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Da bola e suas histórias

Padre Miguel Neto

Há muito que não escrevo nem falo sobre futebol. Quem me conhece bem sabe que é um tema que me distrai das preocupações quotidianas e que me faz vibrar. Sou olhanense e o clube da minha terra ocupa um lugar especial no meu coração, tal como o Futebol Clube do Porto, coisa que nunca escondo e que surpreende muitos algarvios, que não entendem esta inclinação clubística num homem do Sul.

A paixão pelo futebol levou-me, mesmo, a comentar o tema num programa da Sport TV, chamado “O Último Terço”, onde com outros dois colegas sacerdotes – um benfiquista e outro sportinguista – debatíamos o que acontecia no campeonato nacional e em grandes jogos internacionais, que envolviam os clubes portugueses.

Foi uma experiência muito positiva e que me fez perspetivar, de forma mais lúcida, tudo aquilo que diz respeito a esta modalidade desportiva. Sobretudo, fez-me refletir sobre os comentários e comentadores, papel que eu mesmo tive de assumir.

Na verdade, depois de cada jornada, de cada jogo, os canais de televisão e de rádio enchem-se de árbitros, adeptos, dirigentes, todos empolgados e de ânimos acesos para discutir as jogadas, as decisões, os resultados das equipas ou a falta deles. Muito se diz, às vezes de forma cuidada e correta, outras com tudo menos educação e respeito. Apresenta-se esta modalidade, em variadas situações, pela forma como se comenta, apenas como um jogo de interesses, uma oportunidade para conluios e conspirações, uma charada, se assim podemos dizer, onde a verdade desportiva, resultante do confronto de jogadores capazes e de treinadores tecnicamente hábeis nada interessa nem parece produzir resultados. O espírito desportivo, esse que tanto se defende e se deseja, parece não ter qualquer relevância no que ao futebol diz respeito. Pelo menos, na boca dos comentadores. E são horas e horas esquecidas de televisão e de sabedoria inflamada, que rendem milhares em publicidade, porque, sim, têm audiências elevadas. E acabadas as mesmas, todos parecem continuar amigos, gerindo uma paz estranha e podre, onde todos se insultam, mas sorriem cinicamente no fim de cada tirada, na conclusão de cada emissão. E esta imagem perpetua-se nas atitudes dos dirigentes e treinadores, que também se agridem verbalmente, sem qualquer pejo.

CANSA! É esse o sentimento que tenho. Apesar de ter estado do lado de lá, via nos outros que comigo comentavam e em mim próprio, uma preocupação em deixar algo de positivo e quase que, atrevo-me a dizer, de pedagógico aos telespetadores de modo a que pudessem ver o desporto como uma forma de cultivar o corpo, mas também a sociabilidade e o espírito de partilha, bem como o respeito pelas diferenças. Sou amigo de todos os que, sendo adeptos de clubes diferentes, comentaram comigo futebol. Sou amigo, porque entendo e respeito e valorizo a capacidade de entrega e paixão de um adepto que genuinamente defende as cores da sua equipa e quer que ela ganhe. É um sentimento válido. Só deixa de o ser se servir para agredir, para ferir a dignidade do outro, para o diminuir e infelizmente é muito isso que se vê nos comentários.

Na maioria das vezes, para compreendermos bem as situações que nos rodeiam, precisamos de duas coisas: palavras sábias e silêncio. É o que falta e é o que se deseja, para que a bola e as suas histórias sejam boas de contar, em qualquer roda de amigos, sejam da televisão ou nas nossas casas.

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