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Educação em tempos difíceis? Bispo de Setúbal lembra que a “formação do coração é essencial”

Foto © Ricardo Massano

“Sede semeadores de vida, não só nas vossas famílias, mas na família mais alargada que é a escola, a Igreja e a sociedade em geral”. Foi com este desafio aos educadores presentes que o bispo de Setúbal concluiu a sua reflexão na passada quinta-feira à noite no Colégio de Nossa Senhora do Alto, em Faro.

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D. José Ornelas veio ao Algarve como orador da conferência promovida por aquela instituição educativa sobre o tema “Educação. Tempos difíceis, Tempos de novas oportunidades. O papel da família na escola”, destinada a pais e demais educadores.

O bispo de Setúbal começou por frisar que “educar em tempos de mudança, não é fácil mas é interessante”. “Não é simplesmente uma época de mudanças. É uma mudança de época, uma mudança de civilização, a que estamos a viver”, considerou, acrescentando que a mesma “não é conjuntural”, mas “estrutural” e “a nível mundial pela primeira vez”. “É de civilização, de cultura, de relações sociais, de valores, de economia”, complementou, sublinhando que “o mundo mudou radicalmente” e não apenas “tecnologicamente”. “Mudaram os hábitos. Tudo foi posto em questão, os gostos, os valores, a visão do mundo, as perspetivas de futuro”, constatou.

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Nesta, que disse ser a “época da pós-verdade”, “a autoridade mudou completamente, as mudanças são rápidas e provisórias e a estabilidade vai ser a estabilidade da mudança”, advertiu, acrescentando que “a mudança veio para continuar a mudar e vai continuar a mudar”. “Aquilo que estamos a ver é só a ponta do icebergue”, avisou, considerando que estes “tempos de relativismo” são “difíceis”, mas também “de novidade, de possibilidade, de novos valores universais, de oportunidades novas” e de “novas possibilidades de estar presente, de intervir, de lançar sementes”.

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“É inútil queixar-se. Isto está aí, não nos pediram licença, nem nos dão a possibilidade de desligar”, alertou, considerando “quem está na educação, quem quer ser parte da mudança, não pode ficar ao lado”.

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Lembrando que “a Igreja foi um agente de mudanças radicais” e que a “identidade cristã é uma identidade de mudança”, o prelado exortou a Igreja a “estar presente como fermento”, a “estar no meio do mundo em diálogo”, a ser “cuidadora” e não “predadora”. “Uma Igreja, não da lógica do poder mas do serviço, não predadora mas materna, atenta aos mais frágeis. Uma Igreja educadora, uma Igreja que é família”, explicou, considerando que “continua a ser necessário o testemunho clarividente da coerência e do afeto”.

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Salientando que a Igreja deve ajudar a “educar para estar neste mundo”, defendeu que “este é um tempo de criar e de mudar, de perder o medo e de perder essa saudade nostálgica do passado” e desafiou à necessidade de “educar para a liberdade, criatividade, discernimento, esperança, responsabilidade e atenção à natureza e à humanidade”. O “grande desafio” disse ser o de “tornar credível, atraente e apetecível a casa, a escola, a Igreja”. “O valor do contacto pessoal é tudo porque gera tudo. A credibilidade da vida, do testemunho e da comunicação dos valores é fundamental”, acrescentou.

Concretamente sobre a escola frisou que a Igreja tem “algo a oferecer”. “Não renunciamos a ser uma escola cristã, mas não somos uma escola sectária. A nossa escola há-de ser uma escola aberta, mas não pode deixar de ser cristã”, destacou, considerando que “a escola cristã tem de ser um laboratório de identidade, mas ao mesmo tempo sem sectarismos e fanatismos”.

D. José Ornelas aludiu à necessidade de “educar para pessoas livres, criativas, participativas, a partir do evangelho” e lançou o “desafio da excelência”. “A nossa escola tem de ser uma escola de excelência”, exortou, pedindo “novos modos de ajudar a servir, viver, inventar, participar”. Para além da excelência “científica, pedagógica” e também “financeira”, relacionada com a “viabilidade económica sem a qual não funciona”, o orador deixou claro que “a verdadeira excelência está ligada à partilha do pão”: a “excelência solidária e evangélica para com os mais frágeis, os imigrantes, os grupos minoritários”.

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Nesse sentido, desafiou à criação de “uma escola de integração e de atenção à fragilidade”, lembrando que importa “educar pessoas honestas, coerentes”. “Não formamos apenas técnicos, mas formamos pessoas”, diferenciou, garantindo que neste domínio a “formação do coração é essencial”.

Defendendo a “inteligência da complementaridade entre o público e o privado” na educação, o bispo de Setúbal explicou ser “favorável a que o Estado crie a sua rede de educação pública”. “É seu dever porque toda a gente tem de ter o direito de opção e para ter o direito de opção significa que também aqueles que querem uma escola diferente têm esse direito porque pagam impostos como os outros”, sustentou.

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