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José Theotónio referiu que, não obstante “ninguém” ter sido despedido no Grupo Pestana durante a atual crise, não foi possível renovar o vínculo com trabalhadores que tinham contratos a termo, salvo “ligeiras exceções”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Segundo o CEO daquele grupo hoteleiro, essas “ligeiras exceções foram as pessoas que ficavam sem nenhuma fonte de rendimento”, algumas delas porque o curto período de trabalho não lhes dava ainda o direito ao subsídio de desemprego. “Foi a essas que renovámos os contratos ou prolongámo-los para que tivessem o tempo necessário para ter uma fonte de rendimento”, explicou, sem precisar quantos trabalhadores foram abrangidos pela decisão.

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O responsável do Grupo Pestana, que conta com 3300 trabalhadores (2300 em Portugal e cerca de 1000 no estrangeiro), garantiu, no entanto, que a não renovação dos contratos a termo foi “uma das medidas difíceis de tomar” e acrescentou ainda que outro critério de exceção para a renovação contratual foi “apoiar os mais frágeis”.

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José Theotónio foi o orador, no passado dia 9 de outubro, na palestra promovida pelo núcleo algarvio da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores, uma iniciativa que se realizou no âmbito do ciclo “Construir a esperança na crise” e que marcou o arranque do ano 2020/2021 no Algarve daquela organização com a presença de cerca de 50 empresários e gestores da região.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Na conferência, que teve lugar em Faro, no salão da paróquia de São Luís, o empresário disse ainda que entre março e abril deste ano, o Grupo Pestana contrataria “cerca de 1100 pessoas”, das quais “mais de 50%” no Algarve. “Decidimos na altura não haver nenhuma contratação porque não sabíamos quando é que haveria a retoma”, lamentou, lembrando ser “importante tomar as decisões difíceis”. “Muitas vezes temos de salvaguardar o todo e isso pode implicar prejudicar alguns. E temos de saber tomar essa decisão”, observou, reconhecendo que a formação cristã que teve “tem impacto nas atitudes, nos exemplos, nos juízos” e na forma como decide.

“O nosso cristianismo não pode ficar na igreja, tem de vir para o trabalho”, prosseguiu, lembrando que ser “gestor-cristão” é “ser alguém que é humano nas decisões que toma e alguém que se preocupa com os outros” e que “o líder tem de ser o servo” a “exemplo de Cristo quando lava os pés aos seus apóstolos”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Com as 100 unidades hoteleiras sem receber clientes durante abril e maio (três das quais a acolher profissionais de saúde que combatiam a pandemia e as restantes encerradas), foi ainda preciso avançar para a renegociação com fornecedores e com os senhorios, proprietários de alguns hotéis que o grupo gere. “Foi uma redução de custos importante. Conseguimos reduzir os custos que tínhamos em cerca de 50%”, afirmou, lembrando, no entanto, que a receita “regrediu muito mais”. “Durante dois meses foi 100% e hoje anda à volta dos 70/80%”, destacou, acrescentando que ainda assim os encargos mensais do grupo “são entre 8 a 10 milhões de euros”.

José Theotónio explicou que a perda de ativos se concretizou ainda devido à saída de “quadros importantes” porque “reduziram o ordenado porque foram para layoff simplificado” ou “porque deixaram de ver o turismo como atividade da moda e procuraram outras soluções”.

Aquele responsável contou também que, no início do período de confinamento, os escritórios ficaram “cheios de computadores” sem serem usados, tendo sido distribuídos pelos trabalhadores que os puderam partilhar em casa por forma a serem também usados para as aulas dos seus filhos.

José Theotónio contou ainda que foi também lançado um “programa de fornecimento de material a hospitais” e que a ação de voluntariado dos membros do grupo hoteleiro com a João 13 – Associação de Apoio e Serviços a Pessoas Carenciadas foi intensificada durante aquele período. “Não pudemos deixar os sem-abrigo”, garantiu, acrescentando que a “responsabilidade do Grupo” passou para a confeção e entrega diária de refeições. “Aquilo que era antes cerca de 40 refeições à segunda-feira, passou a ser 40 refeições diárias que rapidamente subiram para 70/80 e chegámos a ter 120 porque uma série de instituições que davam apoios deixaram de ter voluntários para poder fazê-lo”, testemunhou, explicando que o voluntariado incluiu ainda a colaboração com o Colégio Pedro Arrupe e com a paróquia de Alcântara.

O CEO do Grupo Pestana considera que esta “não é uma crise igual às outras” porque “nunca tinha havido uma crise em que o mercado desaparecesse”. “Esta é uma crise do medo. E o medo mata muito mais do que o vírus”, afirmou, acrescentando ser “preciso dar confiança” para se conseguir dela.

Nesse sentido, considera necessária uma “política europeia” diferente porque a atual diz ser “completamente errática”. “Cada país impõe as suas regras. Com esta política errática, as pessoas não ganham confiança e não se consegue ir resolvendo os problemas de uma forma coerente”, lamentou, considerando que “o turismo vai voltar”, mas que “a retoma vai ser muito gradual”. “As pessoas não vão prescindir do turismo. Precisam é de ganhar a tal confiança”, advertiu, defendendo que antes de 2024/2025 não serão atingidos os números de 2019. “Mas também não precisamos desses números porque esses foram os melhores anos de sempre. Para termos um setor rentável basta-nos ter dois terços ou 60% disso”, afirmou, lembrando que os anos de 2017 a 2019 “tinham sido os três melhores anos turísticos de sempre” e que os dois primeiros meses deste ano “prometiam que 2020 ia ser o melhor ano de sempre”.

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