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O ano litúrgico proporciona-nos sempre pela Quaresma um tempo de meditação. São 40 dias que vão da quarta-feira de cinzas à quinta-feira santa. Dias que vão dos resíduos do fogo, as cinzas, ao reacender da fogueira do mandamento novo do amor. Até à celebração do mistério da Eucaristia, que é comunhão universal, íntima e plena de Cristo com a humanidade e da humanidade com Cristo. A Quaresma deverá predispor-nos para as comemorações do tríduo pascal fazendo-nos meditar no binómio vida/morte: na vida que é morte e na morte que é vida. No primeiro caso não me estou a referir ao afastamento voluntário e determinado da Fonte de Vida, que pode provocar um estado de morbidez arrastada, mas sim ao facto concreto de todos os dias morrermos um pouco. Como já alguém disse, "um dia a mais na vida é sempre um dia a menos para viver". O nascimento do homem (ou de qualquer ser vivo), desenvolve-se e caminha inexoravelmente para a morte, para o encontro e a união das extremidades da linha circular da existência. No segundo caso estou a referir-me ao último momento de vida, que traz consigo a morte, e ao primeiro momento da morte, que traz consigo a vida.

E era aqui que eu queria chegar.

O tríduo pascal, depois de ter passado pelas trevas da paixão e morte do Salvador, explode no esplendoroso aleluia da ressurreição. Três dias após ter dito "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc. 23, 46), na madrugada do Primeiro Dia, o túmulo estava vazio – "Porque buscais entre os mortos Aquele que vive? Não está aqui, ressuscitou!" (Lc. 24, 5-6).

Ao longo das catequeses foi-nos ensinado esperar pela ressurreição do último dia. Até lá, como "salas de espera", havia vários lugares – o inferno, o purgatório, o limbo… Até o céu era lugar onde se esperava pela ressurreição final.

E hoje? Hoje há a novidade das "coisas últimas", que aprofundam e fazem resplandecer uma nova evangelização, uma outra maneira de entender e de nos deslumbrarmos com as palavras que, podendo ser as mesmas, têm um novo sentido, uma outra verdade.

Na modernidade dos nossos dias, para além do que nos ensinaram ser apenas o voltar a viver, o tornar a ter vida, o que é ressuscitar? O Pe. Vasco Pinto de Magalhães diz que "ressuscitar é a ação do amor vivo e presente em nós. O amor criador é também ressuscitador; (…) é ele que dá sabor à vida e revela a verdadeira vida escondida, desde já, na opacidade do nosso olhar e nos egoísmos mortais do nosso agir. Ressuscitar é também o exercício de ver e participar no mais fundo da vida que anda aí de braço dado connosco, invisível. (…) é ir para além das nossas mortes e encontrar o tesouro dos pequenos nadas e compreender que os vazios estão cheios de graça".

Por esta novidade ficamos a saber que ressuscitar é um exercício de vida, uma prática de amor, um rasgar do véu que não nos deixa ver os nossos egoísmos, é participar na vivência e no sentir dos outros, andar de mão dada com a vida, saltar por cima das nossas mortes (vícios, erros, faltas, doenças, tristezas e lágrimas), até por cima das nossas fomes e das nossas sedes, na certeza de serem saciadas no jorro de água viva do Ressuscitado.

Apesar de todas as aleluias deste ressuscitar, de uma vida ressuscitada, a todo o momento, em cada alegria, em cada gesto de amor, em cada respiração, apesar da ressurreição ser tudo "isso que já nos está a acontecer de estarmos continuamente a passar para Deus", e de já participarmos da vida eterna concedida pelo batismo, no qual já ressuscitámos como iniciados da salvação, é-nos lícito e lógico fazer a pergunta: mas, concretamente, dado que estamos ainda condicionados ao espaço e ao tempo, quando é que acontece a Ressurreição? Mais uma vez me sirvo da resposta do Pe. Vasco: Acontece "na hora da nossa morte, no encontro com Deus que é ressuscitante. (…) Na morte, ressuscito! É a minha ressurreição individual, a ressurreição pessoal".

É isso que lá está, na narração da Paixão, quando o bom ladrão suplica: "Jesus, lembra-te de mim quando estiveres no teu reino", e Cristo responde: "Em verdade, em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso." (Lc, 23, 42-43)

Hoje, hoje mesmo. O encontro está marcado para esse momento.

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