A inteligência artificial (IA) deve estar ao serviço da pessoa humana e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, sem comprometer a dignidade, a liberdade e as relações humanas. Esta foi uma das principais ideias deixadas por D. Roberto Mariz, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e bispo auxiliar do Porto, na conferência sobre a primeira carta encíclica do Papa Leão XIV, intitulada Magnifica humanitas (Humanidade Magnífica), dedicada à proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial.

A iniciativa, promovida pela Cáritas Diocesana do Algarve sob o tema “Magnifica humanitas. A dignidade humana permanece, a tecnologia muda”, teve ontem lugar, 29 de outubro, no Seminário de São José, em Faro, e contou com a participação do bispo do Algarve, D. Vitorino Soares, e de mais 81 pessoas.
Na sua intervenção, D. Roberto Mariz apresentou o documento pontifício como um contributo importante para a reflexão da Igreja e da sociedade sobre uma realidade tecnológica que está a transformar profundamente a vida humana. Na sua perspetiva, a publicação da encíclica representa a abertura de um caminho de reflexão que “não mais será fechado”, estabelecendo uma ligação entre os desafios contemporâneos e a tradição da doutrina social da Igreja.

O responsável enquadrou a escolha do nome Leão XIV na referência ao Papa Leão XIII e à encíclica Rerum Novarum, publicada num contexto de profundas transformações provocadas pela revolução industrial. Tal como naquela época a Igreja procurou refletir sobre as novas realidades do trabalho e a dignidade dos trabalhadores, considera que o atual pontificado procura oferecer critérios de discernimento perante as transformações introduzidas pela inteligência artificial.
“A dignidade da pessoa permanece”, sublinhou, contrapondo a permanência deste princípio à evolução constante da tecnologia. Por isso, considerou necessário que a sociedade reflita sobre a forma como esta ferramenta pode contribuir para o bem da humanidade, em vez de se tornar um fator de desumanização.
D. Roberto Mariz chamou a atenção para a ambivalência da inteligência artificial, que pode ser utilizada para o bem ou para o mal. Reconhecendo as suas potencialidades, nomeadamente na melhoria das condições de vida e no desenvolvimento humano, alertou para os riscos de uma tecnologia que não é neutra, uma vez que os seus resultados dependem também das intenções e dos critérios de quem a concebe e programa.

Neste contexto, considerou particularmente importante distinguir a capacidade de processamento de informação da verdadeira inteligência humana. “Hoje quando falamos em inteligência artificial é uma inteligência sem cérebro. Que o nosso cérebro não se perca”, afirmou.
O conferencista destacou que os sistemas de inteligência artificial podem superar a capacidade humana em velocidade e amplitude de cálculo, mas não possuem experiência corporal, afetiva, relacional ou espiritual. Não conhecem a alegria, a dor, o amor, a amizade, a responsabilidade, a compaixão ou o perdão, nem dispõem de consciência moral para discernir o bem e o mal.
Por isso, advertiu para o risco de se atribuir às máquinas uma capacidade de compreensão e decisão que não possuem, sobretudo quando são utilizadas em processos que afetam diretamente a vida das pessoas. Deu como exemplo a seleção de candidatos a empregos através de algoritmos, que podem reproduzir preconceitos e gerar injustiças sob uma aparência de neutralidade e objetividade.
A verdade, o trabalho e a liberdade foram identificados como três dimensões fundamentais abordadas na encíclica. Quanto à verdade, alertou para a capacidade da inteligência artificial de produzir conteúdos falsos com aparência de autenticidade, incluindo imagens, vozes e declarações atribuídas a pessoas que nunca as proferiram. No domínio do trabalho, reconheceu as possibilidades de melhoria e de libertação de tarefas, mas considerou indispensável acompanhar a transformação tecnológica com medidas de proteção do emprego, requalificação profissional e participação dos trabalhadores.
Já relativamente à liberdade, chamou a atenção para a influência dos sistemas automatizados sobre a informação que chega às pessoas e, consequentemente, sobre a sua capacidade de pensar e decidir autonomamente.
O bispo auxiliar do Porto defendeu, por isso, a necessidade de transparência, clareza e responsabilização em todas as fases do desenvolvimento e utilização da inteligência artificial, considerando urgente a criação de mecanismos legislativos e reguladores que protejam as pessoas. Na sua perspetiva, a autorregulação das empresas tecnológicas, por si só, não oferece garantias suficientes de que os interesses humanos serão salvaguardados.
A intervenção abordou igualmente os perigos da utilização da inteligência artificial em contexto de guerra, nomeadamente através de sistemas capazes de selecionar autonomamente alvos, alertando para a necessidade de promover a paz, proteger os civis e revitalizar o diálogo e o multilateralismo.

Na parte final, D. Roberto Mariz relacionou a reflexão sobre a tecnologia com a missão cristã de construir uma humanidade mais humana. Considerou que o desafio não consiste em ultrapassar as limitações próprias da condição humana, mas em crescer no amor e na capacidade de cuidar dos outros.
“Nós devemos ser mais humanos e melhores humanos”, afirmou, defendendo que essa transformação não se alcança através de uma maior capacidade de cálculo, mas através da capacidade de amar mais e melhor.
A partir desta perspetiva, destacou ainda a importância de reconhecer outras dimensões da inteligência humana, para além da cognitiva, nomeadamente a inteligência coletiva, espiritual, afetiva e relacional, da fragilidade e da compaixão.
Concluindo, considerou que a inteligência artificial pode ser “uma ferramenta que nos pode humanizar e facilitar a existência humana neste planeta ou demonizar-nos, desumanizando-nos”. Para que prevaleça a primeira possibilidade, defendeu que a pessoa deve permanecer no centro de todas as decisões e que a tecnologia deve ser entendida como “servo e não senhor”, ao serviço de todos e sem manipulação.







