Tomás Pinto Bravo defendeu no passado dia 03 de agosto, na sessão sobre D. Jerónimo Osório, que o antigo bispo do Algarve (1564-1580) “foi o nome que, antes de Camões, simbolizou na Europa o valor da inteligência portuguesa”.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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Explicando que D. Jerónimo Osório “foi traduzido para francês, inglês, holandês e alemão antes de Camões”, seu contemporâneo, o jovem historiador sustentou que o antigo bispo do Algarve “foi o autor português mais lido na Europa entre a segunda metade do século XVI e a primeira metade do século XVII”. 

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“Comprova-o o extraordinário número de edições e traduções. Desde a primeira edição do ‘De nobilitate civili et christiana’ (‘Sobre a nobreza civil e cristã’), em 1542, até ao ano de 1663, temos um total de 152 edições. Juntaram-se depois as traduções da obra sobre o reinado de D. Manuel [‘De Rebus Emmanuelis Regis’, (Sobre os feitos do rei D. Manuel’] para holandês, em 1661, e para alemão, em 1795”, observou Tomás Pinto Bravo, acrescentando que já a primeira tradução de ‘Os Lusíadas’ só aconteceu, para espanhol, em 1580; a segunda, para latim, em 1622; e a oitava, para alemão, em 1806. 

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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“Ou seja, mesmo contando com a antecedência cronológica de algumas obras de D. Jerónimo Osório, é nítido que o seu sucesso foi mais rápido que o da nossa epopeia [‘Os Lusíadas’], cuja posteridade se desenrolou mais lentamente”, concluiu na sessão, que deveria ter tido lugar na sala do trono no Seminário São José de Faro, mas por causa da forte afluência teve de ser mudada para a Sé onde se encontra sepultado o antigo bispo do Algarve. 

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Tomás Pinto Bravo evidenciou assim que a obra ‘De nobilitate civili et christiana’, que inspirou a tese do seu mestrado em História da Igreja, na Pontificia Università Gregoriana, em Roma, “teve grande sucesso editorial, publicada pela primeira vez em Lisboa em 1542”. “Teve um total de 27 edições latinas e conheceu, em vida do autor, traduções para francês e para inglês, tornando-se assim Osório o primeiro autor português traduzido para francês e o segundo autor português traduzido para inglês”, sustentou sobre a obra, cujo um dos raros primeiros exemplares, incluiu a pequena exposição patente naquela sessão, tal como um dos escassos primeiros exemplares de ‘Os Lusíadas’. 

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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O historiador explicou que esse primeiro exemplar da grande epopeia de Camões — “um dos cerca de 22 exemplares que existem no mundo” —, deixado em testamento à mitra do Algarve, fazia parte da biblioteca de D. José Maria de Melo, mentor do Seminário de São José, nascido em Lisboa em 1756 e nomeado bispo do Algarve em 1787. “Grande parte desta biblioteca perdeu-se para a Biblioteca Municipal de Faro com os assaltos da implantação da República em 1910”, acrescentou. 

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O historiador, natural de Tavira, referiu ainda que ‘Os Lusíadas’ “foram impressos em Lisboa na tipografia de António Gonçalves em 1572”. “Nessa tipografia saiu no mesmo ano a obra de D. Jerónimo Osório sobre o reinado de D. Manuel. Pensar que o manuscrito da obra maior da nossa língua esteve ao lado do manuscrito do ‘De Rebus Emmanuelis Regis’ de D. Jerónimo Osório, que papéis autógrafos de Camões e de D. Jerónimo Osório estiveram à mesma mesa, é algo de extraordinário que nos abre as janelas da imaginação e da alegria”, referiu.

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Tomás Pinto Bravo destacou ainda que a primeira edição de ‘Os Lusíadas’ está “intimamente ligada ao exemplar da primeira edição de D. Jerónimo Osório que o Cabido adquiriu”. “O De Regis Institutione et Disciplina’ [‘Da Ensinança e Educação do Rei’] que o Cabido do Algarve adquiriu, apesar de impresso no mesmo ano, mas noutra tipografia de Lisboa, foi impresso com licença do mesmo censor da inquisição de ‘Os Lusíadas’: Frei Bartolomeu Ferreira. Posto isto, é lícito a pergunta: o que terá pensado o dominicano Frei Bartolomeu Ferreira naquele ano de 1572 quando se dedica à leitura atenta de duas obras tão geniais, irmanadas pelo mesmo amor a Portugal, por um mesmo espírito crítico da situação política nacional, por uma idêntica emulação dos motivos da antiguidade Certamente terá ficado cheio de orgulho e satisfação, pois não se atreveu a censurar linha alguma, mas antes elogiou-as nos respetivos pareceres”, realçou.

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O investigador tavirense considerou assim D. Jerónimo Osório, que frequentou três grandes universidades da época — Salamanca, Paris e Bolonha — “uma das figuras mais poliédricas e de maior projeção internacional de todas as que ao Algarve já estiveram ligadas por contingência das suas biografias”. 

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Tomás Pinto Bravo referiu ainda que os temas sobre os quais se debruçou o bispo humanista, “apesar de revestidos em traje antigo, são temas universais”. “D. Jerónimo Osório procurou, acima de tudo, uma união do humanismo com a Teologia. Quer isto dizer: procurou escrever sobre temas difíceis numa linguagem elegante e clara, sempre citando aqui e ali os velhos gregos e romanos, usando a beleza literária para defender e divulgar aos espíritos cultos da Europa a ortodoxia católica no contexto pós Concílio de Trento”, completou. 

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Considerando D. Jerónimo Osório, “senhor de grande experiência europeia e de vasta cultura literária e teológica”, “um autor que requer estudo e inspira respeito”, alertou ainda que “há ainda muito trabalho a ser desenvolvido”.

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A sessão sobre o antigo bispo do Algarve contou ainda com a apresentação do livro de Tomás Pinto Bravo “D. Jerónimo Osório e a teoria da nobreza”, resultante da sua dissertação de mestrado e editado pela Arandis Editora, que o autor fez questão de autografar a quem o pediu, e com a apresentação do exemplar da primeira edição da obra ‘De Regis Institutione et Disciplina’, adquirido recentemente pelo Cabido da Sé de Faro.

Licenciado em História pela Universidade Nova de Lisboa e mestre pela Pontificia Università Gregoriana, Tomás Pinto Bravo encontra-se a frequentar, como bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, o doutoramento em Filologia e História da Antiguidade na Università degli Studi di Roma La Sapienza.

Coordenou a obra Vultos Tavirenses Dignos de Memória, publicada em 2021, pelas Edições Colibri que reúne 18 biografias de tavirenses destacados na história desde a Idade Média ao século XX, com a participação de 16 autores. Editou também uma antologia de correspondência de Serpa Pinto, intitulada Relações e Confidências das Exposições de Serpa Pinto, publicada em 2022 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

O historiador acaba de vencer o primeiro lugar do Prémio Estudar Camões, instituído pela estrutura de missão das Comemorações para o Quinto Centenário de Luís Vaz de Camões, para jovens investigadores até aos 35 anos, com um trabalho de investigação sobre as fontes do soneto «Transforma-se o amador na cousa amada».

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