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HÁ algumas referências de Camões pelo Algarve. Basta lembrar as que o poeta deixou nos Lusíadas sobre o reino do Algarve.

Sabemos que navegou nos mares do Sul, de Sagres, por Faro, por Tavira até alcançar Ceuta. A malograda Ceuta na tradição da sua parcial cegueira. Se bem que se afirme que cobrir uma vista era sinal de homem célebre … nessa não embarco! Basta conhecer obra do poeta para retirarmos essa qualidade de vão.

Mário Lyster Franco, em Novembro de 1946, apresentou o seu trabalho “Camões e a Algarvia”, em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes.

Como Sabemos a algarvia era Dona Francisca de Aragão, considerada (talvez em excesso) a mais esbelta Senhora das cortes da Península Ibérica.

Essa paixão entrou na crónica dos tempos. Paixão correspondida? Mas impossível.

A senhora de Faro, familiar dos Barretos, só se uniu por matrimónio, já por imposição real…, com um grande de Espanha.

Lyster Franco não deixa de registar esse amor que o poeta nutria pela senhora que soube corresponder em silêncios que a corte exigia.

Como sabemos Camões nessa sua vida itinerante, servindo o rei D. João III, foi destacado para a Índia, como escrivão da casa real. Viveu em Goa, aquela deslumbrante cidade que foi considerada de Roma do Oriente, pelo esplendor e quantidades das igrejas que a cidade dos portugueses registava na Índia. Ainda a cidade mais habitada e mais rica sob o domínio português.

Os excessos provocam excessos… E assim se vivia em Goa. Luís de Camões. O poeta, como funcionário da coroa do reino, escrivão honesto, passando misérias por tal corresponência, lembrou-se de a verdade à solta, publicando Os Disparates de Índia. Em redondilhas:

Ó vós, que sois secretários
Das consciências reais,
Que entre os homens estais
Por senhores ordinários:
Porque não pondes um freio
Ao roubar, que vai sem meio,
Debaixo de bom governo?
Pois um pedaço de inferno
Por pouco dinheiro alheio
Se vende a “Mouro e a Judeu”.

Resta dizer que o Governador da Índia, nesse tempo de Camões, era um Senhor de Faro, Dom Francisco de Barreto (cujo nome faz parte da toponímia da cidade). E por acaso era tio de Dona Francisca de Aragão. Teve esta senhora da nobreza alguma interferência do Governador da Índia para evitar maior castigo da verdade à solta do Poeta, nos chamados "Disparates da Índia"? Não, seguramente… Ou talvez!

Mesmo assim, neste caso que não tinha face oculta, Dom Francisco Barreto castiga o poeta servidor da coroa real, na sua honestidade. Mais um exílio, mais um castigo…

Francisco Barreto desterra o poeta-funcionário da magnificência de Goa, mandando o leal servidor, cujo defeito foi a de utilizar a sua lírica, a arma da verdade, num caso real para a longínqua Macau, que serviu para aí compor o resto que lhe faltava da obra imortal, das mais célebres do renascimento europeu: Os Lusíadas.

No dia 9 de Junho de 2010, em Faro, o presidente da República homenageou dois poetas da terra algarvia. Em honra nacional, ao Educador João de Deus, foi deposta uma coroa de flores e apresentação de armas pelo chefe das Forças Armadas Portuguesas, o Presidente Aníbal Cavaco Silva, perante o primeiro monumento levantado ao educador e poeta de Messines. Do Céu caíam gotas de pérolas sobre o monumento do ilustre português, autor da Cartilha Maternal, como um anúncio divino.

Depois, sem tardar, Aníbal Cavaco Silva foi à Casa Municipal lembrar António Aleixo, e leu do poeta da verdade à solta, talvez esta quadra. Seria?

Tu que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes-esqueceste
Tudo quanto prometias…

Camões revisitou a terra do Algarve… Também num encontro com os seus confrades: João de Deus e António Aleixo.

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