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A Crise Familiar – II

Famílias sem tempo para o serem 

Neste contexto, o que está a acontecer é a existência de um trabalho totalmente desproporcionado. Pais e mães desdobram-se em múltiplas tarefas ao longo de 10, 12 ou 14 horas diárias (muitas vezes ainda complementadas em casa com horas extra), em cada vez mais casos incluindo sábados, domingos e feriados. Tudo em nome da chamada flexibilidade laboral, a designação da nova escravatura. A escravatura laboral contemporânea deve então ser aceite com “boca fechada e sorriso aberto” porque os sujeitos que estão nessa situação “devem mas é estar gratos por ainda terem trabalho”. Vai então fazendo caminho a ideologia de que quem não aceita ou resiste a viver o trabalho como a única realidade/dimensão da sua vida é porque ou não sabe valorizar o facto de ainda ter um ganha-pão ou porque não gosta de trabalhar.

Os pais vivem então numa velocidade alucinante e em ritmo esquizofrénico no triângulo entre trabalho, escola e atividades extra-curriculares dos filhos. Não há tempo para pensar, dialogar, projetar, sonhar, viver… Estão envolvidos em projetos e reuniões que lhes consomem quase todas as horas e as energias do dia, sendo que os filhos crescem com pouco acompanhamento e referências, isto é, sem conhecer os seus pais e vice-versa. Não obstante esta realidade que se vai agravando anualmente, os pais procuram heroicamente responder às crescentes solicitações de uma escola, cada vez mais exigente com os alunos e com os encarregados de educação (e também com os professores), e, nessa medida, nenhuma geração teve pais tão presentes na comunidade escolar como a atual.

Existe mesmo uma obsessão técnico-científica nesta sociedade tecnocrática que desvaloriza a formação técnico-profissional e que impõe recorrentemente novos graus de formação académica que todos são pressionados a atingir, criando-se assim a ilusão de que se pode ser simultaneamente recém-formado e especialista na sua área de formação.

Os avós, também muito esquecidos e desapoiados quando não abandonados, ainda vão tentando ajudar, apesar de muitos ainda trabalharem, mas no futuro, com o aumento da idade da reforma (para além das baixas pensões que obrigam, cada vez mais, a trabalhar após a aposentação), será muito mais difícil que isto aconteça.

Neste sentido, o trabalho como modo de contribuição para o bem comum passou a ser, em certa medida, uma falácia pois não contribui, desde logo, nem para o bem do próprio trabalhador, nem dos que lhe são mais próximos.

Este modelo de organização impõe ainda um estilo de vida com consequências nefastas também ao nível da saúde. Basta pensarmos, por exemplo, em quantas pessoas que deixaram de ter tempo para dormir oito horas por noite porque são obrigadas a roubar tempo às horas de recobro para cumprimento dos afazeres diários. Isto para não falar nas doenças repentinas modernas provocadas por fatores de risco que a vida contemporânea impõe. Ou nos problemas de saúde trazidos pela falta de tempo para uma alimentação cuidada e equilibrada. Ou nos estados depressivos que enchem consultórios de psiquiatras e rendem milhões à indústria farmacêutica.

[dropcap]”[/dropcap]Se é verdade que muitos casais estão hoje, intransigente e egoisticamente, fechados à vida, muitos outros não assumem, nem nunca fizeram essa opção

Como consequência desta realidade, os lares também estão ao abandono e as famílias têm cada vez menos filhos. Uma família com três filhos, que antigamente poderia ser considerada pouco “aberta à vida”, hoje é já considerada uma família numerosa. Se é verdade que muitos casais estão hoje, intransigente e egoisticamente, fechados à vida, muitos outros não assumem, nem nunca fizeram essa opção, mas fica difícil nas atuais condições conseguirem ter mais filhos. Basta pensarmos quanto é que uma família em Portugal precisa ganhar para ter dois filhos num jardim-de-infância.

Não existe, portanto, tempo para o encontro familiar nem para as relações, nem para o afeto, nem para a partilha comunitária. O lar, como espaço de encontro, de entrega, de doação, de recebimento, está, cada vez mais, em risco.

Por outro lado, com a crescente realidade do desemprego existem cada vez mais famílias cujos membros são obrigados a emigrar. Por vezes, esta obrigação recai apenas sobre um dos cônjuges: aquele que perdeu o emprego. A emigração é apresentada como algo positivo porque é preciso “sair da zona de conforto”, o lugar dos “acomodados e fracassados”, dos que não arriscam, não crescem, não conquistam. No entanto, a economia atual aponta então aos trabalhadores a emigração com tudo o que isso trará de trágico para as famílias, particularmente para os mais idosos no que concerne ao seu (não) apoio pelos filhos. A emigração é também, muitas vezes, forçada pela deslocalização das empresas. Esta deslocalização de ativos/trabalhadores é apresentada e imposta como uma oportunidade única de “progressão na carreira” proporcionada pela economia global, quando levará a uma separação, cada vez maior, das famílias, sobretudo com consequências para os mais idosos, cada vez mais exilados, pelo crescente abandono familiar.

(continua)

O diretor

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