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Como "um tesouro escondido", diz Tolentino Mendonça: "Há sempre um horizonte novo que Deus abre à nossa humanidade." E conta que o Cardeal Newman, considerando a Fé como desenvolvimento e maturação da alma para a Verdade, dizia que, "aqui na terra, viver é mudar, e a perfeição é o resultado de muitas transformações".

Esta profundíssima riqueza de pensamento, que engloba Fé, Verdade e Vida, mas também a necessidade de mudança para atingir a novidade da perfeição, faz com que, mais uma vez, me reporte ao Pai Nosso. Gosto de o rezar assim, sozinho, discorrendo sobre novos sabores das palavras, aprofundando o louvor e a prece de cada expressão, sem sequência ou (im)possível ordem qualitativa, como se, no tempo de entrega a cada frase (como verso de um poema), só ela existisse, e muito embora com poucas palavras, se completasse como oração. Fazendo um insistente percurso de descoberta, de encontro com Deus.

Nós, cristãos, afundamo-nos nesta busca, mas conforta-nos saber que, na verdade, "não seríamos buscadores de Deus se não O tivéssemos já encontrado, mas o desejo de um amor incondicional faz-nos perceber que o primeiro encontro é apenas o começo. (…) A Fé é uma história de fidelidade que se constrói, não é um mero instrumento de um momento".

Na oração que Jesus nos ensinou, abrindo um horizonte novo à nossa humanidade, "é sempre em torno da descoberta do Pai que somos colocados".

E quando pedimos Pai, venha a nós o vosso reino, que ideia fazemos deste reino? Será um espaço, um lugar, uma situação, um sentimento, um tempo, um futuro, ou um presente? Por definição linguística, reino de Deus é o paraíso, a vida eterna, o mesmo que reino dos céus. Por ensinamento doutrinal, o n.º 2818 do Catecismo diz que "Na oração do Senhor trata-se, principalmente, da vinda final do Reino de Deus pelo regresso de Cristo". Mas o n.º 2819 acrescenta, conforme Rm.14, 17: "O Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo". Ao longo dos anos e ainda hoje, muita gente pede a vinda do reino como santa e profunda ansiedade pela chegada da morte, da entrada no paraíso, do descanso eterno; ou, aligeirando um pouco, pensando: Senhor, quando um dia mais tarde, no fim desta caminhada, chegar a nossa hora, venha a nós o teu reino, faz-nos entrar nele, leva-nos para o céu.

Não estou a menosprezar estes desejos, suscitados por estas convicções. Pretendo simplesmente realçar, mais uma vez, o sentido das palavras, a boa nova destes tempos últimos, e a busca de uma verdade mais profunda e atuante.

Para mim, de certo modo, o "território" em que vivemos, nos movimentamos e existimos, é pátria, nação e reino. S. Paulo, ao discursar aos gregos no Areópago de Atenas, referindo-se ao Deus único que criou o mundo e tudo quanto existe, que é o Senhor do céu e da terra, disse-lhes precisamente isso: "é n’Ele que vivemos, nos movimentamos e existimos" (Act.17, 26-28). Assim, o que pedimos que venha a nós é o reinado do Espírito Santo, Senhor que dá a Vida, Deus de Luz e de Amor. O reino, herdámo-lo nós há dois mil anos e, muito embora seja um futuro eterno, é um presente dinâmico e construtivo.

Há duas parábolas que, juntas, me fazem sentir melhor o que é o reino: a parábola do semeador (Lc. 8, 4-8) e a do grão de mostarda (Lc. 13, 18-19). Faço do coração o campo por onde o semeador passa, lançando a semente. Apesar das muitas que se perdem por falta de condições do terreno, uma delas cai no lugar certo, naquele reduzido espaço que a aguardava e desde sempre lhe fora destinado. E brota e desenvolve-se e cresce e dá fruto em abundância. Na outra parábola, Lucas conta que Jesus disse: "A que é semelhante o reino de Deus e a que posso compará-lo? É semelhante a um grão de mostarda que (…) cresceu, tornou-se uma árvore e as aves do céu vieram alojar-se nos seus ramos".

O que rezamos ao Pai é que essa árvore cresça no nosso coração, se alimente do nosso sangue, da nossa vida, e dê abrigo ao bem, à paz, à justiça e ao amor, em sentimentos, em gestos e em obras.

"Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu Filho" (Gl. 4, 4). E Jesus, ao encaminhar os doze para a missão, recomendando-lhes que praticassem o bem, disse-lhes: "Pelo caminho proclamai que o Reino dos céus está perto" (Mt. 10, 7), mas acrescenta noutra passagem que "o Reino de Deus já chegou até vós" (Lc. 11, 20) e, ainda mais concretamente, ao ser "interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o reino de Deus, Jesus respondeu-lhes: O reino de Deus está dentro de vós" (Lc. 17, 20-21).

Por isso, o que, num desejo incontido, pedimos ao Pai é que o reino que estabeleceu entre nós desde que o tempo atingiu a sua plenitude, nos dê a conhecer (como pão nosso de cada dia), numa descoberta imparável, as maravilhas do rei e do reino. Até atingirmos a Sua glória na plenitude do nosso tempo.

Silva Carriço
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