A psicóloga Carla Tomás alertou o clero do Algarve para a importância do “autocuidado no sacerdócio” com a saúde mental.
Aquela especialista em Psicologia Clínica e da Saúde deixou o alerta na formação que orientou na assembleia geral do clero algarvio, que teve lugar no Centro Pastoral de Pêra na passada quarta-feira, 06 de maio.
“[O sacerdócio] é uma missão de ajuda, é uma missão em que estamos constantemente em contacto com o sofrimento e, se não tivermos atenção às questões do autocuidado, podemos esgotar-nos e depois colocar em causa a nossa capacidade de executar a nossa missão”, advertiu.

Carla Tomás apresentou dois estudos, um feito em 2025 com 266 padres católicos em Portugal e outro realizado já este ano com sacerdotes católicos em Espanha que apresentam “dados preocupantes”. A psicóloga disse que o primeiro revelou que os presbíteros nacionais apresentam “sinais de exaustão emocional”. “34% sentem fadiga e irritação diária, 29% sentem falta de apoio pessoal e 27% admitem sentimentos de cinismo e alguma negatividade”, referiu na formação que contou com cerca de 50 participantes.
“Esta exaustão emocional tem que ser algo que também nos preocupa porque para eu cuidar do outro tenho que estar bem”, observou, lembrando que “o número de vocações tem vindo a diminuir e aquilo que é pedido [a cada sacerdote] é cada vez mais”. “E depois estamos a falar de uma missão em que a ideia de base é servir. Portanto, se a minha missão é servir, tenho que servir sempre e a toda a hora. Ora, não pode ser. Não pode ser porque biologicamente não conseguimos estar disponíveis a toda a hora. É importante que também tenhamos cuidado com a nossa própria saúde mental”, alertou.
Aquela especialista disse que no estudo espanhol os valores são concordantes, com “25% dos sacerdotes a terem níveis significativos de burnout”, isto é, “exaustão, despersonalização”. “Essa despersonalização é como se eu vivesse em piloto automático e não conseguisse sequer estar presente”, explicou, questionando: “Ora, se eu não consigo estar presente nem para a minha vida, como é que eu vou conseguir estar presente para os outros?”.
“Portanto, quando a nossa ocupação diária implica cuidar constantemente do outro e, principalmente, de um outro que está em sofrimento, temos que ter este cuidado connosco próprios. Isto, às vezes, pode parecer egoísmo, mas não é. É uma forma de continuarmos a preservar aquilo que é a nossa vocação para conseguirmos exercê-la”, acrescentou, defendendo, por isso, o “autocuidado como um dever pastoral” e sublinhando que “a fadiga por compaixão é uma forma de desgaste emocional que resulta de uma exposição contínua ao sofrimento dos outros”.
A especialista evidenciou assim a importância da “autopreservação para estar bem e poder ajudar o outro” e alertou para os cuidados a ter. “Tenho que me conhecer muito bem, que conhecer os meus limites e que ouvir o meu corpo. O nosso corpo está-nos sempre a dar sinais e, às vezes, estamos já demasiado exaustos e não ligamos”, acautelou, defendendo que “dizer não quando é necessário não é abandono”, mas “uma proteção desta relação de ajuda e do próprio ministério a longo prazo”. A psicóloga considerou que “tem de haver uma reorganização cognitiva também do sacerdote”. “Eu vou estar presente e eu não tenho que ser perfeito, não tenho que resolver tudo”, concretizou.

Carla Tomás acrescentou que alguns dos fatores de risco que são encontrados nos estudos que citou, mas também noutros, “têm a ver com os [poucos] anos de ordenação”. “Quanto mais jovens, maior é a probabilidade de estarmos em situações de exaustão emocional”, concretizou, alertando para o efeito da “falta de rotinas de descanso” e para os valores “elevadíssimos” de doença mental nos jovens em geral. “Mais de metade dos jovens têm uma doença de saúde mental. E isto tem muito a ver com as redes sociais e com a incapacidade de perceber que sou só humano, da aceitação da humanidade. Quando eu sou humano, eu sou imperfeito. A perfeição não existe no ser humano”, referiu.
Carla Tomás advertiu também para o perigo da solidão. “A solidão é um dos preditores maiores de doença mental”, assegurou, acrescentando a importância de “manter relações de amizade, partilhar com os pares, pertencer a grupos que tenham a capacidade de nutrir emocionalmente”, mas também de fazer “algum exercício físico, nem que seja apenas uma caminhada”, e do cuidado com a alimentação.
A psicóloga defendeu assim a importância da “autocompaixão” como “caminho para a saúde mental”. “Ter a mesma misericórdia comigo que ofereço ao outro”, explicou, acrescentando outras boas práticas como a gratidão.
A formadora lamentou que a saúde mental continue a ser um estigma. “Em algumas situações, a doença mental é entendida assim: «não acreditaste suficientemente em Deus, não tens uma fé suficiente»”. Carla Tomás garantiu que essa estigmatização “vai ser um fator maior de risco para a doença mental”. “Nós somos só humanos, por isso é normal que, numa situação de demasiadas exigências, também possamos quebrar”, concluiu.







