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Foto © Samuel Mendonça

O bispo auxiliar de Braga exortou o clero algarvio à criação na diocese de um “serviço de acompanhamento espiritual e de situações de emergência” que possa incluir um padre exorcista.

“Na diocese seria muito bom que criassem um pequeno grupo de serviço a esta causa, caso contrário veremos este cortejo de gente a sofrer a passar para os cartomantes, a ir para os bruxos e nós ficamos como testemunhas de tudo”, desafiou D. Francisco Senra Coelho que abordou o tema da jornada de formação tendo em conta “Questões Pastorais e diálogo interdisciplinar”.

Na jornada de formação que a Diocese do Algarve promoveu no dia 21 deste mês para o clero no Seminário de São José, em Faro, sobre o tema “Caminhos de Libertação”, o prelado contou que o mesmo serviço foi constituído na Arquidiocese de Évora, onde foi padre durante vários anos, chegou a receber “pedidos do Algarve” que por “motivos de dificuldade de tempo” nunca foram atendidos.

“Prefiro falar deste serviço de acompanhamento espiritual e de situações de emergência do que falar de exorcista. Aí é que estará o exorcista se for necessário atuar, mas é sempre uma exceção”, sustentou, lembrando que o ritual dos exorcismos sugere que não se faça o exorcismo nos casos em que não há completa certeza de se estar perante uma “situação real de possessão”, limitando a atuação a outras formas de intervenção como “a oração, a escuta da palavra, o jejum ou a bênção”.

Neste sentido, lembrou que “só pode ser usado o ritual do exorcismo com autorização específica do bispo” porque “a Igreja tem uma prudência acentuada que é excepcional”.

Foto © Samuel Mendonça

À luz da experiência adquirida no serviço da arquidiocese eborense, D. Francisco Senra Coelho explicou que o procedimento, depois de uma auscultação no âmbito da clínica geral, da psicologia e da psiquiatria, passa sempre pela “impressionante terapia” de “levar a pessoa ao encontro da descoberta do amor de Deus por ela”. “É necessário que aconteça o encontro com Jesus e a pessoa liberta-se na medida em que faz essa experiência”, considerou.

O prelado reconheceu haver “fenómenos ditos místicos que são questões sérias de patologia ou que se podem cruzar com patologias”, mas ressalvou haver um “caminho a fazer” com os pacientes dessas doenças.

Neste sentido adiantou que a metodologia passa por “tentar integrar a pessoa num grupo de oração e de catequese de adultos”, procurando fazê-la “chegar à confissão, envolvê-la nos sacramentos, celebrar a santa unção em muitos casos”.

O formador explicou que, dos mais de vinte casos tratados, o serviço da diocese alentejana – que incluía dois sacerdotes, um psiquiatra e um psicólogo – levou apenas dois ao Piccolo Cottolengo de Monteverde, entidade congénere da Diocese de Roma. “Tomámos como princípio a nossa pouca preparação para não celebrarmos nós os exorcismos”, justificou, assegurando que a grande maioria das ocorrências se relacionam com “problemáticas familiares”, de “luto”, de “trauma”, de “revolta” ou de “carência afetiva profunda”.

O orador, que analisou ainda a questão da “magia versus religião”, apresentou uma reflexão sistematizada sobre a primeira, garantindo que “não é exagero falar de uma indústria da magia”. “Não é compatível o ser cristão com nenhum tipo de magia”, advertiu, acrescentando que “o cristão não pode aceitar a magia porque não pode aceitar que Deus passe a um segundo plano perante as falsas crenças e o poder constituído do mágico”.

D. Francisco Senra Coelho lembrou que na magia “o recurso à divindade, quando existe, é meramente funcional, ficando subordinada a essas forças e aos efeitos desejados”. “Deus é uma espécie de mandatário, de executivo, que obedece às ordens do mágico”, criticou, alertando que “o exorcista pode-se tornar um mágico”. “Podemos trabalhar a favor de mágicos que nos enviam os clientes”, advertiu.

“Seja qual for a forma pela qual se expresse, a magia representa um fenómeno que não tem nada a ver no plano objetivo com o autêntico sentido da religião e do culto de Deus. Pelo contrário, é sua inimiga e antagonista”, concluiu, considerando haver uma “grave carência de evangelização que não possibilita aos fiéis assumirem uma atitude crítica perante propostas que não apresentam senão uma triste mistificação do conteúdo autêntico da fé”.

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