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A Crise Familiar – III

Correntes culturais egocentristas

Para tornar ainda mais complexo o contexto atual há ainda as correntes culturais inspiradas no hedonismo e no relativismo que lançam a confusão sobre a origem da felicidade.

Uma das que entrou em força exorta a gostarmos muito de nós mesmos em detrimento dos outros. Esta ideologia, que não tem a ver com autoestima mas com narcisismo e egoísmo, defende que o rumo da vida de cada um depende apenas do próprio e da sua vontade (autossuficiência). Nesse sentido, vale tudo e cada um pode e deve fazer aquilo que lhe apetece, sendo legítimo que proceda dessa forma desde que tenha prazer nisso, se sinta bem consigo próprio.

Vivemos, por isso, a ideologia do individualismo, da indiferença e do descarte.

Vivemos, por isso, a ideologia do individualismo, da indiferença e do descarte. Vivemos uma época do individualismo estimulado pelo fantasma da insegurança e do pretenso respeito pela esfera individual de cada pessoa e o seu direito à privacidade. Por causa disso temos vindo a adquirir tiques de desumanidade. O individualismo, que nos trouxe a todos para os apartamentos das cidades e motivou a desertificação do interior (incentivada por políticas nesse sentido), levou-nos à indiferença. Deixámos de saber pôr-nos na pele do outro porque deixámos de nos importar com ele. Agora só sabemos o que é estar na pele do outro quando, efetivamente, passamos pela mesma vivência por que o outro passa. Passámos a precisar de viver a mesma realidade, pois só o exercício de imaginar estar no seu lugar deixou de ser suficiente. E, quando não somos capazes de imaginar como seria de se estivéssemos no lugar do outro, quando nos tornamos indiferentes, facilmente descartamos o outro porque não conseguimos imaginar-nos no lugar dele. Pôr-nos na pele do outro é sempre um exercício indispensável, mas deixámos de saber fazê-lo.

Mas o que é o sucesso ou o fracasso? O que é vencer? É, cada vez mais, urgente refletir sobre estas questões.

Existe ainda uma obsessão com valores como a fama, o êxito, a ambição, o gosto e vontade de vencer, a determinação, a realização profissional, o empreendedorismo, o sucesso, tendo sido criada a ideia de que a sua consecução (para não vivermos como “fracassados” aos olhos dos outros) depende apenas de nós próprios, do nosso foco, da nossa persistência, da nossa atitude. Mas o que é o sucesso ou o fracasso? O que é vencer? É, cada vez mais, urgente refletir sobre estas questões. A obsessão com os valores referidos tem vindo a impor-se em detrimento de outros como o serviço, a assistência, a entreajuda, a amizade, o companheirismo, a cooperação, a filantropia, a abnegação, a solidariedade, a proteção, a fraternidade, a caridade, a gratuidade, a colaboração, a camaradagem, o altruísmo, o voluntariado, a convivência, o humanismo, entre outros.

Vivemos simultaneamente a época da informação e da contrainformação. A ideia de que o conceito tradicional de Família está a mudar para outros que não serão melhores nem piores porque apenas serão diferentes, não é verdade. Muitas das experimentações que estamos a realizar neste momento sob o logro do “progresso”, inspiradas pelas correntes culturais descritas, terão consequências que só daqui a algum tempo seremos capazes de medir.

Sem Família não há Igreja

Sem famílias não há Igreja. A Família tem que ser Igreja, mas só o conseguirá se primeiro conseguir ser Família. O que está a acontecer é que a Família não está a ter tempo nem condições para ser Família.

A reflexão da Igreja Católica sobre a Família e os seus problemas limita-se, na maior parte dos casos, a aferir da sua prática religiosa e da sua aceitação da mensagem de Jesus Cristo e da doutrina e moral católicas, bem como do nível do seu compromisso cristão, medido pelo testemunho na sociedade. Na maior parte dos casos em que a Igreja se propõe refletir sobre a Família, a reflexão não incide sobre as reais causas da crise familiar.

Estas condicionantes sócio-económicas e culturais, na medida em que influenciam a vida do homem, influenciam também o trabalho e a vida da própria Igreja. Por exemplo, com o fenómeno da emigração, a própria Igreja também perde porque a identidade religiosa diminui sempre que há fator de mobilidade das pessoas. Outro exemplo: se um cristão descura o apoio e acompanhamento aos seus pais, sobretudo na velhice, põe-se um problema de coerência de vida e de fé e a credibilidade dos cristãos fica em causa, logo a credibilidade da própria Igreja.

Se é verdade que o contexto da sociedade atual é, cada vez mais, desfavorável à manutenção de casamentos duradouros, também é um facto que muitas pessoas perderam a consciência de que a própria felicidade se alcança construindo a felicidade do outro e deixaram de se casar com intenção de fazer o cônjuge feliz, de fazer da sua vida uma dádiva de amor ao outro. Muitos cônjuges deixaram de saber renunciar à sua própria vontade em favor da vontade do outro. Foi-se criando na sociedade a mentalidade de que o casamento deve ser entendido à partida como algo que é limitado, efémero. Tal como nos restantes âmbitos da vida, também na relação conjugal o nível de tolerância (muito influenciado pelas correntes ideológicas acima referidas) nunca esteve tão baixo. A tolerância existente entre cônjuges é mínima e, em muitos casos, ao menor problema, a rutura surge como a solução mais fácil. Deixou de se cultivar o amor na relação e o amor precisa de ser permanentemente cuidado.

É preciso tolerar e reaprender a perdoar porque todos erramos. Esta aprendizagem nunca está feita e é preciso exercitá-la todos os dias juntamente com a paciência, recomeçando em cada manhã.

(continua)

O diretor

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