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DOM. SEBASTIÃO esteve em Faro a 30 de Janeiro de 1573. Veio percorrendo o pequeno reino do Algarve e, consequentemente, a cidade de Faro, pertença de sua avó, Dona. Catarina, viúva de D. João III.

O Moço Rei, como ficou conhecido pela circunstância lendária do seu desaparecimento, foi uma dúvida que ainda apaixona os cronistas do tempo moderno. Rei dos mais discutidos da nossa história. Tido como um louco, exaltado por outros como um herói, o certo é que ainda hoje restam dúvidas sobre o seu desaparecimento…

Mas vamos esperar o jovem rei à sua real chegada a nóvel cidade de Faro, que seu avô, João III, haveria de lhe repor a cidadania perdida em 1249, com a conquista aos Árabes, a 7 de Setembro de 1540.

Chega D. Sebastião com 19 anos à amada cidade de Faron (nascera à meia-noite de 19 para 20 de Janeiro de 1554, dia do mártir S. Sebastião), dez dias depois do seu aniversário. Vem acompanhado de um Staff importante em figuras da nobreza que andavam com simpatias pelo Filipe II de Espanha; também acompanhava o séquito real, o cronista (a que podemos considerar, hoje, como serviço de imprensa da casa real), João Gascão, que nos deixou a descrição da visita do jovem rei e restantes membros da corte.

Então, como conta Gascão, o rei, apesar do seu convívio íntimo com a nobreza, não se enfastiava dos povos e lugares onde se aboletava. E nessa circunstância, quando chega a Faro, ao Rossio (hoje Jardim Manuel Bivar), frente ao mar, com os seus 1800 homens de armas. Jovem como era, apesar da sua educação profundamente jesuítica, teremos que colocar o jovem monarca no seu espaço e tempo de apogeu renascentista, em que a Europa em expansão, irradiava em torno das artes as atenções do bom gosto, da harmonia, nas emoções próprias de um jovem, mesmo rei. D. Sebastião, para além da educação própria e consistente que lhe era imposta como figura real, não deixaria de apreciar toda a exaltação de alegria do povo, em cantares e movimentos de corpos. Lá está o cronista Gascão para nos informar que vieram trombetas, atabales e chamarelas esperar o rei: Toda a gente a cavalo, e as companhias que fizeram salvas de arcabuzaria, o que também fez a fortaleza da cidade (…) num terreiro grande e formoso, estando tão povoado desta e doutra gente que raramente se podia romper, o que durou um grande espaço. (1)

Houve tourada, até então proibida, considerada como manifestação popular grotesca peninsular, pelo papa Gregório XIII. É então que o jovem D. Sebastião pede a Roma a sua suspensão. Permitida, mas com limitações. E Faro também teve a sua tourada; teve as suas danças de escravos africanos, com as chamadas amazonas femininas que tão graciosamente enfeitavam o cortejo. Rui Barreto, capitão e Alcaide-Mor da cidade, fez o discurso de boas-vindas e de circunstância ao Moço Rei: Muito alto e muito poderoso Rey e Senhor Nosso. A cidade da Rainha vossa avó dá infinitas graças ao Sumo Principe e Cristo Nosso Criador, e a Vossa Alteza por tão grande mercê e honra como recebe hoje com sua alegre vinda., etc, etc,. O Alcaide e os Vereadores da cidade pedem ao rei que fique por mais uns dias. Apesar de Sebastião reconhecer a fartura da cidade, rejeitou o convite, não deixando de visitar o Convento que sua avó mandou acabar, visitar a Atalaia (Santo António do Alto), zarpar Ria a dentro e assistir, pela madrugada do dia seguinte, depois de uma noite de folguedo e de iluminuras no Rossio, e abalar para Tavira.

O rei veio ao Algarve, sabemos, preparar a guerra que seria alcunhada de guerra dos três reis, no campo do Alcácer-Quibir. Lá iremos no próximo número para que se justifique o título.

1) "Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve por D. Sebastião – Janeiro/Fevereiro de 1573" – João Gascão

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