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O cardeal Miguel Ángel Ayuso exortou o clero das dioceses do Sul do país a “promover uma educação para o diálogo para vencer o «vírus» do individualismo radical”.

O presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso (Santa Sé), orador na atualização de bispos, padres e diáconos das dioceses do Algarve, Beja e Évora, considerou que o mundo atual, “desumanizado, onde reina a cultura da indiferença e a avareza”, precisa de uma “solidariedade nova e universal” e de “um diálogo assente na fraternidade”.

“Esta nossa fragilidade como seres humanos – como a pandemia, eloquentemente, pôs em evidência – é motivo mais do que suficiente para permanecermos unidos e comprometidos, não só para afastar o coronavírus, mas também para trabalharmos para melhorar a humanidade”, sustentou no encontro realizado esta semana entre 18 e 21 de janeiro, pela primeira vez em versão online, e que teve como tema “Diálogo, opção evangélica e ponte civilizacional”.

Nesta 14ª edição do encontro promovido pelo Instituto Superior de Teologia de Évora, o colaborador do Papa apresentou três conferências sobre os temas “O diálogo inter-religioso como forma de estar duma Igreja «em saída»: os documentos sobre o diálogo inter-religioso e o Magistério do Papa Francisco”, “O desafio do diálogo com os crentes do Islão e com os crentes das outras tradições religiosas”, e “O diálogo inter-religioso ao serviço de toda a humanidade”.

D. Miguel Ángel enumerou dois “instrumentos” para que se concretize uma sociedade mais fraterna: “a benevolência, que significa a atitude de querer o bem do outro, e a solidariedade, que cuida da fragilidade e se expressa no serviço às pessoas e não às ideologias, lutando contra a pobreza e a desigualdade”.

“O Papa, o que quer é que sejamos todos irmãos e que nos encontremos numa plataforma comum, donde sobressaiam os valores religiosos, as qualidades e os valores humanos que cada um de nós tem. Encontrarmo-nos todos numa plataforma comum para cuidar da nossa casa comum, não para impor ideologias”, acrescentou, lamentando que haja ainda “muitos preconceitos em relação às pessoas pela sua raça, cor e credo”.

D. Miguel Ángel considerou que “o diálogo inter-religioso tem uma função essencial na construção da coexistência” e é “condição necessária para a paz mundial” e para uma “sociedade que inclua e que não seja edificada na cultura do descarte”.

Aquele responsável deteve-se na contextualização do panorama atual do mundo muçulmano e na explanação do trabalho mundial feito no âmbito do diálogo inter-religioso, no qual a Santa Sé participa, sublinhando a “necessidade de passar da mera tolerância à convivência fraterna”.

Nesse sentido lembrou o “documento histórico” sobre a fraternidade humana, assinado em 2019 em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), pelo Papa Francisco e pelo grande imã de Al-Aazhar, Ahmad Al-Tayyeb. “É um convite à fraternidade universal que cabe a cada homem e mulher”, afirmou, considerando ser “um documento audaz e profético porque aborda alguns dos problemas mais urgentes da atualidade”. “O Papa e o grande imã demonstraram que a promoção da cultura do encontro e o conhecimento do outro não é uma utopia, mas condição necessária para viver em paz e deixar às próximas gerações um mundo melhor”, sustentou.

O cardeal espanhol lamentou existir uma perceção religiosa incorreta de parte a parte, tanto no ocidente como no oriente, que leva a que na Europa haja “medo do Islão”. “Aqui, no ocidente, os cristãos têm uma visão errada do Islão porque confundem o Islão com quem manipula a religião islâmica, com os terroristas. Temos de fazer uma distinção muito clara entre as duas dimensões”, advertiu, explicando que “o muçulmano «normal» é um crente, através do qual se pode promover na vida quotidiana um diálogo, que é o que acontece um pouco por todo o mundo”. “Este é um diálogo de base, muitas vezes fica ofuscado por grupos terroristas que manipulam a religião e isto origina uma rejeição na sociedade em relação a tudo o que se refere ao islamismo. O mesmo ocorre no oriente”, prosseguiu, explicando que os muçulmanos não distinguem bem a Igreja Católica de algumas seitas que promovem o proselitismo e que “causam muito mal no contexto do tecido social e nas relações entre os crentes de diferentes religiões”.

“Temos de condenar todo o tipo de proselitismo e ao mesmo tempo respeitar os nossos valores. Temos de estar bem alicerçados na nossa identidade própria. Se estás bem identificado com a tua identidade, não terás problema de conhecer o outro. Se aqui no ocidente vivêssemos com seriedade a nossa própria fé, não teríamos medo, nem dos muçulmanos, nem dos radicais nem dos budistas, nem dos não crentes, nem dos ateus”, afirmou, lembrando que “ a oração, o diálogo, o respeito e a solidariedade são as únicas «armas» que podem vencer o terrorismo, o fundamentalismo e todo o tipo de guerra e violência”.

O cardeal Miguel Ángel Ayuso referiu que “no ocidente, muitos pensam serem muitos os europeus que estão a converter-se ao Islão, mas as conversões na Europa de cristãos a outras religiões são sobretudo ao Budismo”. “Há muitos grupos a promover o ioga, as meditações transcendentais que atraem muito a juventude, um pouco dececionada a nível religioso, e que se sente atraída por estas práticas”, afirmou, explicando haver “grande disponibilidade por parte dos budistas para o dialogar com a Igreja Católica”. “Há muito interesse em discutir temas sociais, sobre a paz, o ambiente, a imigração, mas também não faltam aspetos problemáticos”, desenvolveu.

O presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso explicou o que significa este trabalho. “O diálogo não é uma mesa de negociação em que discutimos para ver quem tem razão. Não se trata de demonstrar quem tem razão, mas, partindo das nossas diferenças, partilhar os valores que existem nas nossas diferentes tradições religiosas”, esclareceu, sublinhando a “necessidade de passar da mera tolerância à convivência fraterna”. “Partindo das diferenças, pomo-nos um ao lado do outro e não um em frente do outro para discutir. Partindo das riquezas das nossas tradições vemos o que podemos fazer para melhorar a vida dos seres humanos, aos quais Deus nos chamou, o que podemos fazer para melhorar as nossas relações, como podemos sanar as feridas que existem no mundo. E é aqui que podemos encontrar muitos elementos comuns”, reforçou.

D. Miguel Ángel realçou ainda o “compromisso comum com a Criação por parte de pessoas de diferentes tradições religiosas, que pode oferecer uma esperança real para o futuro da vida na Terra”. “Todos, independentemente da religião que professamos, temos a responsabilidade moral e religiosa de desenvolver uma ética do cuidado da Terra, a nossa casa comum”, sustentou, considerando o diálogo inter-religioso como “um elemento essencial” para resolver o “problema espiritual” da “crise ecológica”. “A nível inter-religioso temos de trabalhar em prol da ecologia integral”, disse, lamentando existirem “pessoas que se preocupam com a natureza, mas esquecem a pessoa que está no centro dela, o ser humano”.

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