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«Talvez isto seja Deus a dizer-nos que devemos olhar para aquilo que é essencial». Estas são palavras do Bispo do Algarve, D. Manuel Neto Quintas, sobre o tempo de pandemia que vivemos. «E o essencial são sempre os outros», diz em declarações à Agência Ecclesia, sobre a forma como viveu esta quaresma e tem acompanhado o evoluir do surto pandémico do Covid-19.

O prelado algarvio, refletindo sobre o que este tempo tem trazido à humanidade, considera que «Deus se serve destas situações para nos abanar, para nos alertar, para nos ajudar a fixar no essencial» e para nos interpelar, guiados pelo olhar da Fé, sobre a forma como vivemos. E que esse poderá ser um dos benefícios desta situação difícil e de sofrimento que o mundo enfrenta. «O essencial são sempre os outros, é sempre a atenção que dedicamos aos outros, o espaço que encontramos na nossa vida para os outros, sobretudo em ambientes familiares ou ambientes comunitários, como os desta missão que me caracteriza a mim, bem como todo o clero do Algarve» afirma. E considera que este é o momento de nos perguntarmos interiormente «que lugar ocupam os outros na minha vida? Que lugar ocupa o outro, quem é Deus, na minha vida?».

Recordando que vivíamos a queixarmo-nos que não tínhamos tempo para nós, para as nossas famílias, nem para as atividades que nos eram propostas, D. Manuel Neto Quintas afirma que a sua reflexão o leva a «concluir que o que é relativo, que é secundário, que às vezes nos preocupa e ocupa tanto, às vezes deve ser relegado exatamente para esse lugar, para aquilo que é secundário, para aquilo que é menos importante». E esta é uma das fragilidades que o Bispo do Algarve identifica na forma de agir e pensar da humanidade, uma humanidade frágil e cuja «fragilidade está aí à vista», apesar dos «avanços tecnológicos felizmente conseguidos pelos progressos científicos». E conclui: «Um vírus insignificante certamente na sua grandeza, mas com uma força incalculável, que modifica os hábitos, que perturba, que assusta, que amedronta, que nos interpela, que nos interroga» leva-nos a reduzirmo-nos «a nós mesmos, àquilo que verdadeiramente serve de sustentáculo às nossas opções, à nossa vida, ao modo como até nos estruturamos socialmente».

Vê o isolamento como uma prova dura, já que considera que «nada dispensa o estar próximo das pessoas, o estarmos juntos e estarmos unidos, confortarmo-nos mutuamente, também com laços que exprimem esse afeto que o pastor deve ter pelas suas ovelhas». O mesmo acontece nas famílias, que estão separadas e impossibilitadas de se reunir, nomeadamente as famílias mais alargadas, os avós com netos pequenos. «Nada dispensa o contacto pessoal, a proximidade, o ouvirmo-nos, o escutarmo-nos, o vermo-nos, o estarmos próximos», reforça e conta que para si tem sido difícil celebrar a eucaristia: «Temos de fazer um esforço muito grande para imaginar que por trás das câmaras há uma multidão de gente, talvez até mais do que aquela que estaria numa igreja paroquial». Considera estes meios muito úteis e que têm sido fundamentais na manutenção deste contacto dentro das comunidades da Igreja Algarvia: «Procuramos suprir deste modo, contactando através dos meios de comunicação, pelo telefone, ou também transmitindo a missa, desde o primeiro dia pelos canais das redes sociais. Felizmente isso tem sido possível e esperamos que possa continuar a ser possível, nos dias seguintes, enviando materiais, textos, propostas, sugestões para os párocos, para distribuírem pelos seus paroquianos e isso tem sido feito aos mais diversos níveis», salienta e menciona que «a comunhão na oração, particularmente na eucaristia traz-nos aquilo que a dificuldade em encontrarmo-nos provoca: traz-nos o conforto, traz-nos a esperança, traz-nos a presença, traz-nos a comunhão em Cristo, Nele, com Ele e por Ele, sobretudo neste tempo de privação do contacto de proximidade com os meus diocesanos, o povo da Igreja do Algarve».

Destaca, igualmente, o sentido de responsabilidade que cabe a cada um de nós, pois «sabemos que não basta fazermos tudo para não nos deixarmos contagiar; devemos, também, fazer tudo para não contagiar os outros e também tudo o que está ao nosso alcance para ir ao encontro daqueles que já estão contagiados, daqueles que precisam da nossa palavra, do nosso estímulo, do nosso apoio».

Como testemunho afirma que para si este tem sido um «caminho que conduz seguramente à Páscoa da ressurreição, à Páscoa Libertadora de Cristo, que liberta, também, de todos estes medos, de todas estas provações e que nos projeta, precisamente, na vida que Cristo anuncia» e onde afirma «“Eu sou a ressurreição e a vida”».

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