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Deficiência: Jornadas da Diocese do Algarve refletiram sobre família, educação e saúde

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

No sábado, as V Jornadas Diocesanas do Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência (SPPD), promovidas pela Diocese do Algarve através do seu SPPD, ficaram marcadas por duas mesas abertas que evidenciaram precisamente a importância do acolhimento da deficiência (pelos outros e pelos próprios portadores) também nas áreas da família, da educação e da saúde.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Na primeira, explicitou-se que “a visão da deficiência mudou muito através do contributo das várias áreas e também da própria sociedade que se tornou mais recetiva, mais acolhedora e mais competente”.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Cristina Ramos, professora do ensino especial do primeiro ciclo, constatou essa mesma mudança, lembrando que “ao longo dos anos a educação especial sofreu grandes alterações”. “Passámos da fase em que se escondia os meninos em casa, para a fase em que os meninos com necessidades especiais estavam isolados, até à fase que temos atualmente em que estas crianças aprendem todas juntas na escola”, identificou, considerando que este “não foi um processo fácil e está longe de ser o ideal”. Neste sentido, lembrou que “a legislação que rege a educação especial está para mudar”.

Aquela educadora lamentou a “falta de recursos” e a “falta de caminhos para estes jovens e adultos”, evidenciando que a importância da articulação com a família de uma criança com necessidades educativas especiais. “As relações que se estabelecem são muito mais fortes do que com outras famílias e com outras crianças”, testemunhou.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Raquel Medeiros, psicóloga clínica no Centro de Desenvolvimento Infantil do Hospital de Faro, disse que a aceitação é o “primeiro” e também o “maior desafio” para os profissionais de saúde. “Para muitos pais, a palavra deficiência é absolutamente proibitiva e assustadora”, lamentou aquela terapeuta familiar, considerando que “colaborar neste processo de aceitação é aquilo que à psicologia mais é pedido”. “É, sem dúvida, fundamental, mas não deixa de ser efetivamente muito difícil”, constatou.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Sílvia Manhita, catequista, confirmou haver “cada vez mais” crianças com necessidades especiais a frequentar a catequese. “Não estamos minimamente preparados para lidar com meninos diferentes”, reconheceu, considerando que as formações dos catequistas “não preparam para esta realidade”. “Temos de saber adaptar a catequese àquelas crianças”, disse, acrescentando que os grupos se adaptam “muito bem”. “As nossas crianças acolhem muito bem os meninos que são diferentes, basta que estejamos abertos a que isso aconteça. Eles próprios ajudam-se uns aos outros a superar as dificuldades”, testemunhou, garantindo no seu testemunho emocionado que “difícil é, às vezes, lidar com as emoções”. “Temos a graça de ter estas pessoas connosco que nos tem ajudado espiritualmente e como seres humanos”, concluiu.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Na segunda mesa da jornada, Paula Ferrinho do Sector da Pastoral Familiar da Diocese do Algarve, destacou que a família é um “palco privilegiado de convivência da diferença” e “da partilha dos afetos” e, “por isso, torna-se um espelho do amor de Deus”. Aquela professora de educação especial do 2º e 3º ciclos disse que encontrou na escola “um mundo de problemas, de limitações das famílias, de obstáculos logísticos e processuais difíceis de contornar, de pais que lutam com muitas dificuldades para a integração dos seus filhos, com um sistema que tem para oferecer uma mão cheia de nada”.

“Percebi que tinha que me centrar nos afetos, na relação interpessoal, no acolhimento que se fazia a estes meninos. A ternura tinha que ser a chave”, contou aquela educadora, sublinhando a importância de passar aquele conhecimento aos seus filhos. “Devemos ter essa noção profunda que esta aceitação [da diferença] nos torna pessoas melhores, mais simples, com uma humildade que nos humaniza”, concluiu.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Alice Caldeira Cabral, que pertence ao Movimento Fé e Luz e também teve um filho portador de deficiência profunda, assegurou que “a procura espiritual é absolutamente essencial”. “O acolhimento da comunidade que está à nossa volta, nomeadamente da Igreja, é uma ajuda preciosa”, disse, acrescentando que “é preciso ir ao encontro, é preciso o afeto, é preciso acolher estas famílias”. “Precisam de se sentir escutadas e valorizadas, de ouvir que lhes gritemos baixinho a boa nova de Jesus”, complementou, acrescentando que “as famílias precisam de saber lidar com a complexidade, com a culpa, com os porquês, com o isolamento e a exaustão física”. “As igrejas precisam de descobrir que estas pessoas têm um contributo precioso a dar como afirma o Movimento Fé e Luz. Precisamos tanto que as igrejas estejam próximas das pessoas que se sentem fragilizados e se questionam sobre os sentidos das suas vidas, os porquês da diferença da vida e da morte”, prosseguiu.

Caldeira Cabral explicou que o Movimento Fé e Luz oferece ao portador de deficiência a possibilidade de ser reconhecido como “pessoa de pleno direito”, de “exercer os seus dons e de descobrir a alegria da amizade”. “Através do trabalho em pequenos grupos, a comunidade oferece uma oportunidade de participação ativa” e “traz para cada um dos seus membros um alargamento efetivo da rede de relações”, explicou, acrescentando que “as pessoas com deficiência intelectual têm um papel essencial na comunidade humana, na sociedade e nas igrejas e para poderem exercer os seus dons têm que estar integradas e ter ocasião de participar, de dar e receber”. Aquela responsável deixou o desafio a que o movimento possa implantar-se também no Algarve.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Edite Azinheira, professora de Educação Moral e Religiosa Católica que também trabalha no ensino especial, testemunhou que também “o trabalho da aula tem de ser uma coisa muito adaptada”.

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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Ricardo Martins, cego, desafiou a que a deficiência possa ser aceite “como uma bênção”. “Deus quis que eu fosse assim. Eu não me revolto, mas agradeço porque ele deu-me a música e o dom de escrever. Eu pus os meus dons a render. Deus perdeu muito tempo comigo porque me fez ultrapassar tudo isto para que eu possa estar aqui, orgulhosamente cego, com os olhos da carne fechados, mas com os do Espírito muito abertos”, afirmou.

Aquele membro do SPPD da diocese algarvia também reclamou mais oportunidades para os portadores de deficiência. “O deficiente não é ávido de caridade. Ele é ávido de oportunidade, de lhe mostrarem que também pode fazer, de mostrar os seus dons e aquilo que realmente é capaz, de mostrar a chama que Deus nele colocou”, afirmou, lembrando que a aceitação da diferença também cabe a quem a tem. “Eu, deficiente, já recebi um filho que não é deficiente. Também nós temos que aprender a lidar com a diferença porque a mãe é cega e eu também”, explicou.

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