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Já contestei publicamente um conceituado poeta quando, ao dissertar sobre a palavra, o ouvi dizer que "a palavra é uma pedra que se atira". E eu dizia que, muito embora ao ser atirada atinja quem a ouve e quem a lê, sendo pedra, é alicerce e material de construção. Com ela se constroem monumentos de literatura, catedrais de poesia, se ornamentam vãos abertos nas muralhas do pensamento. Mas a palavra não é só pedra angular. É aventura de descoberta. Ao lado da imagem e do som, é uma das formas mais perfeitas de comunicação e de revelação. De tal forma que o Filho de Deus se fez Palavra do Pai! E o que a palavra tem de mais fascinante é a sua permanente novidade. Curiosamente, quase como a Palavra de Deus.

Na doutrina da fé, as palavras vão (felizmente) aprofundando o seu sentido, atualizando o seu significado, denunciando a sua verdade.

Sujeita à erosão dos tempos, a palavra vai-se desgastando e gastando, perdendo a forma e o sentido. No entanto, é no miolo da palavra, na sua matriz mais profunda, que está o seu mais perfeito significado e, apesar de ser material em evolução, a sua maior riqueza advém-lhe da raiz que, depois, se vai abrindo em leque de novos sentidos.

Por tudo isto a palavra é um filão a explorar. Em busca da verdade – das coisas, das pessoas, do mundo, da fé.

Como exemplo deste meu sentimento agarro novamente no começo da oração do pai nosso. Que estais nos céus. Também já se rezou o "pai nosso que estais no céu". Um céu no singular. Era assim ainda não há muitos anos. Agora, o plural é mais esclarecedor, embora a palavra céu seja das tais já muito gastas, muito leves pelo uso e, talvez, muito pouco pensada ou muito mal interpretada. Céu é uma palavra largamente abrangente em significado. Não menos abrangente em interpretação, em leitura. Mas também em altura e em profundidade.

O seu significado mais corrente talvez seja o de abóbada celeste, firmamento, espaço acima das nossas cabeças limitado pelo horizonte. De facto, se olharmos para o céu, o que a visão humana enxerga, vai do negro vazio da noite escura ao deslumbramento de uma noite estrelada ou à contemplação do doce e sereno luzeiro lunar. Do profundo e incomparável azul celeste, ao fogo que arde no sol, às nuvens que cavalgam nos sonhos, se nimbam de luminosas auréolas ou se vestem de oiro e de vermelho antes do fim do dia.

Isto é o que qualquer pessoa vê e repara, mais ou menos atentamente conforme a sua sensibilidade. Este céu é um dos muitos retratos da beleza de Deus. Por isso é – também – um dos céus do pai nosso.

Mas o dicionário, entre outras definições, diz ser o céu uma "região que, segundo certas crenças religiosas, é habitada por Deus e para onde vão as almas dos justos; morada eterna, reino da glória divina; espaço supostamente ocupado pelos deuses e forças sobrenaturais". Confesso: este não é o "meu" céu. A doutrina e a fé já avançaram muito para além deste lugar, desta região, desta morada, deste espaço.

O céu não é a mansão dos mortos. Antes pelo contrário – é Vida. E não me estou a referir à "vida eterna", mas sim a tudo o que vive. A natureza é um retrato vivo de Deus, a beleza habitada por Deus, um dos espelhos do céu que Deus é. Mas também a respiração de um Deus único, que tudo criou do nada, e a tudo deu vida para O conhecermos e amarmos, mergulhados e integrados nessa vida que é céu, nesse céu que é vida. Porque Deus está em nós, nos enche o coração, nos circula nas veias, explode nos nossos pensamentos e move os nossos gestos, também nós somos céu. Tal como são os olhos das crianças refletindo o seu céu interior, como são as lágrimas dos solitários e dos velhos espraiando-se nas margens do rio do seu céu de amargura. De mão dada com o amor vivido.

Tolentino Mendonça diz: "Na base de toda a oração está o binómio proximidade/distância experimentado na relação do homem com Deus. Distância mantida porque Deus é Deus. Mas proximidade consentida porque Deus é amor (…) Jesus vence a distância que separa a terra do céu". E, segundo o teólogo John Peter Kenny, "pergunte-se a Jesus o que o nosso céu é. A Sua resposta é extremamente original: o que é o céu? Sou Eu próprio. Eu sou o céu." E se, para fazermos caminho, formos nós a perguntar: mas onde é que Jesus está? talvez oiçamos responder – em lugar nenhum, está em toda a parte. Está no coração de cada um de nós.

Está no amor. É esse o céu.

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