O historiador tavirense Tomás Pinto Bravo referiu no passado dia 03 deste mês que “o testemunho mais tangível da ação de D. Jerónimo Osório foi, porventura, a mudança da sede da diocese de Silves para Faro, processo que já se arrastava desde o reinado de D. João III” e que o bispo do Algarve entre 1564 e 1580 “teve a coragem de concretizar, enfrentando o Cabido que estava instalado em Silves com altas rendas e outros interesses económicos”.

Na sessão sobre o bispo diocesano, que teve lugar na Sé de Faro, aquele jovem investigador disse revestir-se de “particular significado o facto de D. Jerónimo Osório ter sido o primeiro bispo a intitular-se oficialmente bispo do Algarve, e não – simplesmente ou apenas – como poderia ter feito, bispo de Faro”.
“Jerónimo Osório assinou sempre, quer nos documentos, quer nas obras que publicou, bispo do Algarve. Sob este aspeto, é de realçar que já os bispos de Silves, na Idade Média, eram oficiosamente chamados bispos do Algarve. Quer isto dizer, com efeito, que D. Jerónimo Osório conhecia essa tradição e que a soube assimilar e promover oficialmente, a bem da união e da identidade do território”, explicou, considerando que “com o título de bispo do Algarve, seguramente suprimia o desgosto dos que nunca queriam que a Sé tivesse deixado Silves, ou daqueles que tinham defendido Lagos ou Tavira como alternativas melhores que Faro”.
Tomás Pinto Bravo contou ainda que “no relatório da primeira visita ad limina de um bispo do Algarve conservado no Arquivo do Vaticano”, “D. Francisco Cano (1591) dirige-se ao Papa como «Episcopus Algarbiensis» e começa por explicar toda a história do episcopado que governa, primeiro em Ossónoba no tempo dos romanos e visigodos, depois em Silves, após a Reconquista, e, por fim, em Faro”.

“Igualmente na documentação canónica do século XVI, ocorrem as duas formas de identificação da diocese: ora «Algarbiensis», ora «Pharoensis» ou «Pharaonensis». Com efeito, se ao longo dos séculos tem prevalecido a forte identificação, única no país e rara no mundo, da diocese ao nome da região e não só ao nome da cidade, esse facto deve-se a D. Jerónimo Osório. Trata-se, pois, de um legado vivo de D. Jerónimo Osório”, evidenciou o historiador.
Embora realce que da ação pastoral daquele bispo do Algarve pouco dizem as fontes, que disse serem essencialmente duas — o testemunho do seu sobrinho na vida que lhe escreveu e algumas cartas —, Tomás Pinto Bravo destacou ainda assim que o trabalho descrito por ambas “é sobretudo de âmbito social”. “Mandou construir celeiros para os lavradores, protestou à coroa a pesada carga fiscal a que os pescadores de atum estavam obrigados, favoreceu as obras de caridade, fundou escolas primárias, apoiou a música nas igrejas e deu bolsas aos mais dotados para estudos em Salamanca”, enumerou.

A sessão sobre o antigo bispo do Algarve contou ainda com a apresentação do livro de Tomás Pinto Bravo “D. Jerónimo Osório e a teoria da nobreza”, resultante da sua dissertação de mestrado e editado pela Arandis Editora, e com a apresentação do exemplar da primeira edição da obra ‘De Regis Institutione et Disciplina’, adquirido recentemente pelo Cabido da Sé de Faro.
Licenciado em História pela Universidade Nova de Lisboa e mestre pela Pontificia Università Gregoriana, Tomás Pinto Bravo encontra-se a frequentar, como bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, o doutoramento em Filologia e História da Antiguidade na Università degli Studi di Roma La Sapienza.










