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EDITORIAL

A Crise Familiar – I

As famílias estão a viver uma tragédia que resulta do atual modelo de organização da sociedade e que atinge, com maior prejuízo, aqueles que são os seus membros mais vulneráveis: as crianças e os idosos.

Procurando sobreviver, a maioria trabalha para pagar contas, impostos e contribuições e cumprir os encargos que a vida contemporânea (e concretamente a constituição de família) impõe. Há também muitas famílias que trabalham para pagar contas para manter um estilo de vida materialista em que o ter se sobrepõe em larga escala ao ser, sendo que, na esmagadora maioria dos casos, as pessoas nem têm tempo para usufruir dos bens que possuem.

Contudo, esta problemática não é exclusiva da Família, uma vez que andamos todos a viver de modo que não aquele para o qual fomos projetados e que, por isso, não encaixa com a nossa génese.

O Homem, escravo da economia 

Para percebermos o que condiciona esta realidade, que se complica de ano para ano, importa lançar um olhar sobre o contexto em que vivemos. Apesar de muito pouco consistente por assentar em pilares que começam a ficar interiormente corroídos, a economia condiciona hoje todas as dimensões da vivência humana e o homem, obcecado por ela, passou a estar completamente subjugado ao seu serviço.

O crescimento económico está associado sempre ao aumento do consumo e este é tido como o principal indicador para medir o crescimento da economia. Existe então uma obsessão do sistema económico com o consumo muito pressionado por sectores do mercado como a moda ou a tecnologia. A pressão para o consumo está presente e condiciona, na prática, a vida das pessoas. Como exemplo disso veja-se a diminuição da vida útil de aparelhos como os electrodomésticos ou a vertigem da actualização tecnológica para obrigar ao consumo.

Este modelo económico atinge também os resultados a que se propõe porque aproveita a obsessão dos pais contemporâneos de que os filhos têm de ter e vivenciar tudo o que eles sonharam ter e vivenciar mas nunca puderam.

Desde há muito que as políticas passaram a estar também ao serviço da economia, empurrando as famílias para o consumismo e, consequentemente, para o endividamento, sendo que, em certa medida, as famílias não souberam resistir e deixaram-se empurrar. Basta lembrar que a palavra de ordem dos bancos agora é poupança mas até há muito pouco tempo foi crédito. Isto aconteceu com a conivência dos governos nacionais e de instâncias europeias e mundiais que não agiram em tempo útil, escudando-se sempre no argumento de não poderem intrometer-se na soberania de Estados democráticos.

Antigamente a indústria financeira ganhava dinheiro emprestando com juros altos. Hoje, aquela indústria explora as diferenças.

Por outro lado, antigamente a indústria financeira ganhava dinheiro emprestando com juros altos. Hoje, aquela indústria explora as diferenças. As variações dos mercados geram riqueza e a incerteza permanente é a forma de garantir que essas variações se perpetuam.

Os trabalhadores são um custo operacional deste modelo de economia. O objectivo é, portanto, reduzir ao máximo esse custo, maximizando a receita, o lucro. Com o desenvolvimento da tecnologia, grande parte das tarefas passa para as automatizações ou para os consumidores finais, os clientes, reduzindo-se assim a mão-de-obra e os encargos a ela associados.

Procede-se assim à redução dos encargos salariais com recurso ao despedimento ou por via das aposentações antecipadas dos trabalhadores, impondo aos poucos que ficam o cumprimento da acrescida carga laboral sob a ameaça de uma crescente realidade de desempregados a mendigar uma qualquer oportunidade de trabalho. Grande parte da operacionalidade e funcionalidade das empresas e serviços está assim “presa por arames”, a viver uma realidade de enorme precariedade, pois basta faltar um trabalhador para os serviços ficarem seriamente comprometidos.

Neste contexto, os filhos são vistos também como empecilhos a uma maior disponibilidade dos trabalhadores para o aumento da produtividade laboral.

Na sociedade do futuro (ou, se calhar, já na do presente), tudo o que não der lucro – com risco extensivo aos chamados serviços públicos e apoios sociais –, estará condenado ao desaparecimento.

Na sociedade do futuro (ou, se calhar, já na do presente), tudo o que não der lucro – com risco extensivo aos chamados serviços públicos e apoios sociais –, estará condenado ao desaparecimento. Com o endividamento crescente, os Estados continuarão a reduzir a sua despesa à custa da diminuição dos serviços e apoios sociais, vulnerabilizando populações, sendo os idosos e as crianças os principais atingidos.

Por outro lado, os lucros das empresas não são, na esmagadora maioria dos casos, repartidos pelos trabalhadores que ajudam a gerá-los. Esta atitude é quase sempre justificada pelo facto de que os trabalhadores não ajudaram no esforço de investimento inicial, nem nos subsequentes.

(continua)

O diretor

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