O clero das dioceses do sul de Portugal voltou a reunir-se entre os dias 19 e 22 deste mês em Albufeira para as jornadas de atualização.

A iniciativa, promovida pelo Instituto Superior de Teologia de Évora no Hotel Alísios sobre o tema «Inteligência Artificial (IA). Desafios emergentes de uma Sociedade Pós-Cristã. Crepúsculo ou Aurora?”, contou com a participação dos bispos, padres, diáconos e seminaristas maiores das dioceses de Algarve, Beja, Évora, mas também com sacerdotes das dioceses de Setúbal, Braga e Viana do Castelo, num total de 80 participantes.

A iniciativa contou ainda com a participação do monsenhor José António Teixeira, representante da Nunciatura Apostólica em Portugal.

As duas primeiras intervenções, nos dias 19 e 20, foram da responsabilidade do presidente da Pontifícia Academia para a Vida (Santa Sé), monsenhor Renzo Pegoraro. Na primeira conferência que teve como tema: “IA: a nova Caixa de Pandora?”, o sacerdote incardinado na Diocese de Pádua (Itália), mas também médico com especialização em Bioética, traçou um breve historial da IA, cujos princípios remontam aos anos 50 do século passado. Depois de apresentar algumas vantagens inegáveis da IA que a tornam benéfica, exortou ao seu uso em prol do bem comum, apelando ao respeito da dignidade humana.

Foto © Agência Ecclesia/OC

Na segunda intervenção, subordinada ao tema: “IA. Desafios e oportunidades para o anúncio do Evangelho”, monsenhor Pegoraro recordou, antes de mais, a defesa que o Papa Francisco fez da necessidade de uma “ética para a IA”, ou seja, “uma algorética, por oposição à algocracia, que se procura impor, de forma ideológica”.

Prosseguiu a sua intervenção, reconhecendo que para a Igreja há vantagens no uso da IA, por exemplo em âmbitos como a oração ou a doutrina, e lembrou, a este propósito, a existência de chatbots e aplicações fiáveis, insistindo, porém, no perigo da perda da relação humana, da criatividade, e no surgimento de dependências, sobretudo, em pessoas mais frágeis e manipuláveis. Destacou que, “se for bem utilizada, a IA poderá ajudar igualmente em âmbitos como a solidariedade, a construção do bem comum e a comunhão com Deus”, como “instrumento complementar, mas nunca substitutivo, da inteligência humana”.

O sacerdote apelou a uma “clara aposta” na formação do clero e dos leigos mais comprometidos, uma espécie de “alfabetização”, podendo depois abranger áreas como a universidade e a investigação, e, por fim, as empresas e a política. “Urge apostar, de igual modo, no desenvolvimento de um espírito crítico, na coragem do confronto e do diálogo, e num trabalho de cooperação holística, transversal”, concluiu.

A tarde do dia 20 de janeiro foi preenchida com um painel temático, que tocou três temas de acuidade eclesial: “Sinodalidade: Renovação pessoal, eclesial e estrutural”; “A mutação Sócio-religiosa da Europa e de Portugal. Babel ou Pentecostes?”; e “Espiritualidade Presbiteral e «espiritualidades paralelas». Complementaridade ou substituição?”.

Na primeira intervenção, o padre Manuel Barbosa, secretário da Conferência Episcopal Portuguesa que apresentou uma síntese do caminho sinodal feito em Portugal e nas três dioceses da Província Eclesiástica de Évora (Algarve, Beja e Évora), lembrou que a sinodalidade é “um caminho de renovação espiritual e de reforma estrutural, para tornar a Igreja mais participativa e missionária, isto é, para a tornar mais capaz de caminhar com cada homem e mulher irradiando a luz de Cristo”.

O professor Alfredo Teixeira, docente na Universidade Católica Portuguesa, insistiu que na Europa hodierna, o religioso já não é uma “língua comum”, mas antes se integra num “espaço intermédio”, pois, apesar de persistirem ainda sinais de pertença, há cada vez mais liberdade nas escolhas, impondo-se gradualmente um “perfil inclusivista” na aceitação da verdade dos outros. Esta realidade, segundo aquele orador, traduz-se numa “dualização” da Religião, uma espécie de “Religião Vigária”, que valoriza a universalidade da experiência religiosa, e aceita a importância da Tradição, mas não lhe reconhece o papel de tutela. “A procura de sentido, substitui o que antes se considerava a procura da salvação, e o pólo ético está hoje em tensão com o pólo religioso, pois, pode haver partilha quanto aos valores, mas sem adesão a uma fé concreta”, observou.

O padre Adelino Ascenso, missionário da Boa Nova e presidente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, traçou o perfil do que deve ser a espiritualidade presbiteral: “cristocêntrica”; “eucarística” e “pastoral” e afirmou ser forçoso concluir que, numa sociedade secularizada, se procura “substituir as religiões tradicionais por uma religião não-religiosa, o que obriga a entabular um diálogo franco e aberto com as espiritualidades emergentes, dentro e fora do Cristianismo”.

A manhã do dia 21 de janeiro iniciou-se com uma intervenção do professor Román Ángel Manrique, decano da Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia de Salamanca, subordinada ao tema “Desafios da IA à Ética Cristã.” Depois de fazer o enquadramento da IA e de situar alguns dos seus preâmbulos, que a ligam à bioética, recuou até aos anos 40 do século XX, apresentando “três problemas” que se colocam com acuidade e que tocam também a IA: “o eugenismo; a eutanásia; e a identidade do ser humano”. Aquele docente disse ser “necessária mais legislação, uma algorética, um regresso à valorização da corporeidade, a aposta numa antropologia que reconheça e afirme a unidade entre corpo e alma”, apelando ainda ao estabelecimento de “protocolos de cooperação abrangentes e transversais”.

A segunda intervenção daquele dia foi da responsabilidade do padre Peter Stilwell, sacerdote do Patriarcado de Lisboa, que refletiu sobre o tema “Diálogo Inter-religioso, Diálogo Ecuménico e Diálogo com os Homens e Mulheres de Boa Vontade. Estratégia, missão ou Evangelho?”. O sacerdote lembrou o ecumenismo como movimento iniciado no seio das grandes Igrejas Cristãs que passou também à Igreja Católica, explicando serem significativos os passos que têm vindo a ser dados, através da constituição de comissões mistas, grupos de trabalho, e da publicação de vários documentos. Destacou também as relações da Igreja Católica com o Conselho Mundial das Igrejas, que congrega 360 comunidades cristãs, com um sinal também positivo.

Quanto às religiões não-cristãs, salientou, em especial, o caminho feito com o Judaísmo. Com o Islamismo salientou, sobretudo, os passos dados nos Pontificados dos Papas Bento XVI e Francisco, referindo, em particular a importância do Documento sobre a “Fraternidade Humana”, assinado em Abu Dabhi, em 2019, com o Grande Imã da Universidade Al-Azhar, do Cairo, a mais importante autoridade do Islão Sunita.

A última intervenção desta décima nona edição da atualização das dioceses do clero do sul foi da responsabilidade do padre José Frazão Correia, sacerdote jesuíta, sob o título: “Não se pode evangelizar Portugal, sem evangelizar a Cultura. Prioridades e apostas pastorais, ou do Dever de discutir os pressupostos da relação Fé-Culturas?”.

O sacerdote insistiu na centralidade do Concílio Vaticano II, enquanto eixo de uma viragem da postura da Igreja, na forma de entender e de se relacionar com o mundo, a cultura, e as culturas. Lembrando o Papa São João XXIII, o padre José Frazão Correia destacou ser “preciso não condenar, mas conversar com o Mundo, e perscrutar nele os sinais dos tempos”.

Por fim, apresentou uma leitura sintética desta mudança de paradigma eclesial, que se reflete nas quatro constituições do Concílio Vaticano II, exortando ao sentido de uma “Igreja em saída”, ou seja, “uma Igreja que se expõe, que dá e recebe, se quiser ser significativa para os homens de hoje existencialmente concretos e culturalmente situados”.