. Bermudas, deixou-nos, num século de todos os revivalismos e, sobretudo, na salvação do nosso mais importante património. E esta jóia do século XX.

Com o golpe militar de 1926, Adães Bermudas é afastado dos caminhos do património. Em 1930 dedicou a sua vida inteiramente ao ensino na Escola das Belas-Artes. Morre em 1948.

Teodomiro Neto

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