“Chego como sucessor dos Apóstolos, não para iniciar uma obra que me pertence, mas para servir a obra que é de Deus”. Esta foi a certeza realçada pelo novo bispo do Algarve na homilia da Eucaristia que deu início ao seu ministério na diocese algarvia e que teve lugar esta manhã na catedral de Faro, perante uma das maiores enchentes a que seguramente aquela Sé já terá assistido.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A frase foi a mesma que D. Vitorino Soares quis deixar impressa na pagela distribuída a todos para marcar a sua entrada nesta “querida Diocese do Algarve” e que acrescenta ainda que a sua “missão consiste em confirmar os irmãos na fé, promover a comunhão, cuidar dos mais frágeis e conduzir todos ao encontro de Cristo”. “Também sei que o êxito do meu ministério não dependerá apenas das minhas capacidades, mas da Graça do Senhor que me precede, acompanha e sustenta”, refere ainda o texto que citou, acrescentando que “o mesmo se aplica a cada batizado”.

“A minha entrada como novo bispo é, por isso, um momento privilegiado para renovarmos a confiança em Deus. Mais do que perguntar o que fará o novo pastor, somos convidados a perguntar-nos o que o Espírito Santo deseja realizar através de mim e de todo o povo que me é confiado”, acrescentou ainda.

“Hoje continuamos uma história de graça que pertence a Deus”

Esta foi também uma ideia realçada por duas vezes esta manhã pelo novo bispo do Algarve. D. Vitorino Soares começou por lembrar que “o Algarve possui uma longa tradição cristã, enraizada no testemunho das primeiras comunidades, consolidada pela antiga Sé de Silves, entre 1189 e 1577 e renovada ao longo dos séculos” naquela Sé de Faro, a partir de D. Jerónimo Osório, evocando as “gerações de bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas e leigos” que “edificaram esta Igreja sobre a fé dos apóstolos”.

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O novo bispo do Algarve recordou os “dois bispos do Porto que por aqui passaram: D. António Barbosa Leão” (1908/1919) e D. Florentino Andrade e Silva (1972/1977). E não esqueceu D. Júlio Tavares Rebimbas (1966/1972), que seguiu do Algarve para a diocese portuense e que o ordenou sacerdote em 14 de julho de 1985, dia e mês, também da sua nomeação para esta Diocese do Algarve.

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D. Vitorino Soares agradeceu ainda “a obra e a serenidade de D. Manuel Madureira Dias”, bispo emérito do Algarve, a quem deixou um “abraço de proximidade na doença e na idade”. A D. Manuel Quintas, a quem constatou a “responsabilidade de suceder”, pediu que lhe deixe o seu “manto de sabedoria, de fortaleza e de prudência, para continuar com ardor e alegria o legado” entregue, “o seu coração de Pastor e a sua paternidade espiritual”.

“Apascenta as minhas ovelhas” (Jo. 21,17)

D. Vitorino Soares centrou a sua reflexão no diálogo entre Jesus e Pedro nas margens do lago de Tiberíades, em que Cristo lhe pede: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo. 21,17). “Esta é a palavra que hoje ressoa com particular intensidade nesta catedral de Faro, nesta Diocese do Algarve; (…) é uma palavra viva que continua a ecoar na história da Igreja e que hoje se dirige, de forma nova, a mim, que, como bispo, início o meu ministério entre vós”, afirmou.

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O novo responsável da diocese lembrou que “antes da missão do bispo, está sempre a iniciativa de Deus” e que “esta é uma verdade profundamente libertadora”. “É Ele que procura a ovelha perdida, quem cura a ferida, quem fortalece a fraca e quem conduz o seu povo às águas da vida”, evidenciou, lembrando que “o bispo não substitui Cristo”, “não é o dono do rebanho” e “não pertence a si mesmo”. “É apenas servidor daquele que continua a dizer: «As minhas ovelhas»”, observou.

D. Vitorino Soares realçou ser “Cristo quem conhece cada família desta Diocese do Algarve, cada paróquia, cada sacerdote, cada diácono, cada consagrado ou consagrada, cada catequista, cada jovem, cada idoso, cada pescador, agricultor, trabalhador, empresário, migrante e turista que passa por esta terra abençoada”. “Eu, como bispo, estou chamado a aprender o olhar do Bom Pastor”, salientou, lembrando que Pedro, “aquele que negou Cristo por três vezes, tornou-se pastor, porque primeiro experimentou a misericórdia” e, “por isso recomenda: «Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, não por obrigação, mas de boa vontade; não como dominadores, mas tornando-vos modelos do rebanho»”. “Que extraordinário programa de vida!”, considerou.

O novo bispo diocesano lembrou, assim, que “na Igreja, a autoridade nunca é domínio, é serviço”; “o governo nunca é poder, é cuidado”; e “a grandeza nunca consiste em ser servido, mas em servir”. “O bispo não caminha à frente porque é superior aos outros, mas porque recebeu uma missão de abrir caminhos de esperança para todos. E isso exige proximidade. Uma igreja onde o bispo conhece o seu povo será um esforço para mim. Uma igreja onde os sacerdotes e os diáconos caminham unidos entre si, é um esforço para o clero. Uma igreja onde ninguém se sente excluído é um esforço para todos os batizados. Uma Igreja que acolhe, escuta, acompanha e evangeliza é um esforço para todo o povo de Deus”, referiu.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Regressando ao diálogo narrado no Evangelho, D. Vitorino Soares lembrou a pergunta de Jesus a Pedro que antecede o pedido já referido: «Tu amas-me?». “Toda a missão nasce desta pergunta. Sem amor a Cristo não existe verdadeiro ministério. Sem amizade com Cristo, o pastor transforma-se num simples gestor. Sem oração, a missão torna-se um peso; sem Evangelho, as estruturas esvaziam-se”, alertou, considerando que o rito da sua profissão de fé e juramento de fidelidade, realizado antes da Eucaristia, foi uma “profissão de amor”. “Não um amor sentimental, mas um amor que se traduz em entrega, em escuta, em coragem, em paciência, em fidelidade”, especificou.

Evidenciando que “antes de confiar as ovelhas, Jesus conquista o coração do pastor”, lembrou que Deus “não escolhe homens perfeitos ou mulheres perfeitas, mas pessoas disponíveis para serem transformadas pela sua misericórdia”. “Também esta Igreja do Algarve é chamada a responder à pergunta de Jesus: «Amas-me?». Ama Cristo, uma diocese que permanece unida; ama Cristo, uma comunidade que sabe perdoar; ama Cristo, uma família que reza; ama Cristo, uma paróquia missionária; ama Cristo, uma igreja que não vive fechada sobre si mesma, mas sai ao encontro daqueles que perderam a esperança”, alertou.

D. Vitorino Soares considerou que “o Algarve possui uma vocação muito própria” porque “é terra de encontro, terra aberta ao mar, terra onde chegam pessoas de todos os continentes, terra onde convivem diferentes culturas e credos religiosos”. “Tudo isto constitui um enorme desafio pastoral, mas também uma extraordinária oportunidade missionária”, considerou.

Com base no salmo da celebração – “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem” (Salmo 126,1) -, que o acompanha desde a ordenação sacerdotal, o novo bispo do Algarve lembrou que “toda a obra verdadeiramente fecunda tem a sua origem em Deus”. “Podemos planear, organizar, construir e trabalhar com dedicação, contudo, se Cristo não for o fundamento, os nossos esforços correm o risco de permanecerem apenas obra humana”, advertiu.

Algarve acolheu em festa o seu novo bispo (c/vídeo)