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O JOVEM REI teve o Algarve como destino às cidades e fortalezas em Marrocos, sob domínio português; sempre, nessa preocupação de defesas e conquistas, enquanto em Lisboa e mais Madrid, os dois remos discutiam os interesses do futuro casamento do jovem Sebastião, como imperativo da sucessão; se bem que o jovem rei mandasse recados a sua mãe (D. Joana de Áustria), que o abandonou a poucos meses do seu nascimento, por motivos de Estado. Mas foi seu tio, Filipe II de Espanha e sua avó (D. Catarina da Áustria) quem discutiam as condições políticas do matrimónio de Sebastião com a irmã do rei de França, Margarida de Valois, ou a filha do Maximiliano II, da Boémia. Até, que Sebastião rompe com os negociantes e toma a decisão de se casar com sua prima, Isabel Clara Eugénia, filha de Filipe II de Espanha.

O espírito guerreiro do jovem rei de Portugal, dando ouvidos dos declamadores da prosopopeia do império, que vinham de Diogo de Teive a Diogo Bernardes, em que este último incitava: E mil bandeiras vossas arvoradas / em mil torres vereis e, muito mais / a quem vos resistir, vereis tomadas / a victória vos chama, que esperais?.

Já o farense, que fora vice-rei da Índia, Francisco Barreto, abalara com uma esquadra portuguesa em apoio à coroa espanhola. Já D. João III desistira de conquistar mas sim assegurar o que se havia conquistado: salvar as cidades marroquinas para poder manter as suas possessões do Oriente e o comércio e especiarias, colonizar o Brasil. Os tempos haviam mudado…

Sebastião nesse empurrar para o abismo não escuta as vozes da razão e do tempo, como o bispo do Algarve, D. Jerónimo Osório não se cansa de alertar, em cartas escritas ora de Portimão, ora de Silves, ora de Faro, ora de Tavira, em defesa do reino e segurança da coroa.(1). Mas o jovem decidido e resoluto embarca para o fim das incertezas e perde-se em Alcácer-Quibir, nessas trafulhas entre os Xerifes rivais, Abde Alquerine e o seu rival Mulei Mohâmede… e tantas cumplicidades familiares e de interesses ibéricos!

Peguemos no documento histórico do rescaldo da batalha: Naquele entardecer do trágico dia 4 de agosto de 1578, na altura em que os guerreiros ainda iam caminhando para a escravidão, e das encostas vizinhas já vinham descendo os alarves para o saque, o assassínio e a rapina, milhares de homens de todas as raças: portugueses, espanhóis flamengos, suíços, alemães, italianos, a par de árabes, turcos e berberes, jaziam por toda a parte entre armas e destroços e milhares de cavalos, mortos ou estropiados (2).

Foi na presença deste quadro que se pretendeu fazer o reconhecimento do cadáver do infortunado e jovem rei de Portugal. Sebastião de Resende, o moço camareiro de D. Sebastião aponta para um corpo nu, rosto desfeito, que afirma Este é o meu rei. Ainda D. Duarte de Menezes e D. Constantino de Bragança são chamados perante o novo rei de Marrocos para a confirmação de que aquele corpo irreconhecível era o de Sebastião de Portugal. Logo Muley Hamet fornece uma mula para carregar o corpo do falecido a caminho, primeiro de Tânger, depois para Ceuta. O historiador Manuel pinheiro Chagas afirma: A verdade é que ninguém pode dizer qual fora o trágico fim de D. Sebastião. Apareceu um cadáver que se disse ser del-Rei D. Sebastião, mas se o era, tão desfigurado estava, que ninguém afoitadamente podia dizer que o reconhecera. (3).

Passados alguns anos, já era rei de Portugal Filipe II. Já corria pela Europa que D. Sebastião se encontrava em Veneza e outros hão de surgir nessa vontade de ser D. Sebastião. Filipe II encarregava-se de os mandar aniquilar. Até que o novo rei peninsular, mande vir de Ceuta o corpo que aí aguardava trasladação. E é agora que Faro entra de novo na história de D. Sebastião, no funeral régio e oficial.

"A 7 de Novembro de 1582, chega a Faro a esquadra comandada pelo duque de Medina Sidónia, com quatro galeras da Sicília. Acompanharam o féretro da catedral de Ceuta a até Faro, os bispos do Algarve, D. Afonso Castelo Branco e de Ceuta, D. Manuel Seabra, juntando-se o corregedor Belchior Amaral. O historiador espanhol Alfonso Danvila narra o acontecimento: Un pequeño féretro cerradoy revestido con brocado de oro, con su clavazón menuda dorada, cubierto con un pãnode otra tela más rica. (4).

Depois o féretro atravessou todo o Sul de Portugal para que o reino visse que ali ia o rei morto D. Sebastião. Em Lisboa o caixão ficou depositado, até que D. Pedro II mande erguer um túmulo em mármore e lhe mande por a inscrição: "Guarda-se neste túmulo (se é verdade o que se diz) Sebastião, a quem a morte prematura levou nas plagas da Líbia".

1) "Cartas de D. Jerónimo Osório – Edição C.M.S. – 1995
2) "Dom Sebastião" – António Belarda d Fonseca
3) "História de Portugal" – Manuel Pinheiro Chagas
4) "Filipe II y El-Rey Don Sebastian de Portugal" – Alfonso Danvila

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