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JÁ se chamou a Faro, cidade de Cetim; da Seda, só poderá sê-lo, a cidade francesa de Lyon. A primeira adjectivação a Faro justifica-se na transparência e na maciez das claras manhãs, na luminosidade fina do meio dia, ou nos nocturnos em que a noite se veste de crepes azulinos e transparentes, num cetim natural que a natureza envolve a cidade.

Lyon tem a matriz da matéria: la ville de Soierie (a cidade da seda), desde os tempos. Para além do famoso museu das sedas; para além da tradicional produção, onde milhares de operários executam a famosa seda europeia, todo o elogio é escasso…

Mas as afinidades, mais se ajustam, pelas minhas considerações: por ambas terem sido cidades fundadoras do cristianismo e de topónimos romanos: a Lusitana de Ossónoba, (Faro) a Gaulesa Lugdunum. (Lyon)

Ambas têm aproximadamente os mesmos tempos de fundação sobre colinas. Duas cidades líquidas: Lyon onde dois Rios que abraçam, para se unirem num só. Faro, onde o Atlântico se derrama, numa imensidade de canais, que formam numa pluralidade de líquidos, a Ria Formosa, fartando-se de beijar o fraldão da sua muralha citadina.

Sempre fui de um tipo urbano. As cidades sempre me prenderam pelas comunicações, emoções e considerações entre os seres, sendo os espaços mais remotos das nossas histórias que se formam comuns e no que melhor procuro nesse viajante do lugar.

Então vamos a uma visita à antiga e moderna cidade de Lyon, que me prendeu desde o ano de 1963, subindo à encosta de Fourvière, o berço da Gália romana. Na torre da basílica de Nª.S.ª de Fourvière, um neo-gótico do século XIX, numa torre que domina a cidade, em que milhares de visitantes deixam, pedidos escritos, mensagens diversas. E, a minha, por lá ficou, continuando nesse respeito que se exigiu. Lembro esse deslumbramento. Não duvidando que hoje esse conjunto histórico da cidade esteja classificado de Património Mundial pela UNESCO, que lhe é tão reconhecido.

Continuando pela neo-gótica basílica, de lá se vêem correr os dois rios: Saône e Rhône, para se fundirem num só. Voltando o olhar, lá está Catedral de Saint Jean (S. João), iniciada a construção no ano de 1107, terminando a obra em 1500, no estilo do primeiro gótico Voltando o olhar: dois teatros, gallo-romano, de fundação A. C., encontram-se no sopé, inverso, da colina. Vamos, decidido, aos Teatros Romanos. Dois, se contam. O mais pequeno conhecido por Odéon, onde as representações são activas. Tendo o grande teatro, o registo do lugar de execução dos primeiros mártires cristãos, como foi o primeiro bispo Potino, entre os 48 mártires, mandados executar às ordens do imperador romano, Marco Aurélio, no ano de 177 d. C. Potino foi o fundador da igreja de Lyon (Lugdunum).

Temos os mesmos tempos das cidades Lusa e Gaulesa, ambos fundadores das primeiras dioceses do mundo cristão e suas divulgadoras e reformadoras do cristianismo, com o bispo Potino da Gália (Lyon) e o bispo Vicente de Ossónoba (Faro), no século III.

O tempo corre! Tanto que há a ver nesta cidade de tantas memórias. Decidimos tomar o funicular que nos desce e nos leva até à desejada catedral de S. João, no chamado Vieux Lyon (velho Lyon), o que entre nós chamamos de Vila a dentro, de Faro Estamos defronte da Catedral que levou 400 anos a ser construída. Entrámos num chão sagrado de quase mil anos. Todo o esplendor da arte ocidental aí se inspira, se cria e se faz expandir por toda a França e Europa, a partir do século XII de Lyon. Há a permissão de subir à torre de S. João (como em Faro, mais recentemente se faz), então, deparámos com o maior sino, nunca visto, entre um carrilhão, L’Un des plus gros bourdons de France (um dos maiores sinos de França), com o peso de 18 toneladas e um diâmetro de 2,5, o chamado Sino de Santa Maria da Catedral de Lyon.

Tem a torre da Catedral de Faro o seu carrilhão, (o actual), tem o seu bourdon denominado de nomes sagrados, como de Santa Maria, não tanto em peso. Os que o conde de Essex (inglês) nos roubou, nos finais do século XVI, pouco mais peso teriam, assim julgo, como os que, hoje, na Catedral de Faro se mostram.

Ainda esta cidade esta afinidade Lyon / Faro. Como sabemos a nossa cidade entrou no reino de Portugal, a partir da conquista, em negociações papais, em 1249, quando o papa Inocêncio IV, decidiu, ser o reino do Algarve, pertença do rei português, Afonso III, assinado pelo Tratado de Badajox (1267). Ora, a cidade e o condado de Lyon só fora anexado ao reino de França, em 1307. Já o mesmo papa, no seu tempo papal, contribuíra para o fim da unidade francesa.

O cansaço aperta. Sentado, admirando a rosácea que inunda a velha catedral em luz cuada, clareando o cinza interior da pedraria ou a nave que se eleva nas alturas. Assim ficámos numa admiração e enlevo.

Deixámos S. João, entrando no labirinto das ruas medievais, onde os turistas se atropelam, levando-nos para o Quartier Renaissance (o Bairro Renascentista). Procurámos um café, entrámos no Georges, fundado em 1836. Como se defendem estes respeitosos estabelecimentos, nesta cidade, neste país. E em Faro!? Sinto vergonha… Uma cidade, como Faro: uma história tão abrangente e tão pouca…ou nenhuma vontade desse reconhecimento. Os Leitores sabem do Aliança!

Mais os haverá, como o Laurencin, (1528), Le Gourmand de Saint-Jean – instalado numa casa datada de 1370… E tantas casas da maior referência e da melhor protecção.

É tempo de visitar os museus. São 18 os que se oferecem ao visitante e estudiosos. Quatro são os meus escolhidos para a comunicação que pretendo: O Museu da Imprensa, Museu de Arte Sacra, Museu de Guignol (dos fantoches) e o Museu da Resistência e da Deportação. Sobre o museu da Imprensa de Lyon, tal como Faro, foram cidades introdutoras, no século XV, do método de Gutenberg, o tempo das tipografias, tecnologia de ponta, para o tempo. Já Édouard Perroy, no seu trabalho, “A Idade Média e a Expansão do Oriente e o nascimento da civilização ocidental, deveu-se à descoberta da imprensa, a partir do século XV, para o conhecimento das navegações, a imprensa deu o maior contributo.”.

Mas em Faro é o silêncio. As autoridades de Faro que se desloquem ao Musée de L’Imprimerie, de Lyon. É urgente mostrar ao mundo que nos visita esse tempo de todo o desenvolvimento português, no governo político e científico de D. João II…

Sobre os teatros, diria que o teatro Des Célestins, construído ao tempo do nosso Lethes (século XIX), tem todo o estilo à italiano. Tteatro que soube evoluir às tecnologias do século XXI. Quem passar, no caso, pela Place des Célestins, reparará, em comparação, o esmero do exterior do magnífico edifício. O edifício do nosso Lethes, é um rosto de velhinho, tal o mau tratamento a que chegou. A cal, é o mínimo da plasticidade que lhe falta. Merece esta cidade tanto desleixo, negligência, por tão poucos custos?

Lá, mais para a noite, iremos assistir à ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner, na magnífica Ópera Nacional de Lyon, com ceia. No restaurante, no 7.º piso, com toda a panorâmica, de vista e de luz, sobre os edifícios nobres (que são inúmeros), é uma atracção turística reconhecida. Mas antes, teremos que entrar no Sonho do Príncipe Perfeito (D. João II de Portugal), na imagem da palavra. (a nossa, actual), nessa NASA oceânica que o Homem se entregou para o futuro da Humanidade. «Un parcours humain et politique dans les origines de la modernité au Portugal Travers le Monde».

O Algarve e a sua capital têm todo o capital material e histórico para que a UNESCO lhe desse o reconhecimento como Património Mundial Cultural Imaterial da Humanidade. Já em Maio de 2006, o Secretário da UNESCO, senhor Koichiro Matsuura reparara nessa possibilidade, dando sinais, visitando a Vila Dentro.

Que tem sido feito? Vimos e ouvimos o neologismo da palavra, ALLGARVE. Todos os milhões gastos em nome de qualquer coisa de nada, como se uma crise não passasse à nossa porta. Como se outros valores mais importantes não tivessem urgência… E tudo aceitamos, cordeiramente. E o Algarve assim vai, na aparência… Salva-nos a cidadania que nos acode nos momentos aflitivos. Paremos para pensar.

Teodomiro Neto


A imagem com que ilustramos o texto: Basílica de Nossa Senhora de Fourvière e a Catedral de S. João de Lyon, pertence à coleção “Cidades de França” “Oilette”, é de 1918. Coleção pessoal.

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